20/08/2010

Pessoas Bidimensionais

Adriana Tanese Nogueira

Todos sabem que temos a geometria plana e a sólida. Na plana contam-se somente com duas grandezas: altura e largura. Na sólida, acrescentar-se a profundidade, que é justamente o que dá consistência tornando um objeto aparente e superficial num corpo firme, maciço, robusto.
          No mundo humano a altura representa o pensamento com seus ideais, sejam eles o da igreja ou os da mídia, sejam eles o carro novo ou o corpo perfeito. Deus e o demônio
encontram-se na verticaldade do pensar, com os ídolos de papelão e os de ouro. A racionalidade do pensador é “altura”, pois ele está engajado na construção mental de elevados pensamentos ou inatingíveis objetivos. O ideal da pátria ou da família, o sonho da modelo ou do jogador de futebol fazem parte da verticalidade. Tudo que leva para cima, que abstrai da materialdade do dia-a-dia e do corpo, do sentir e das relações reais que nos redeam é “altura”.
          Na Idade Média a verticalidade tinha um enorme valor, pois representava a relação do homem com Deus, o almejar da alma rumo seu destino transcendente, os valores supremos e o Bem universal. Hoje muitas coisas mudaram, novos Deuses surgiram e valores impensáveis um tempo, mas todos ocupam o mesmo lugar: a grandeza da altura.
          Com o passar dos séculos, a largura foi ganhando sempre mais espaço. Esta representa a horizontalidade da vida humana, isto é as relações com os outros e com o mundo. Frequentemente este aspecto é hoje mais valorizado do que o outro, sem deixar porém de estar vinculado a ele, pois as relações estão repletas de ideais.
          Desenvolver o contato com o mundo é de extrema importância, sem ele todos os valores caem por terra. Até na recusa ao mundo, permanecemos vinculados a ele e dele fazemos nossa referência para a construção de nossa personalidade. O mundo molda. Para melhor conviver com ele, estabelecem-se regras implícitas. Foram precisos séculos para criar comunidades humanas que não se massacrassem à primeira desavença e hoje, todo mundo sabe por uma espécie de mudo instinto que é melhor “se dar bem com todo mundo”.
          Alguns são mais bem dotados do que os outros (veja meu post sobre Introversão e Extroversão), mas todos, de uma forma ou de outra fazem da horizontalidade, ou seja de suas relações sociais, a base de sua vida (repito, mesmo quando têm vivências negativas). Com os outros deve-se ser educados, simpáticos e bastante disponíveis. Ouvi-los e “respeitá-los”, o que significa muitas vezes não dizer o que se pensa realmente.
          Imaginemos então este ser humano que vive entre seus ideais e suas relações sociais. Ele se comporta como “deve” e tem sua rede social. O que falta nesse cenário?
          Nada. Para muitas pessoas não falta nada. E amém para elas.
          Quem sente-se insatisfeito pode continuar lendo.
          Falta a grandeza da profundidade. Para um discreto número de seres humanos, e muitos mais do que se pensa pois eles não têm consciência do que as perturba, falta a dimensão da profundidade, isto é, da interioridade. Graças à vida interior, podemos sentir e avaliar os ideais. Por ela sentimos e compreendemos as relações. Na profundidade tem-se o ponto de equilíbrio entre ser uma marionete dos ideais e ser um boneco animado das relações sociais, um clone, alguém que repete o que é esperado. Pela profundidade é possível fazer dessas duas grandezas, altura e largura, algo interessante, moldando a realidade conforme os chamados internos e ao mesmo tempo burilando as idéias para que se tornem mais humanas e menos diabolicamente abstratas.
          É pelo descobrimento da profundidade que uma pessoa adquire consistência, solidez, firmeza e, consequentemente, valor.

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