11/08/2010

Elsa, nascida livre, mas com um porém…


Adriana Tanese Nogueira

          “Elsa, Nascida Livre”, é um fantástico filme de 1966 que ganhou 2 Oscars, cuja história é ainda tão fascinante quanto na época em que foi lançado. É a história de uma leoazinha criada por um casal, com o qual desenvolve um forte vínculo.
          A leoa cresce tão afetuosa e presente quanto qualquer cadela bem tratada. Entretanto, com o tempo, Elsa começa a criar alguns “problemas”,
como quando, por exemplo, resolve brincar com uma manada de elefantes. Não podendo imaginar suas intenções, esses animais enormes se apavoram, mudam sua rota e acabam pisando sobre os campos cultivados de um vilarejo próximo.
          Elsa encara a todos como amigos. Foi criada com carinho, sempre teve comida e cuidados: por que haveria de atacar? Os outros, porém, têm medo. Logo, Elsa, agora já adulta e pronta inclusive para o acasalamento, se torna um problema. Das duas uma: ou ela vai para um zoológico ou é reintroduzida à vida selvagem.
          A primeira opção lhe garante a sobrevivência e a segurança. A segunda, lhe oferece a liberdade. Na primeira, sua dona-amiga sabe que Elsa será infeliz, na segunda Elsa pode simplesmente morrer de fome, já que nunca caçou, ou ser rejeitada pelos outros leões.
          Esta é a situação na qual todos nós em algum momento da vida nos encontramos. Chega a hora em que é preciso escolher entre entrar numa jaula e viver num zoológico metafórico ou enfrentar o campo aberto.

  
 

          Há uma cena tão hilária quanto dramática que aparece nesse trecho do filme (começando aos 3:45min.). Se trata do início da readaptação de Elsa à vida selvagem. Na cena em questão, Elsa avança de pernas semidobradas, quietinha se aproxima de um animal escuro e baixo que ao vê-la lança-se na fuga. Elsa leve e solta no começo, acelerando depois, com facilidade o alcança e agarra. Se trata de uma espécie de pequeno javali com chifres ou talvez caninos, virados para cima em meia lua, sua arma de defesa. O animal grita pelo susto, mas a leoa não tem intenção de machucá-lo. Aliás, ela o solta, senta na frente dele e espera, aparentemente, para continuar a brincadeira. O javali, ao contrário, solta uns grunhidos de despeito e dá uma chifrada no peito da leoa. Esta se afasta, perplexa diante da reação agressiva do animal. O javali ganha velocidade e dá mais uma cabeçada na leoa e assim, de cabeçada (chifruda) em cabeçada a leoa é espantada pelo pequeno javali, que claramente está tendo sua vitória e vingança. Finalmente, Elsa desiste e vai embora. Uma leoa jovem e forte posta em fuga por um javalizinho de um quarto de seu tamanho.
          Essa é uma cena para ser assistida várias vezes. Inclusive, observando a cara sem graça do dono de Elsa que testimonial o humilhante ocorrido. A leoa ainda não entendeu, e não entendeu porque ela não sabe de si. E não sabe de si porque seus instintos não estão despertos.
          Elsa nasceu livre, mas só poderá conquistar sua liberdade se resgatar seus instintos. E essa é a lição para todos nós. Nossa civilização criou uma série de códigos de comportamento que visam assegurar o convívio pacífico, mas que muitas vezes produzem somente hipocrisia, dominação e mentira. Em nome do bom comportamento, ensina-se e impõem-se a repressão dos instintos. Todas as reações não esperadas são tachadas de “ruins”. Adultos e crianças que não se “adaptam” aos usos e costumes de um grupo são considerados desagradáveis, quando, talvez, eles simplesmente não conseguem ser suficientemente hipócritas para fingir de gostar do que não faz sentido.
          Elsa posta em fuga por um banal javalizinho representa a confusão que existe na cabeça de quem sufocou seus instintos, e com ele seus desejos, anseios, vontades, alegrias. A bela e majestosa Elsa assujeitada por um bicho que com um só rugido ela poderia por para correr reproduz o absurdo de dobrar a sensibilidade e inteligência (o que é nobre e belo) à estupidez e à baixaria. É uma vergonha, simplesmente uma vergonha.
          A liberdade só é possível a uma condição: que se botem as garras de fora. É preciso aprender a dizer “sims” e “nãos” de verdade, a sorrir porque se tem vontade, e a ir e vir porque é assim que sentimos. A liberdade somente é possível quando se é capaz de defender o próprio território, espaço físico, emocional e mental. O instinto de sobrevivência comanda discriminação e escolha, há coisas e pessoas que não cabem em nossa vida, sem maldade e sem piedade. Há relações, hábitos, pensamentos que não funcionam com nosso corpo e alma, que apagam nossas emoções e nos tiram a alegria de viver.
          Aliás, a alegria de viver está associada à liberdade de ser, da qual os instintos são expressão.

6 comentários:

  1. Excelente o seu texto e as suas considerações. Parabéns

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  2. I love this history, really!
    maria belle

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  3. Olá Adriana, bom dia.

    Nunca tinha "visto" por essa ótica o filme da Elsa!

    Parabéns! Sempre fui sua fã lendo textos seus e cada vez mais a admiro pela maneira fácil e flexível com que vc expõe seus pensamentos, despertando em nós, seus leitores, fortes e enriquecedoras reflexões. Pude comprovar mais tudo isso no Curso Online para Capacitação da Doula Pós Parto, 2010!

    Bjks pra vc e para a Beatriz
    Graça (Eloim)

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  4. Oi Graça, tudo bem? Que bom que despertei reflexões! Gosto muito da Elsa, até dei esse nome para uma cadela que tive... :-)

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