Pular para o conteúdo principal

COMO MUDAR O MUNDO COMEÇANDO JÁ

Pode não ser grandioso como pomposas ideologias, ou atraente como imaginar-se o líder das massas, mas todos possuímos o poder para mudar o mundo - e já. É uma questão de reconhecê-lo e de aprender a usá-lo.

Todos conhecemos a famosa frase “Só se pode mudar a si mesmos, não aos outros”. É uma grande verdade, mas não é toda a verdade.

Este modo de pensar nasce de cultura que separa sujeito e objeito, eu e o outro. Toda a psicologia que não é profunda – ou seja que não vem da psicanálise – promove essa visão. Cada um de nós estaria trancado em seu crânio e só poderia mudar a si mesmo. Portanto, tentar fazer o outro mudar – qual casal não passou por isso? – está fadada ao fracassada.

Isso tudo é certamente verdade mas é muitas vezes também deprimente. É uma forma de pensar que se de um lado nos obriga a nos melhorar, o que é essencial, também nos tira poder.

Numa perspectiva dialética, porém, ambos os aspectos são válidas, na verdade um não existe sem o outro: só podemos provocar mudanças nos outros se mudarmos nós mesmos. Mantendo o respeito pelo outro, sua personalidade e sentido de vida, nós temos como criar mudanças: através de nosso comportamento, palavras, escolhas, atitudes, posturas. Cada nosso ato endossa alguma coisa e tira valor de outra. Estamos conscientes disso? Parece que a maior parte das pessoas não está. Essas pessoas estão perdendo poder por pura falta de conhecimento e de auto-conhecimento.

Ninguém de nós existe num espaço separado, isolado dos outros. Cada um é o resultado de um conjunto de relações e de experiências. Ao saber mexer nesse “conjunto”, compreendendo do que é feito e suas consequências, temos condições de modificar nossa atuação no mundo e portanto estimular mudanças ou até mesmo forçá-las.

Quando nos concentramos em nós mesmos para nos melhorar mas o fazemos nessa perspectiva que se abre sobre o mundo, eis que toda transformação interna real atinge inevitavelmente os outros. Quando alguém muda de verdade todos à sua volta são influenciados.

Vemos isso constantemente ao negativo, por exemplo um sujeito que se entrega ao alcoolismo irá transformar (para pior) a vida de todos os que convivem com ele. O oposto também é valido, mas infelizmente muito menos comum: podemos exercer uma profunda transformação positiva no ambiente à nossa volta, estimulando as pessoas para evoluirem e crescerem.

Cada indivíduo é o centro de uma imaginária rede de contatos, cada qual é por sua vez o centro de outras redes de contatos e assim em diante. Logo, a ação nova, a postura diferente, a idéia questionadora, a escolha coerente irá atingir como uma onda a todos que pertencem à rede do indivíduo, e possivemente se extender além dela.

A mudança interna que não castra é aquela que inclui as relações com o mundo. Qualquer trabalho psicoterapeutico ou psicanalítico que não implica uma ação diferente do indivíduo no mundo é impotente, e todo auto-conhecimento que não gera consequências externas é incompleto. Tomar consciência é um movimento psicológico que provoca por necessidade interna uma correspondente ação externa. Se assim não for, não é consciência, é provavelmente mera racionalização.

Todos temos faca e queijo na mão para modificarmos a realidade na qual estamos inseridos para que ela se aproxime do que está em nosso coração. É uma questão de aceitar o desafio, saindo da posição de consumidores de estilos de vida prontos, para aquela menos confortável talvez mas enormemente mais entusiasmante e engajante, de criadores.

Adriana Tanese Nogueira
Terapeuta transpessoal, life coach, educadora.
www.adrianatanesenogueira.org

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que fazer com um marido alcóolatra?

NOTA: Pessoal, estou com dificuldade em responder às suas perguntas porque a página está ficando "longa" demais, por isso criei esta outra página (O que fazer com um marido alcoólatra 2) para conversarmos por lá, ok? O Blogger está "em crise": comentários demais! O problema é graaaande, certo? Abraço, A.


"Bom dia Adriana,
Gostaria muito de um conselho, se é que isso é possível.
Em uma das minhas inúmeras buscas na internet por uma luz, um consolo para essa minha vida miserável de esposa de alcoólatra, estava lendo um texto seu "O que fazer com um pai alcoólatra" e resolvi lhe escrever.
Acho que eu e meus filhos é que estamos no fundo do poço. Meu casamento de 19 anos, um casal de filhos e a cada dia que passa fico mais perdida e desiludida. Já perdi a esperança de um dia viver em paz com meus filhos. Tenho aguentado tudo isso por eles. Meu filho mais novo (12 anos) gosta muito do pai e acho que não suportaria se eu o abandonasse. Fico nesse dilema: será q…

O que fazer com um pai alcóolatra

Adriana Tanese Nogueira 
Um leitor, após ler meu texto "Obsessores: quem como e por quê" me escreveu pedindo aconselhamento a respeito de seu pai. Infelizmente, o email acabou sendo deletado pelo sistema e respondarei a S.L. por aqui.
Em primeiro lugar, alcoolismo é alcoolismo mesmo quando a crise, resultado da bebida, acontece uma vez por ano. Que a pessoa beba todos os dias ou de vez em quando (como muitos gostam de chamar com um eufemismo, "socialmente") não importa. Deve-se atentar para o desfecho. O não-alcoólatra quando bebe muito passa mal, o alcoólatra tem uma crise violenta, exagerada, "possessa".

Alcoólatras agridem verbalmente as pessoas que mais amam, quanto mais próxima for a pessoa mais esta sofrerá. A agressão pode ser física ou verbal, mas é sempre de nível extremamente baixo. Parece que o objetivo do alcoólatra é acabar com o outro, frantumar sua auto-estima, afogá-lo na culpa, rasgar-lhe qualquer dignidade. Após ter vomitado violentemente t…

POR QUE ESQUECEMOS DA INFÂNCIA

Adriana Tanese Nogueira

Em minha opinião, aceitamos com demasiada indiferença o fato da amnésia infantil - isto é, a perda das lembranças dos primeiros anos de vida - e deixamos de encará-lo como um estranho enigma. S. Freud, Sobre a psicopatologia da vida cotidiana

Um dos motivos que, com certeza, provocam o apagamento de grandes partes da infância é o estresse vivido naquela época. No conto de fada que os adultos gostam de tecer a respeito das crianças consta que a delas seria uma época dourada, sem preocupações, contas para pagar, tensões, trânsito e relacionamentos difíceis. Balufas. As crianças sofrem e podem sofrer muito, e muitas delas têm uma vida do cão (estou falando de crianças "normais" vindas de famílias “normais”).
O fato delas não terem a consciência e o conhecimento de um adulto só piora as coisas, porque elas não podem dar nome ao que as machuca. Isto as confunde, as deixando ainda mais assustadas. Para pior as coisas e aumentar a perplexidade e confusão da crianç…