23/07/10

SEMPRE AMAMOS A PESSOA CERTA

Adriana Tanese Nogueira

Sempre amamos a pessoa certa, apesar dela ser a pessoa errada para a nossa vida, ou para o resto de nossa vida, ou ainda para fazer aflorar o melhor da gente. 

Amamos sempre a pessoa certa, e ele ou ela é sempre o príncipe encantado ou a bela princesa, apesar de poder sê-lo somente por uma hora, um dia ou um ano. O resto do tempo junto é ganho pela renda gerada naquele momento nutriente de amor.

Há sempre uma razão importante pela qual amamos uma pessoa, e entendo “amar” em
sentido amplo e geral. Não falo necessariamente do amor fiel e constante, firme e consciente, mas de qualquer amor que no mínimo resista a alguns naufrágios e turbulências. As razões que levam a amar uma pessoa não são obviamente “racionais”, nem por isso deixam de ser motivos poderosos, causas reais e eficazes. E também não quer dizer que sejam motivos nobres, justos e bonitos.

Apesar de haver estupidez, neurose e muitos outros ingredientes pouco agradáveis que atuam nas relações, não os usaria como lentes principais para compreender a situação. Fazer isso significaria situar-nos numa antropologia negativa e no paradigma dicotômico cristão tradicional que vê o ser humano dividido entre bem e mal, sendo sua salvação agarrar-se ao bem e reprimir o mal – como se fosse claro saber o que é bem e mal num relacionamento afetivo!

Proponho outra perspectiva, seguindo Jung e Montefoschi. O paradigma de base neste caso é o da evolução da consciência. Tudo serve e tudo faz parte do percurso. Por este motivo, nos deparamos com uma determinada experiência que é aquele que precisamos trabalhar, compreender, aprofundar e desenvolver. Ou seja: temos experiências para nos conhecer e assim – somente assim - evoluir. O que for mais importante rumo à esta expansão da consciência estará no cerne da experiência sentimental à qual nos vinculamos. Nesse processo, prazer e dor são secundários.

O gancho que faz nascer uma relação pode estar, por exemplo, numa problemática psicológica que a pessoa precisa encarar para poder resolver. Neste caso, nada melhor do que materializar uma situação psicológica para que possamos observar com clareza as diversas facetas do problema que temos que superar (que é “problema” somente porque restringe nossos movimentos existenciais). Quando sairmos do problema psicológico que gerou a relação, então estaremos prontos para uma nova etapa de vida e para uma nova relação.

Outras vezes, o gancho que nos prende a uma pessoa está na identidade dos modelos de consciência: é maravilhoso ter alguém com quer trocar idéias e sentir de forma parecida. A experiência provoca uma aceleração de consciência que produz prazer e gratificação. Mas se a consciência for limitada, então os dois vão acabar se entediando ou se reprimindo ainda mais (como acontece em muitos casais super-religiosos).

Há ainda uniões que nascem de resgates de vidas passadas, o que não significa ter que ficar juntos quando a relação é ruim ou que o vínculo com a outra pessoa seja de amor ou de ódio. Há muitas nuanças que precisam ser compreendidas em sua particularidade para a relação ser de fato o que há de ser: um caminho evolutivo para a consciência (e alma) de cada um. É importante evitar o fatalismo submisso de certos credos religiosos que repetem o antigo mantra cristão/católico de que a vida é um “vale de lágrimas” que devemos “aguentar” em vista de um “além melhor”.

Em nenhum desses casos, o “amor” é necessariamente “para sempre”. Após alguns anos ou alguns meses, o princípe encantado pode se reveler um sapo aqueroso. Será que ele “decaiu” ou não será que nós crescemos superando a fase inicial e aprendendo novas formas de visão? Pois, somente sapas se encantam com sapos, e vice-versa.

10 comentários:

  1. Adriana
    Só depois de ler seu texto, entendi toda extensão e profundidade que o título aborda.
    Obrigada pela leitura.
    Abraços.

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  2. Que bom que percebeu, Jacqueline. De propósito dei um título "ameno"... ;-)

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  3. Publiquei parte de seu texto no meu blog: http://porquegostei.blogspot.com/
    .. E o motivo foi: Porque gostei!
    Bjs.

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  4. Achei seu blog ao acaso e adorei.

    Obrigada

    Cristiane

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  5. Estarei seguindo seu blog.
    Eu tenho uma filha Beatriz que estaria com 13 anos, mas ela foi para o mundo espiritual há 5 anos. O significado do nome é maravilho.
    Bem, coincidèncias existe, alias como dizia Jung, nada é por acaso.
    Sempre amamos a pessoa certa porque a busca pelo outro ou seja parceiro, é o complemento que está dentro de nós. Buscamos no outro a nossa projeção. Bjs Cynthia

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  6. Olá Cynthia, meus pêsames pela perda de sua filha. A minha Beatriz está com 13 anos e um mês... :-)
    Amamos sempre a pessoa certa mas nem sempre o complemento que estamos pondo em ato é o certo.
    Abraços!

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  7. Olá adriana! Nossos sentimentos são complexos e muitas vezes redefini-se de uma forma incessante. Chamou-me a atenção em seu comentario o fato de que as vezes um principe encantado vira um sapo. Isso não porque ele tenha mudado mas prq nós estamos vivendo um outro momento, tenhamos evoluido, já que nossos sentimentos mudam e se renivam a cada dia. Assim amr e deixar de amar não pode ser visto como um crime ou uma quebra de pacto entre os dois, não é? Mande-me um help, estou perdida.... beijos

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  8. Elizangela, evoluimos com a experiência e a reflexão sobre a experiência (e evoluímos ainda mais rapidamente com a terapia). Consequentemente, nossa perspectiva muda, nosso amor muda. Amamos sempre o que está no nosso nível. Se o seu nível sobe, vc não ama mais o que fica para trás. "Quem ama o menino perde o homem e quem ama o homem deixa para trás o menino" (I Ching). Por isso, o amor acaba quando termina sua função (veja meus posts sobre casamento) ou quando superamos aquela etapa na qual o amor se situa (e a pessoa que está conosco não nos acompanha).

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  9. obrigada pelo comentário. Achei bastante esclarecedor e me parece que é bem isso mesmo. E analisando dessa forma vemos também que não somos crueis quando não amamos tanto quanto antes mas é uma consequencia do processo. abraços.

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  10. É isso aí, Elizangela. Amar e deixar de amar fazem parte do um processo interior da pessoa.
    Abraços!

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