07/07/2010

O que é interdependência

Adriana Tanese Nogueira

Dois pombos bicam o grão no chão quando um deles infla as penas do pescoço, vocalizza um hu-hu hu-hu hu-hu e anda em círculo em volta do segundo pombo que continua olhando para o chão aparentemente indiferente. Na verdade, seu comportamento é instintivo e finalizado, o segundo pombo vai andando com ar desinteressado e procurando comida, enquanto o primeiro continua atrás e em volta dele. Sua função é “testá-lo”, não é qualquer um que pode dar continuidade à espécie.
          Esta é uma cena de um macho fazendo a corte à fêmea. Ambos têm inscrito geneticamente o próprio comportamento e o do outro, suas expectativas se casam antes mesmo de haver um acasalamento. Não há surpresas, dúvidas ou escolha, eles estão projetados há milhões de anos para a cena que assistimos e tudo o que devem fazer é deixar desenrolar o que está inscrito, ativando a mensagem e a resposta.
          Interdependência é ter a própria identidade decorrente da do outro. Numa relação interdependente cada um dos dois representa um papel complementar, que se goste ou não deles.
          O protótipo de todas as relações é o primeiro modelo em absoluto na vida de cada pessoa: o da mãe-filho. Por definição, não há uma sem o outro. A característica desse tipo de relação é que ela dá, ele recebe, ela é ativa, ele é passivo. O papel materno é o da nutriz em termos de comida, carinho, acolhimento, compreensão, paciência, generosidade, incansabilidade. O papel filial é o de ser o objeto da atenção da mãe; o filho é frágil, carente, indefeso, precisa ser compreendido, suas necessidades advinhadas (antes mesmo que ele as expresse).
          Este se estabelece  como o modelo de todas as relações afetivas entre os gêneros e será reproduzido com a mulher que o filho encontrará quando adulto. Por imitação da própria mãe (e das demais mulheres) e/ou por treino (brincando com bonecas), a mulher “instintivamente” saberá como “pegar” o homem que encontrar. Se ela não entender logo, ele dará um jeito de “educá-la” premiando-a quando se comporta “bem”, ou seja conforme o esperado, e punindo-a quando se comporta “mal”.
          Finalmente, eles irão entender-se perfeitamente (mesmo no caso em que tenham uma relação neurótica e nociva) uma vez que se encaixarem direitinho na relação de interdependência “inscrita psicologicamente” neles e reforçada pela “educação” recíproca. Como numa grade precisa, lugares, tempos, rítmos individuais estarão definidos, assim como o que pode e o que não pode, o que dá para falar e o que não dá, e etc. Uma vez aprendido o próprio papel, para a máquina relacionar funcionar basta seguir no trilho.
          O problema com esse modelo é que não sendo pombos não vivemos de reprodução da espécie. A repetição de papeis dados pelo resto da vida é um lento suicidio da processo evolutivo pessoal. Manter-se no trilho garante a presença do outro (até quando o outro aguentar) mas também a perda da liberdade de ser.
          Por liberdade de ser entendo a possibilidade de experimentar novos aspectos de si, mudar de idéia, de vida, de perspectiva. É preciso de liberdade interior para dar voz às novidades que brotam de dentro e portanto para crescer como indivíduos ampliando a cada dia os horizontes.
          Numa relação de interdependência, toda mudança de um dos parceiros é obviamente vista como ameaçadora, pois a relação está de pé porque cada uma faz a sua parte dentro do modelo inicial, o qual é o pilar fundante da identidade de cada um. Mudar a planta da casa significa arriscar que ela desmorone. Quanto mais rígidos os papeis mais assustadora é a perspectiva da mudança e portanto piores as reações frente à sua possibilidade. Homens podem entram em pânico, ou ficam furiosos. Mulheres têm ataques de nervos e fazem escândalos. A relação mãe-filho é complementada pela de pai-filha, mudam os nomes, mas a dinâmica é a mesma.
          Interdependência é sempre uma camisa de força. Uma vez nela, sair significa aguentar o próprio processo de ruptura de padrões acompanhado por sentimento de culpa e medo, mais a turbulência provocada pela outra pessoa. Entretanto, é o único jeito para ingressar na idade adulta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário