08/08/2010

A IMPUNIDADE DO COITADINHO

Adriana Tanese Nogueira

        

“Coitadinho” é quem não tem condições, quem sofre de uma deficiência ou carência da qual não é diretamente responsável e, portanto, não tem poder sobre ela. Padece-a como uma necessidade, uma realidade inevitável. A limitação que atravanca a vida do coitadinho está além de seu controle. Logo, ele há de suportá-la e… os outros hão de tolerá-la.


O coitadinho é vítima. Por ser vítima, ele recebe o passe para andar pelas situações da vida sem prestar contas do que faz. Ele suscita simpatia, porque todos sabem o que é sofrer por causa de algo avassalador e estafante. O coitadinho, portanto, estimula compaixão e generosidade, lembrando a todos que é preciso de vez em quando se aliviar da dureza do dia-a-dia. Assim, abri-se uma brecha para o coitadinho passar sem que ele tenha que pagar o preço de suas ações e omissões. Na psicologia de quem cede ao coitadinho há outro coitadinho latente: concede-se ao coitadinho o que se deseja ser concedido para si próoprios. Um tempo, uma pausa, uma férias do fardo da vida. 
Coitadinhos são filhos, amantes, maridos, esposas, amigas, amigos, mães, pais... Qualquer um pode ser coitadinho, desde que haja alguém que o confirme nessa posição, claro.

Direta ou indiretamente, o coitadinho exige que lhe seja aberta uma exceção. E se os outros não a dão, então ele a pega com seu sorriso amarelo e os olhos mansos de coitadinho. E os outros acabam aceitando porque no fundo no fundo... se sentem coitadinhos também. E assim nasce a impunidade.

Focado em si mesmo, ao coitadinho falta a visão de conjunto e muito menos de comunidade. Ele está centrado nas próprias necessidades imediatas e gratificantes. O resto não o enxerga. Assim como não leva em conta os outros, os familiares, os amigos, a família, os vizinhos, a sociedade. Os interesses dos outros não lhe dizem respeito, afinal, ele é um coitadinho! Suas penas são as maiores, seus dramas os piores e suas dificuldades, únicas. A vida é demais para ela e o coitadinho idealiza uma condição humana paradisíaca, rejeitando portanto aquela maturidade que o tornaria não mais um coitadinho mas um indivíduo adulto apto a lidar com a vida do jeito que ela é, sem descontos.

Parece claro agora que o coitadinho é uma criança mimada. Sua existência afunda raízes em dois condições interiores e complementares, como a fome e a vontade de comer. O primeiro e mais evidente é a mãe. O coitadinho só existe porque há uma mãe ou alguém (homem ou mulher) com uma atitude materna que o fez tal. Que tenha sido uma pessoa concreta ou não, não faz diferença. Há cúmplices maternais que endossaram o papel de coitadinho. Esses cúmplices sponsorizaram o ideal (que eles nutrem dentro de si) da grande mãe protetora, indulgente, afagante e carismática. Alguém que desculpa seus filhotes, criando um reino separado para eles, um espaço onde são “valorizados e amados” incondicionalmente (como se fossem eternos bebês), e esvaim-se regras e normativas. É da atitude materna fechar um olho, dar uma colher de chá, relevar e aconchegar. O coitadinho ora teve demais essa “mãe” real ou coletiva, ora não a teve e vive atrás dela, logo exigindo dos outros e da sociedade que a personifiquem. Por outro lado, uma das formas mais eficiente de conquistar uma criança é dar-lhe tudo o que ela quer. Concedendo acriticamente e indiscriminadamente, a mãe insegura se “garante” o “afeto” e a “fidelidade” dos filhos. Uma pessoa permissiva ganha seus fãs colocando em segundo plano necessidades e regras, inclusive as próprias – claro que esses fãs só podem ser pessoas com um nível de consciência pouco desenvolvida.

A outra condição interior do coitadinho é o contraposto à mãe indulgente e “boa”, ou seja, o pai autoritário. Se há um materno suave e permissivo é porque existe um paterno cruel que governa com dureza, insensibilidade e intransigência. Alguém que concorre a fazer um mundo ruim através de leis injustas, mal humor e egoísmo. Para proteger seus filhos da brutalidade do masculino, a mãe passa a mão na cabeça deles e adoça a pílula com sua “generosidade”.

Assim o coitadinho é filho de um pai autoritário e de uma mãe permissiva. (Dá para entender agora a psicologia brasileira criada entre governos autoritários e sociedade permissiva?) A surdez do masculino diante das exigências e dos sentimentos dos outros aumenta a concessividade “piedosa” do feminino, o que, por sua vez, reforça a marca de “coitadinho” cravada na testa dos filhos. Superar essa neurose significaria  mãe (os amigos, a sociedade, a família) encarar o pai (os amigos, a sociedade, a família) e criar uma nova ordem sem tantas exceções e com regras melhores para todos – caso contrário, só se poderá sobreviver via subterfúgios e exceções. Bem à moda brasileira. Eis o “jeitinho”.

A psicologia do coitadinho é, assim, uma estratégia de sobrevivência baseada no autoritarismo de um lado e na covardia do outro. O coitadinho visa conseguir algo para si pegando um atalho e deixando a realidade inalterada. Obtendo resultados por baixo dos panos, o coitadinho está livrado de assumir suas responsabilidades, o masculino autoritário permanece poderoso, isolado e cruel, e o maternal concessivo continua sendo a rainha amada mas também manipuladora de todos e de cada um. Nada muda no mundo infantil do pobrezinho.

E com o tempo, o coitadinho vira um verdadeiro vício psicológico, tornando-se um traço da personalidade e o alicerce da sociedade da impunidade (veja o meu Psicologia da impunidade social).


“Coitadinho” é quem não tem condições, quem sofre de uma deficiência ou carência da qual não é diretamente responsável e, portanto, não tem poder sobre ela. Padece-a como uma necessidade, uma realidade inevitável. A limitação que atravanca a vida do coitadinho está além de seu controle. Logo, ele há de suportá-la e… os outros hão de tolerá-la.
O coitadinho é vítima. Por ser vítima, ele recebe o passe para andar pelas situações da vida sem prestar contas do que faz. Ele suscita simpatia, porque todos sabem o que é sofrer por causa de algo avassalador e estafante. O coitadinho, portanto, estimula compaixão e generosidade, lembrando a todos que é preciso de vez em quando se aliviar da dureza do dia-a-dia. Assim, abri-se uma brecha para o coitadinho passar sem que ele tenha que pagar o preço de suas ações e omissões. Na psicologia de quem cede ao coitadinho há outro coitadinho latente: concede-se ao coitadinho o que se deseja ser concedido para si próoprios. Um tempo, uma pausa, uma férias do fardo da vida. Coitadinhos são filhos, amantes, maridos, esposas, amigas, amigos, mães, pais... Qualquer um pode ser coitadinho, desde que haja alguém que o confirme nessa posição, claro.
Direta ou indiretamente, o coitadinho exige que lhe seja aberta uma exceção. E se os outros não a dão, então ele a pega com seu sorriso amarelo e os olhos mansos de coitadinho. E os outros acabam aceitando porque no fundo no fundo... se sentem coitadinhos também. E assim nasce a impunidade.
Focado em si mesmo, ao coitadinho falta a visão de conjunto e muito menos de comunidade. Ele está centrado nas próprias necessidades imediatas e gratificantes. O resto não o enxerga. Assim como não leva em conta os outros, os familiares, os amigos, a família, os vizinhos, a sociedade. Os interesses dos outros não lhe dizem respeito, afinal, ele é um coitadinho! Suas penas são as maiores, seus dramas os piores e suas dificuldades, únicas. A vida é demais para ela e o coitadinho idealiza uma condição humana paradisíaca, rejeitando portanto aquela maturidade que o tornaria não mais um coitadinho mas um indivíduo adulto apto a lidar com a vida do jeito que ela é, sem descontos.
Parece claro agora que o coitadinho é uma criança mimada. Sua existência afunda raízes em dois condições interiores e complementares, como a fome e a vontade de comer. O primeiro e mais evidente é a mãe. O coitadinho só existe porque há uma mãe ou alguém (homem ou mulher) com uma atitude materna que o fez tal. Que tenha sido uma pessoa concreta ou não, não faz diferença. Há cúmplices maternais que endossaram o papel de coitadinho. Esses cúmplices sponsorizaram o ideal (que eles nutrem dentro de si) da grande mãe protetora, indulgente, afagante e carismática. Alguém que desculpa seus filhotes, criando um reino separado para eles, um espaço onde são “valorizados e amados” incondicionalmente (como se fossem eternos bebês), e esvaim-se regras e normativas. É da atitude materna fechar um olho, dar uma colher de chá, relevar e aconchegar. O coitadinho ora teve demais essa “mãe” real ou coletiva, ora não a teve e vive atrás dela, logo exigindo dos outros e da sociedade que a personifiquem. Por outro lado, uma das formas mais eficiente de conquistar uma criança é dar-lhe tudo o que ela quer. Concedendo acriticamente e indiscriminadamente, a mãe insegura se “garante” o “afeto” e a “fidelidade” dos filhos. Uma pessoa permissiva ganha seus fãs colocando em segundo plano necessidades e regras, inclusive as próprias – claro que esses fãs só podem ser pessoas com um nível de consciência pouco desenvolvida.
A outra condição interior do coitadinho é o contraposto à mãe indulgente e “boa”, ou seja, o pai autoritário. Se há um materno suave e permissivo é porque existe um paterno cruel que governa com dureza, insensibilidade e intransigência. Alguém que concorre a fazer um mundo ruim através de leis injustas, mal humor e egoísmo. Para proteger seus filhos da brutalidade do masculino, a mãe passa a mão na cabeça deles e adoça a pílula com sua “generosidade”.
Assim o coitadinho é filho de um pai autoritário e de uma mãe permissiva. (Dá para entender agora a psicologia brasileira criada entre governos autoritários e sociedade permissiva?) A surdez do masculino diante das exigências e dos sentimentos dos outros aumenta a concessividade “piedosa” do feminino, o que, por sua vez, reforça a marca de “coitadinho” cravada na testa dos filhos. Superar essa neurose significaria  mãe (os amigos, a sociedade, a família) encarar o pai (os amigos, a sociedade, a família) e criar uma nova ordem sem tantas exceções e com regras melhores para todos – caso contrário, só se poderá sobreviver via subterfúgios e exceções. Bem à moda brasileira. Eis o “jeitinho”.
A psicologia do coitadinho é, assim, uma estratégia de sobrevivência baseada no autoritarismo de um lado e na covardia do outro. O coitadinho visa conseguir algo para si pegando um atalho e deixando a realidade inalterada. Obtendo resultados por baixo dos panos, o coitadinho está livrado de assumir suas responsabilidades, o masculino autoritário permanece poderoso, isolado e cruel, e o maternal concessivo continua sendo a rainha amada mas também manipuladora de todos e de cada um. Nada muda no mundo infantil do pobrezinho.
E com o tempo, o coitadinho vira um verdadeiro vício psicológico, tornando-se um traço da personalidade e o alicerce da sociedade da impunidade (veja o meu Psicologia da impunidade social).

2 comentários:

  1. Excelente texto. Eu, infelizmente, costumo me portar como uma pessoa coitadinha, isso é um vício psicológico terrível, tem consequências avassaladoras. É muito difícil se ver e se colocar de uma forma diferente.

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    1. Verdade. Só com terapia vc resolve isso, há de haver uma outra pessoa que te ajude.

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