Pular para o conteúdo principal

O que é interdependência

Adriana Tanese Nogueira

Dois pombos bicam o grão no chão quando um deles infla as penas do pescoço, vocalizza um hu-hu hu-hu hu-hu e anda em círculo em volta do segundo pombo que continua olhando para o chão aparentemente indiferente. Na verdade, seu comportamento é instintivo e finalizado, o segundo pombo vai andando com ar desinteressado e procurando comida, enquanto o primeiro continua atrás e em volta dele. Sua função é “testá-lo”, não é qualquer um que pode dar continuidade à espécie.
          Esta é uma cena de um macho fazendo a corte à fêmea. Ambos têm inscrito geneticamente o próprio comportamento e o do outro, suas expectativas se casam antes mesmo de haver um acasalamento. Não há surpresas, dúvidas ou escolha, eles estão projetados há milhões de anos para a cena que assistimos e tudo o que devem fazer é deixar desenrolar o que está inscrito, ativando a mensagem e a resposta.
          Interdependência é ter a própria identidade decorrente da do outro. Numa relação interdependente cada um dos dois representa um papel complementar, que se goste ou não deles.
          O protótipo de todas as relações é o primeiro modelo em absoluto na vida de cada pessoa: o da mãe-filho. Por definição, não há uma sem o outro. A característica desse tipo de relação é que ela dá, ele recebe, ela é ativa, ele é passivo. O papel materno é o da nutriz em termos de comida, carinho, acolhimento, compreensão, paciência, generosidade, incansabilidade. O papel filial é o de ser o objeto da atenção da mãe; o filho é frágil, carente, indefeso, precisa ser compreendido, suas necessidades advinhadas (antes mesmo que ele as expresse).
          Este se estabelece  como o modelo de todas as relações afetivas entre os gêneros e será reproduzido com a mulher que o filho encontrará quando adulto. Por imitação da própria mãe (e das demais mulheres) e/ou por treino (brincando com bonecas), a mulher “instintivamente” saberá como “pegar” o homem que encontrar. Se ela não entender logo, ele dará um jeito de “educá-la” premiando-a quando se comporta “bem”, ou seja conforme o esperado, e punindo-a quando se comporta “mal”.
          Finalmente, eles irão entender-se perfeitamente (mesmo no caso em que tenham uma relação neurótica e nociva) uma vez que se encaixarem direitinho na relação de interdependência “inscrita psicologicamente” neles e reforçada pela “educação” recíproca. Como numa grade precisa, lugares, tempos, rítmos individuais estarão definidos, assim como o que pode e o que não pode, o que dá para falar e o que não dá, e etc. Uma vez aprendido o próprio papel, para a máquina relacionar funcionar basta seguir no trilho.
          O problema com esse modelo é que não sendo pombos não vivemos de reprodução da espécie. A repetição de papeis dados pelo resto da vida é um lento suicidio da processo evolutivo pessoal. Manter-se no trilho garante a presença do outro (até quando o outro aguentar) mas também a perda da liberdade de ser.
          Por liberdade de ser entendo a possibilidade de experimentar novos aspectos de si, mudar de idéia, de vida, de perspectiva. É preciso de liberdade interior para dar voz às novidades que brotam de dentro e portanto para crescer como indivíduos ampliando a cada dia os horizontes.
          Numa relação de interdependência, toda mudança de um dos parceiros é obviamente vista como ameaçadora, pois a relação está de pé porque cada uma faz a sua parte dentro do modelo inicial, o qual é o pilar fundante da identidade de cada um. Mudar a planta da casa significa arriscar que ela desmorone. Quanto mais rígidos os papeis mais assustadora é a perspectiva da mudança e portanto piores as reações frente à sua possibilidade. Homens podem entram em pânico, ou ficam furiosos. Mulheres têm ataques de nervos e fazem escândalos. A relação mãe-filho é complementada pela de pai-filha, mudam os nomes, mas a dinâmica é a mesma.
          Interdependência é sempre uma camisa de força. Uma vez nela, sair significa aguentar o próprio processo de ruptura de padrões acompanhado por sentimento de culpa e medo, mais a turbulência provocada pela outra pessoa. Entretanto, é o único jeito para ingressar na idade adulta.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que fazer com um marido alcóolatra?

NOTA: Pessoal, estou com dificuldade em responder às suas perguntas porque a página está ficando "longa" demais, por isso criei esta outra página (O que fazer com um marido alcoólatra 2) para conversarmos por lá, ok? O Blogger está "em crise": comentários demais! O problema é graaaande, certo? Abraço, A.


"Bom dia Adriana,
Gostaria muito de um conselho, se é que isso é possível.
Em uma das minhas inúmeras buscas na internet por uma luz, um consolo para essa minha vida miserável de esposa de alcoólatra, estava lendo um texto seu "O que fazer com um pai alcoólatra" e resolvi lhe escrever.
Acho que eu e meus filhos é que estamos no fundo do poço. Meu casamento de 19 anos, um casal de filhos e a cada dia que passa fico mais perdida e desiludida. Já perdi a esperança de um dia viver em paz com meus filhos. Tenho aguentado tudo isso por eles. Meu filho mais novo (12 anos) gosta muito do pai e acho que não suportaria se eu o abandonasse. Fico nesse dilema: será q…

O que fazer com um pai alcóolatra

Adriana Tanese Nogueira 
Um leitor, após ler meu texto "Obsessores: quem como e por quê" me escreveu pedindo aconselhamento a respeito de seu pai. Infelizmente, o email acabou sendo deletado pelo sistema e respondarei a S.L. por aqui.
Em primeiro lugar, alcoolismo é alcoolismo mesmo quando a crise, resultado da bebida, acontece uma vez por ano. Que a pessoa beba todos os dias ou de vez em quando (como muitos gostam de chamar com um eufemismo, "socialmente") não importa. Deve-se atentar para o desfecho. O não-alcoólatra quando bebe muito passa mal, o alcoólatra tem uma crise violenta, exagerada, "possessa".

Alcoólatras agridem verbalmente as pessoas que mais amam, quanto mais próxima for a pessoa mais esta sofrerá. A agressão pode ser física ou verbal, mas é sempre de nível extremamente baixo. Parece que o objetivo do alcoólatra é acabar com o outro, frantumar sua auto-estima, afogá-lo na culpa, rasgar-lhe qualquer dignidade. Após ter vomitado violentemente t…

Manipuladores

Adriana Tanese Nogueira
Há dois tipos de manipuladores: os maquiavélicos e os “bonzinhos”. Os primeiros sabem o que estão fazendo, os segundos “não sabem que sabem”. em ambas as categorias há uma gradação de consciência que vai da nível mais consciente (a pessoa está perfeitamente desperta) para aquele parcialmente ou totalmente “distraído”, que é de quem faz “sem perceber”.
O maquiavélico em sentido estreito é aquele indivíduo que, determinado em alcançar sua meta, toma as medidas necessárias mesmo que tenha que enganar o outro, porque, como ensinou Machiavel, “o fim justifica os meios”. O manipulador maquiavélico é esperto,  oportunista, calculador e rápido no agir. Como, porém, nem todo mundo é dotado da inteligência afiada de um Maquiavel, mas não deixa de ser oportunista, há muitas pessoas que manipulam os outros e as situações tentando, ao mesmo tempo, se escondendo de si mesmos. Se trata de uma complicada acrobacia mental que leva à neurose. É como se uma mão “não soubesse” o que …