28/07/2010

Sonhos rosados da infância


Adriana Tanese Nogueira

          Quando se é criança, vive-se mergulhados no ambiente familiar. Para os que tiveram sorte, este ambiente emana calor humano. Apesar dos momentos de tensões, das brigas e desentendimentos, a família preenche a necessidade básica de sentir-se parte de uma comunidade; é o pequeno grupo no qual se está “em casa”, no qual somos conhecidos e conhecemos.
          Cada família tem seu estilo característico que é como uma marca de sua existência, estilo este construído
pelos seus membros mas certamente impresso sobretudo pelos pais. Memórias de brincadeiras e experiências formam o acervo afetivo que nutre o grupo por dentro, e lhe garante sobrevivência, apesar dos rochedos ásperos contra os quais as relações ser sacudidas no mar da incompreensão.
          Os laços familiares são tão mais fortes quando os pais insuflaram seu amor entre si e entre os filhos. Estes amam na medida em que os adultos os amam, pois os vínculos entre irmãos são definidos em grande parte pela relação que os pais têm com eles e com cada um. A história familiar e a presença, intensa ou não, de parentes completam o quadro sentimental que vai dar as bases para a construção daquele sentimento tão gostoso que é “ter uma família”.
          Mas o tempo passa, as crianças crescem, às vezes os pais se separam; o cenário muda. Nem por isso, as recordações que estão na raíz da identidade de cada filho se alteram. O que foi vivido permanece como uma dobra no vestido que nenhuma lavada consegue alisar. É como uma cicatriz que não se esvai, ou uma luz que não se apaga.
          A memória afetiva brilha no escuro fundo do passado e inadvertidamente uma pessoa pode pegá-la por uma realidade ainda atual. Entretanto, ela logo percebe que não é bem assim. Não só os pais podem mudar e se tornar pessoas um tanto diferentes do “papai” e da “mamãe” conhecidos, como sobretudo os irmãos. Estes com certeza mudarão.
          As relações de crianças nem sempre encontram um lugar na vida adulta, geralmente porque marcadas por destinos totalmente diversos. Opções de vida que misteriosamente brotaram em cada irmão, os levam para caminhos alheios, como duas setas que departem de um ponto comum e avançam ao infinito não em paralelo, mas se afastando. É surpreendente como os mesmos pais podem dar vida a pessoas tão distintas e de alguma forma incompatíveis. É também surpreendente como irmãos que um tempo brincavam juntos podem quando adultos não partilharem nada de suas vidas e, aliás, manterem as distâncias uns dos outros.
          Quando o distanciamento ocorre, triste e aparentemente inelutável, há sempre um que sofre e o outro que não mostra se importar muito. O mais sensível, o mais afetivo e ligado não se conforma, inclusive da indiferença do outro. Contudo, são fases da vida. Algumas relações de intimidade e carinho duram somente por um período de tempo para esvair-se, antes mesmo que se possa estar prontos para aceitar os fatos.
          Tudo passa, e também aqueles vínculos profundos que remontam aos primeiros anos de vida. É preciso soltar e não prender-se às vivências da infância, quando se acreditava que éramos amados e unidos. Como um sonho expressa belamente é preciso descartar o cobertor da infância e a colcha rosa. Ambos foram, no sonho, jogados fora e encontrados num local mendigos, sujo e fedido.
          O cobertor da infância é o cobertor dos sonhos infantis, e a colcha rosa lembra que esses sonhos infantis também são românticos. Ambos acabam junto aos mendigos, que são os excluídos do sistema, isso porque toda escolha implica em excluir alguma coisa da nossa vida. Nesse caso, se trata dos antigos laços de união e afeto, os quais uma vez rechaçados, se tornam nada mais que sonhos infantis românticos que, em quanto tais, devem ser descartados.

8 comentários:

  1. Adriana é a 1ª vez que estou lendo suas postagens e gostei, tornei-me seguidor de seu blog, parabéns e continue a escrever.

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  2. Olá Adriana!
    Esses assuntos de família são sem sempre muito interessantes.
    São muitos os aspectos a serem observados.
    Tem coisa muito particular, de cada família. Mas existem aspectos que se repetem em todas as famílias.
    Espero que você aborde, em outra oportunidade, outros aspectos tão interessante quanto esse.
    Bjs.

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  3. Qual ou quais, Jacqueline, vc gostaria que eu abordasse?

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  4. Olá Adriana!

    Algumas das muitas formas das famílias se ‘apresentarem’, citaria:
    - Estabelecer uma união como uma obrigação (o almoço do domingo, por exemplo).
    - Todos falarem de todos, como se todo mundo devesse prestar conta do que faz.
    - Os assuntos proibidos. Todos sabem do tal segredo, mas ninguém fala abertamente.

    Bem, são muitos os aspectos, afinal, penso que não haveria terapia se não fosse a presença ou a ausência da família.

    Obrigada pela sua atenção.
    Bjs.

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  5. Bons pontos, Jacqueline!
    Vou pensar neles...
    Abraços
    Adriana

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  6. Nossa que lindoooooooo! Verdade pura, cada um monta sua nova família, mas o amor e carinho permanecem, pelo menos, para mim rsrrs

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