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Paixão, será utopia?


Adriana Tanese Nogueira

          É comum ver relações que começaram no calor moderado do entusiasmo imaturo da juventude se arrastarem mornas por anos afora. É do jovem ter visão curta da vida, por simples falta de experiência e de conhecimento, apesar dele em teoria ter mais fácil acesso à paixão. Entretanto, a paixão requer maturidade.
          Como fogo de palha, ralo e fraco, encantos juvenis se esvaem para deixar lugar ao “querer-se bem” do dia-a-dia, ao afeto recíproco e ao hábito. Muitas vezes mais hábito do que querer bem verdadeiro, pois quandos se quer o bem de alguém pode haver conflito com os interesses mais trivias. Barganha, eis no que se resumem muitas relações.
          E aquela alegria de dar pulinhos de felicidade quando perto da pessoa amada? E o encanto, a descoberta? Onde foi parar o olhar cheio de admiração e orgulho pelo outro?
          Lembro de um homem em processo de uma separação que ele não queria (apesar de não fazer nada de efetivo para melhorar a vida a dois) gritar exasperado: “Quero uma esposa!”. Ao ouvir isso, sua já quase ex-esposa respondeu: “Vá procurar uma, ué. É claro que você não quer a mim, mas a uma ‘esposa’.”
          De fato, muitas pessoas sentem-se bem consigo mesmas porque têm um Marido ou uma Mulher. O casamento (o informal agora é melhor aceito) é, com maior frequência do que se pensa, o grande objetivo da vida, muito maior do que uma promoção ou uma conta bancária, mais essencial do que ser feliz ou realizar-se. Ter alguém é a agonia dos que estão só e dos que estão mal casados. O homem quer garantir-se a presença da mãe de seus filhos, mesmo quando os benefícios desta são duvidosos; a mulher nem se fala, não vive sem o pai de seus filhos de jeito nenhum, a menos que ele agrida com a faca na mão, num acesso compulsivo e alcoolizado, um membro da família. E olhe lá.
          Mas e a paixão? O fogo que é muito maior e mais duradouro do que o sexo? Onde foi parar aquela leveza que se sente ao estar apaixonados? E o empoderamento que surge a dois e por causa dos dois? A paixão é como se o encontro do Um com o Outro desprendesse uma cadeia exponencial de vitalidade. A multiplicação das forças e a expansão da serenidade são geradas por um fato tão simples quanto revolucionário: a confluência de duas almas humanas que se olham e se reconhecem. Tem-se a sensação de que tudo é possível quando se encontra alguém com o qual não é preciso fingir ou ser “educado”, não é necessário precaver-se ou proteger-se, mas pode-se estar de alma inteira e desnuda, num dialogo criativo. Cada um se torna um espelho do outro e, ao mesmo tempo, mistério a ser desvendado, pessoa interessante, cativante e alegre. Esta é a base da paixão, quando duas pessoas são infinitivamente novas uma para a outra tanto quanto infinitamente íntimas.
          Deve ser um requisito ser antes almas apaixonadas e vivas para poder encontrar outra parecida. Não se acende o fogo no gelo do medo, nem pode se pegar fogo sem conteúdos para queimar. Aparentemente porém parece que a preferência geral cai no viver a mornice do conhecido e desbotado de relações cansadas. Contenta-se, acomoda-se, inventa-se uma conversa… para boi dormir.

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