04/08/2010

O nobre príncipe que casou com a sapa

Adriana Tanese Nogueira

          “Puxa, como aquela mulher é sortuda! Ele é tão bom com ela!”, e “Quanta coisa ela tem por ter casado com ele!”
          Há homens que se portam como cavalheiros pacientes e generosos para com suas mulheres, providenciando-lhes uma vida confortável e, como se diz, oferecendo-lhes repetidas “colheres de chá”. O mimo por elas recebido parece, visto de fora, como não merecido, pois elas podem não ser tão inteligentes ou generosas ou sinceras como haveria de ser uma dama que acompanha tão nobre cavalheiro.
          Mais uma vez as aparências enganam. Não há damas porque não há cavalheiros nessa história. Como escrevi no post “Sempre amamos a pessoa certa”, relações não são casuais. O romantismo que as envolve é como um véu dourado e perfumado que encobre as verdadeiras engrenagem que fazem a relação funcionar. Como peças de lego, as dinâmicas psicológicas de um se encaixam na da outra, infelizmente não sempre para o bem dos dois.
          Neste caso, nos bastidores deste tipo de relação vemos uma situação diferente daquela visível. Assim como toda luz precisa da escuridão para se sobressair, da mesma forma toda pessoa inteligente mas com baixa auto-estima precisa de burros e bobos para ganhar visibilidade.
          Esse tipo de homem é patriarcal e imaturo. Ele é patriarcal porque sentir-se o chefe de família e o “dono do pedaço” faz parte de sua identidade. Homens pós-patriarcais dividem responsabilidades e poderes equitativamente. Não dão suporte material e emocional para mulheres-meninas, pois eles precisam de mulheres adultas para eles próprios expressarem sua maturidade. Ninguém pode ser realmente adulto com uma criança.
          Esse tipo de homem é imaturo porque evidentemente teme encarar alguém do seu tamanho. Assim como todo magricelo fraco vai fugir dos bons de briga, o homem imaturo foge de mulheres inteligentes, mulheres que têm algo a acrescentar mas que podem também questioná-los. Quando uma pessoa inteligente está com uma de intellecto limitado, é como se de alguma forma parte dela permanecesse invisível, pois a topeira mental impede de enxergar claramente. Logo, a pessoa mais inteligente tem carta branca para fazer o que quer. Naturalmente, isso não tem como acontecer com alguém de seu mesmo calibre. Por outro lado, somente com um igual é que se pode ter verdadeiro companheirismo e enriquecimento na vida. É com a pessoa parecida e no nosso mesmo nível de consciência que fertilizamos nosso crescimento.
          E aqui está a prova de que não há cavalheiros nessa história: a menos que não se é Maria Teresa de Calcuttá, passar a própria vida com criaturas que do ponto de vista espiritual, cultural e intelectual são muito mais pobres do que nós, necessariamente bloqueia nossa própria evolução. Toda essa generosidade exibida pelo cavalheiro é uma fachada que esconde o motor real de seu comportamento.
          Bondade e paciência não são seus traços mais importantes, não são o que move este homem para determinadas escolhas. O olho que não se deixa enganar pelas aparência vê que é o sentimento de inferioridade e a insegurança que o amarra mãos e pés a alguém que do lado de fora não tem nada a ver com ele, mas do lado de dentro preenche uma lacuna e lhe dá um mundo de referência.
          É a história do príncipe que casou com a sapa. De fora ele é um príncipe mas quando se olha no espelho ele se vê sapo.

2 comentários:

  1. Nossa, mais um post que é conta a história da minha vida... todos elogiavam meu ex-marido, ele se passava por um santo, mas de repente me viram engordando muito, com cara de sempre cansada, angustiada, e ninguém (nem eu mesma) ligava uma coisa com a outra, até chegar ao fundo do poço e dizer chega...

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  2. Fico contente, Juliana! Continue se descobrindo e saindo do poço. Andei observando, ontem mesmo, em um casal que atendi. Ele em forma e com vontade de se divertir, ela sobrepeso e com baixa autoestima. Ela então me disse que "o carrega nas costas..."

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