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As “bobagens” que sonhamos

Adriana Tanese Nogueira

Imagine que um indivíduo desconhecido venha falar com você. Sons esquisitos saem da boca dele e você fica a pensar o que será ele está querendo lhe dizer. O indivíduo está vestido de uma forma estranha que você nunca havia visto. Você não está a fim de novos contatos agora e este demanda esforço demais. Há outras coisas em sua cabeça e você não tem vontade de parar para pensar mais do que já deve. E começa a ficar impaciente.

Olha para o desconhecido e pensa em como se livrar dele, quando de repente você acredita ter reconhecido uma ou outra palavra. Você tem a impressão que alguns sons se assemelham ao seu vocabulário do dia-a-dia, palavras banais na verdade, sem grande importância. Sente-se aliviado, já começa a preparar-se para livrar-se o estrangeiro e passar a tratar do que realmente interessa. Sua conclusão é que o indivíduo está falando bobagens, coisas sem relevância. Finalmente pode ir cuidar dos seus negócios.

Nunca lhe passará pela cabeça que o indivíduo desconhecido está que comunicando uma importante descoberta que vai melhorar sua vida, ou procurando avisá-lo que seu filho usa drogas, ou que você está para entrar em profunda depressão e sua vida está desmoronando.

Nunca lhe passará pela cabeça que você dispensou o indivíduo por dois motivos: por causa de sua crassa ignorância e por causa de seu egocentrismo. Uma é consequência do outro.

O egocentrismo é uma postura psicológica que coloca o Ego no centro de tudo. Por Ego entende-se uma visão limitada da realidade e baseada nos interesses imediatos deste: o que vai encher imediatamente a barriga e seu bolso, o que vai lhe dar imediata gratificação, evitar o esforço e buscar o prazer. Simples e trivial. Mesmo quando o Ego é culto seu campo de visão e de ação continua sendo miope e isso se faz evidente quando encontra o que é difernte de si, o Outro.

Egocentrismo é parecido ao geocentrismo, como é chamado o antigo sistema astronômico ptolemáico. Em seu livro “Almagesto” (que quer dizer Grande Obra), Ptolomeu (90 - 168 ou 100 - 175) dá uma descrição do universo que tem a Terra como seu centro imóvel. Em volta dela, o Sol, a Lua, os outros planetas e as estrelas giram. Este sistema sobreviveu por 1400 anos até que Copérnico e Galileu o questionaram - e sabemos o que isso custou a Galileu. Demorou mais 500 anos para que as autoridades representantes da Igreja Católica admitissem que erraram ao julgar e aprisionar Galileu por ele ter afirmado que a terra se movia.

A dificuldade e dor dessas mudanças dependem das implicações  psicológico-filosófico-religiosas que têm. Na época de Galileu o geocentrimos dava suporte a uma abordagem à vida que dizia que éramos os escolhidos por Deus e tudo estava relacionado a Deus. Assim, se a Terra não está mais no centro do universo nós não somos mais os queridinhos de Deus. Quem somos nós se há uma imensa quantidade de outros planetas espalhados por aí? E o que é Deus? O que Ele quer?

Ao questionar a centralidade do Ego ocorre algo parecido, em escala menor mas em intensidade maior para a vida pessoal. Sua primeira consequência é que o Ego perde o direito a ter “razão por decreto lei”; o Ego não é mais o reizinho que consegue tudo o que quer. Perdendo o privilégio à última palavra, ele deve controlar sua tendência ao egoismo e desenvolver a humildade. Esta mudança lhe permite abrir-se ao Outro.

Um Ego fechado em si mesmo considera tudo o que é diferente dele como “estúpido” ou “insignificante”, como podemos facilmente observar no dia-a-dia. Se o Ego pode considerar sem importância o que não compreende, o que se dirá dos sonhos. Daí sua justificativa para não precisar se dar ao trabalho de entendê-los. E com um gesto da mão os rejeita.

É evidente que o sentimento de superioridade do Ego produz sua espessa ignorância, a qual por sua vez o nutre. Quanto menos souber mais seu nariz pode andar empinado se achando o dono do mundo. Uma atitude ampara a outra. Descobrir-se ignorante é desestabilizar o complexo de superioridade do Ego, assim como abrir-se ao Outro induz o Ego a sair de sua torre de marfim. É por isso que as mensagens oníricas são por ele consideradas “bobagens”.

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