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Psicologia da impunidade social

Adriana Tanese Nogueira

          Traço da personalidade e da cultura, a impunidade é uma exceção ética que virou regra na sociedade em geral e na vida de mais pessoas do que imaginamos. Ela se define pela ausência das consequências que objetivamente seguiriam aos atos individuais, e aos coletivos.
          A impunidade é confortável porque, como um grande guardachuva que se estica indefinitamente, proteje a todos que nela desejarem encontrar abrigo para suas irresponsabilidades.

É um conceito inclusivo e tolerante porque quantas mais pessoas nela entrarem, maior será o ganho para todos. A impunidade é persuasiva, fortalecendo-se no número e na abrangência; sua dimensão psicológica é facilmente exportável, como um virus que se espalha em meio a uma população com sistema imunológico enfraquecido. 
          Pela impunidade temos dupla vida e dupla psicologia interna. Uma parte de nós, a que gosta de saber-se “séria” e “ética” professa valores e brande grandes conceitos, mas por trás das cortinas outro lado da personalidade rasteja e abocanha sua fatia de “relaxamento ético”. Publicamente, alaradeiam-se decisões e propósitos que não podem ser levados adiante pela quantidade de “exceções” e interesses pessoais que se querem preservados.
          Sabemos que a impunidade é um dos maiores traços da psicologia coletiva brasileira. Ladrões e malandros há em todo país, mas no Brasil prospera uma versão alegre e desinibida da impunidade. Esta cultura permite a todos (ou quase) sentir-se à vontade na terra natal porque afinal, esta é uma grande “casa da mãe Joana” onde se vive confortavelmente porque todos fazem o que bem entendem. O que há de melhor?
          Para as individualides, não há nada melhor. Para os que tem seu umbigo como referência está-se no melhor dos mundos possíveis. Mas do ponto de vista da coletividade, dos projetos e do estado é pura (auto)sabotagem. Um grupo, desde uma relação a dois a um governo, não pode funcionar sem poder contar com a responsabilidade de seus membros, suas palavras dadas e seus contratos assinados. Se cada um não fizer sua parte o todo emperra. E se, além de não fazer sua parte, o irresponsável é “tolerado” é o caos.
          Para que cada um exerça seu papel é preciso consciência ética, o que significa: dou continuidade ao que me propus a fazer não porque a polícia está me vigiando mas porque minha consciência o impõe, porque eu reconheço a importância de minhas ações para o todo. E aqui já encontramos um problema. Alias, dois. Pessoas individualistas não têm visão social, o que lhes permite não “enxergar” o dano que causam ao grupo ao qual pertencem, que seja o casal, a família, a escola, o bairro, a cidade. Por outro lado, governos autoritários fomentam o individualismo por não querem que os cidadãos se intrometam em sua gestão do poder. Logo não sobra às pessoas que cuidar de seu umbigo, pois quem enxergar maior poderá sofrer as consequências. Não é assim que ainda ocorre em escolas, escritórios e escalões do estado?
          O conceito de pertencer a um conjunto que é melhorado ou piorado pela nossa atuação é um daqueles que só se desenvolve nas democracias. Somente num governo democrático é possível fazer a experiência afetiva de sentir-se parte de um todo, de fazer a diferença. Para “tomar posse” do coletivo ao qual pertencemos, trabalhar por ele, fazer por ele devemos senti-lo como nosso. Numa sociedade deste tipo, os cidadãos são respeitados e conta-se com eles, ouve-se sua crítica ou proposta e lhes se dá espaço de atuação.
          O Brasil é um país jovem nesse sentido. Se olharmos para sua história, os tempos de democracia foram embrionais comparados àqueles em que prevaleceu alguma forma de dominação. Por si só, uma sociedade baseada numa divisão tão explícita entre pobres e ricos é a antítese de qualquer democracia e naturalmente fomenta a impunidade. Por que haveria alguém que está excluído do poder cumprir as regras que esse poder manda? E por que haveria alguém que manda ser leal e honesto para com uma população com a qual não tem nem identidade nem proximidade? Mesmo quando o conceito está presente, falta a dimensão afetiva que daria ao ideal bases concretas para existir. Ninguém cuida do que não considera e sente como seu.
          Governos dominadores fundamentam-se na psicologia da crianca. A infantilidade dos cidadãos, ou seja sua incapacidade de compreender (falta de informações) e sua liberdade monitorada (controlada) é uma estratégia de governo. Por outro lado, todo cidadão de tal governo acredita no miope lucro de sua impunidade infantil (veja o meu A impunidade do coitadinho), enquanto em outro espaço que ele não enxerga a coisa pública está nas mãos de lobos e manipuladores. Como acontece com as crianças, o “povo” alcança só o que está debaixo de seu nariz. No máximo quer ser como o papai, forte e voraz como uma ave de rapina.

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