06/07/2010

Por que algumas crianças não crescem

Adriana Tanese Nogueira

Nadia, Mariana e Ricardo (nomes fictícios) são três crianças normais em todos os sentidos, se não fosse a estrutura óssea miúda e a estatura que melhor combinaria com uma criança de 5 anos, não de 10, que é a idade dos três. Mais interessante ainda, Nadia e Mariana têm irmãos mais velhos cujo tamanho físico é congruente com o dos pais.
          Intuitivamente, esperamos que pais grandes tenham filhos grandes, pais altos filhos altos, pais baixos filhos baixos, pais miúdos filhos miúdos. Nadia e Mariana têm genitores com estrutura física padrão, os pais entre 1,60m. e 1,75m., as mães entre 1,60 e 1,65., aturas consideradas normais para a geração que tem hoje cerca de 40 anos. Por que então suas filhas de 10 anos são tão pequenas? E não só: o tamanho dos ossos parece frágil. O mesmo vale para Ricardo, sendo que ele é filho único. Com 10 anos, ele tem o sorriso e o olhar vivo de um menino da sua idade mas a estrutura física de uma criancinha. Os anos passam e enquanto as outras crianças a cada novo ano escolar estão maiores, estas parecem estar estancadas no mesmo tamanho. O que acontece?
          Todas vêm de famílias de classe médica, com certeza não falta comida na mesa. Não vou analisar as características genéticas de cada uma, pois foge à minha alçada, o que eu quero é apontar para outro quadro ao qual se dá geralmente pouca atenção: as relações familiares, em particular entre e com os pais.
          O pai de Nadia é um homem barrigudo, com cara antipática, dono de uma lanchonete. Sua esposa, magra e com roupas estilo juvenil, usa o cabelo comprido e uma franja sempre tão longa que quase lhe cobre os olhos. Ela faz revenda de sapatos e bolsas. Seu filho é um menino robusto, parecido com o pai, sempre bem penteado e com cara séria. Apesar de seus 12 anos, exibe um espantoso ar de superioridade. Sua irmã quando fala dele usa superlativos, parece que ele é o reizinho da família e, pela expressão no rosto dele, ele sabe disso.
          Os pais de Mariana estão juntos há 15 anos. O pai, homem feio e com ar de auto-confiança, é pelo menos 10 anos mais velho da esposa. Pelo que a filha contou entre lágrimas num momento de desabafo os pais bringam muito. A mãe dela, mulher de bela aparência que ainda  parece uma garota apesar de vestir-se sempre mais ou menos igual e de forma não chamativa, não deixa transparecer nada a respeito dos problemas com o marido, mas como muitas mulheres se vangloria de estar ainda casada com o mesmo homem por tanto tempo “até quando durar”. Católicos fervorosos, vão à igreja regularmente. Ambos trabalham numa pequena lanchonete de sua propriedade num posto de gasolina. Ele não permite que Mariana vá com uma amiga vizinha de casa e a mãe desta para ir ao parquinho do outro lado da rua brincar. Aparentemente, ele não confia na mulher, talvez por ela ser separada. Apesar disso, a olha com uma atenção diferenciada toda vez que a encontra na rua. A mãe de Mariana aparenta submissão e impotência, o marido é claramente o patrão da casa. A família dela não mora na mesma cidade, de modo que todas as festas e férias são com a família dele. A irmã mais velha de Mariana, já adolescente, tem sua vida, fala pouco com a irmã menor e parece pertencer a outro mundo.
          Seja Nadia que Mariana mentem, sobre escola, gostos e o que fazem em casa, sobre seus pais e suas férias. É difícil distinguir o que é real do que não é, mas no geral há sempre aqui e alí uma mentira, uma pequena ou grande modificação da realidade.
          Ricardo é um menino de bom caráter e animado, mas realmente muito miúdo. Sua mãe tem cerca de 1,65m., magra mas não demais. Porém seu rosto demonstra uma rigidez e tensão que a faz parecer mais magra do que é. Dá pouca atenção ao filho, do alto de sua estatura faz um gesto com a mão para que ele se cale ou espere, há sempre algo mais importante para tratar, o celuar toca, alguém fala, uma informação para pegar. Ricardo é paciente, talvez esteja acostumado. Não deve ser fácil conviver com alguém tão central na vida de uma criança como a mãe que nos coloca de escanteio.
          As três crianças não têm permissão para crescer, no sentido de se desenvolver e expandir. Podem ser exigidas para serem “grandes” no sentido mental e emocional, mas não recebem as condições para crescer como sujeitos e “ocupar seu espaço”. Falta o alvará para serem indivíduos, é como se estivessem em compasso de espera. Toda criança gera mudanças, com o passar dos anos sua personalidade e caráter se tornam sempre mais definidos, o que leva a opinar, escolher e, eventualmente, se posicionar.
          Nadia e Mariana são meninas que pertencem a famílias patriarcais. Nadia vive do reflexo da mãe a qual passa grande parte de seu tempo no shopping, consequentemente esses são os valores da filha. Ambas veneram o filho, símbolo da masculinidade, o “salvador” e o “príncipe”. Logo, qual é o espaço que sobra para Nadia?
          Mariana nasceu provavelmente num momento de crise do casamento dos pais, quando a irmã mais velhas já estava “criada” e uma nova criança veio para reaglutinar um casal cansado. A religião dos pais e sua dependência recíproca lhes impede de pensar a vida de forma alternativa, portanto ele permanece no lugar do chefe e ela da seguidora submissa que se auto-engana para manter as aparências e acalmar os medos internos que uma revolução de papeis provocaria.
          Ricardo fica em seu canto para não dar trabalho e não incomodar sua mãe, mulher um tanto azeda e distante. Ele faz o que pode para continuar sua vida sem perturbar a dela, sendo o mais possível “invisível”.
          Se não há um histórico explícito na família a respeito de problemas genéticos ou hormonais, não é para o endocrinologista que é preciso levar essas crianças. A questão a ser posta é: seus pais permitem que elas cresçam? Eles lhes dão os nutrientes (mentais e emocionais) e as energias (atenção e respeito) suficiente para que elas se desenvolvam fortes e grandes como um carvalho? E esta é uma pergunta que cabe às mães em primeiro lugar.

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