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Primaveras raquíticas e crianças que não florescem


Adriana Tanese Nogueira

          Eu tinha uma bela primavera. Comprei-a toda florida, aliás, comprei duas, uma que dava flores cor de rosa intenso e a outra brancas. Elas começaram a trepar pelas grades da minha varanda, era lindo de ver, mas não chegaram a cobri-la por inteiro, como eu esperava. Após um tempo, as flores cairam, ficaram as folhas, depois estas também começaram a mostrar sinais de cansaço.
Logo percebi que a planta precisava de mais terra, e transplantei as duas num vaso bem grande. E recomeçou a florescência. Durou uns meses e de novo, cairam as flores e a planta parecia sempre mais careca. Comprei vitaminas e sais, ajudaram. Mas não resolveram até sequer ajudarem mais. Estava claro que a planta precisava de mais terra. De muita terra. O problema não era ela, que eu tinha certeza tinha forças e saúde para crescer forte e bonita. O problema era a falta de recursos. Falta de chão, de bases e de nutrientes diretos da Mãe Terra e não os industrializados prontos em pacotes.
          Finalmente, as primaveras mudaram-se para o jardinzinho debaixo da minha varanda. Foi dificílimos arrancá-la do vaso, pois as centenas de raízes estava grudadas e enroladas no seu fundo. Em seguida carreguei o monte de terra e raízes com os dois pequenos troncos de primavera e seus longos braços espinhosos até o jardim, fiz um buraco no chão o mais profundo possível e depositei nele o pesado fardo de terra e raízes. Umas semanas depois comprei mais terra para melhor cobrir a planta, pois o buraco não era fundo o suficiente.
          Após uns poucos meses, minha dupla de primaveras está sem flores ainda, mas cheia de folhas verde vivo. Cresceu umas três vezes em tamanho e volume e está subindo pelo muro da escada de entrada. Logo logo virará uma árvore e estará florida e linda.
          Ela exemplifica o que acontece com um bom número de crianças (e adultos), cujos problemas muitas vezes se resolveriam ao ampliar seu horizonte, ao incorporar conhecimentos, ao variar a dieta intelectual acrescentando novos alimentos, novos pensamentos, comparando crenças, saindo dos dogmas e estereótipos. Quanto maior a base, mais fundo as raízes podem alcançar, e mais alta e forte a árvore poderá ser. Firme, alta, sólida. As bases se obtêm através do conhecimento, puro estudo, disciplina, reflexão e dialogo. Não é com brinquedos, parques e tempo livre.
          Crianças sem nutrimento intelectual e espiritual crescem mentalmente raquíticas e compensam essa deficiência sendo obesas no que é superficial, superfluo e confuso. Quanto mais superficial for sua compreensão de si mesma e das coisas, mais espessa sua identificação com os valores de massa, o que a leva a não poder desenvolver sua singularidade. Sua identidade surge então como espelho do ambiente e não como resultado da interação creativa desde com a natureza e personalidade da criança. Ser espelho quer dizer estar atolada ao que os outros pensam e à visão curta e limitada da mentalidade comum. Significa ter as asas cortadas.
          Portanto, às crianças que por alguma razão apresentam “problemas” tentem oferecer uma porção maior de mundo, mudem seu menu quotidiano, variem seus alimentos e ocupem-nas com atividades que desenvolvam o pensamento e direcionem para além.

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