28/08/2010

TOMADA DE CONSCIÊNCIA

Você vive nessa casa chamada Eu há muito tempo. Nela há vários cômodos e você tem seus espaços favoritos. Alguns cantos da casa estão constantemente iluminados, porque você passa muito tempo lá e conhece cada detalhe do local. Há quartos onde você vai só de vez em quando, se trata de experiências saltuárias que dependem da oportunidade e da companhia. Cada um desses cômodos, com sua mobilia, seus sons, cores e objetos, fala de você. E você está acostumado a eles.

Um dia, andando pela casa, você nota uma porta fechada. Por baixo dela só vê escuridão. A porta lhe é desconhecida e você, de repente, sente-se desconfortável. Quando passar por perto você não pára, mas segue em frente, como se nada estivesse lá. Porém, com o andar dos dias, aquela porta lhe chama a atenção. Você não vai conseguir evitar de ficar fantasiando a respeito do que tem lá dentro. E um dia começará a ouvir barulhos. Coisas estranhas e arrepiantes. Ou coisas intrigantes. Mas o medo continua, aliás cresce com a desestabilizante curiosidade. De vez em quando os sons que transpiram do quarto escuro aparentam ter relação com o que ocorre nos outros quartos. Mas nada disso poderá ser desvendado porque a porta permanece fechada.

Um dia, talvez por causa de um amor apaixonado ou de uns copos a mais, a porta é aberta, por um só momento. Constata-se que, de fato, lá é bem escuro, mas há coisas que lhe transmitem sensações, sentimos e pressentimentos enigmáticos. Porém as trevas permanecem assustadoras e você evitará o quarto.

Mas seus conteúdos começarão a vazar. Agora que a porta está entreaberta, o que é contido no quarto começa a espalhar-se pela casa. Tudo isso se sente, não se vê, pois a ignorância reina completa sobre o que lá tem. Mais tempo passa e, de repente, outra porta se descobre. Essa também está fechada. Em seguida, outra é entrevista. Também fechada. O desconforto que surge no Eu a partir dessas revelações e seu desconhecimento com relação ao que está acontecendo levam-no a buscar ajuda. A ajuda de um profissional que o orienta a conhecer esses espaços novos e desconhecidos de sua casa interior. A procedimento é simples. Ao entrar num quarto escuro todos sabemos o que é preciso fazer antes de mais nada.

Tomar consciência é acender a luz.

Ao ativar a luz da consciência pode-se, em primeiro lugar, distinguir o que é real do que é fantasia; define-se em seguida o que sente de verdade e se pode fazer enfim um inventário dos conteúdos desses espaços da casa do Eu. Aos poucos, graças a esses novos conhecimentos o Eu vai perceber a casa conhecida com outros olhos. Por exemplo, poderá perceber que muitos dos móveis e objetos da casa não foram escolhidos por ele, modos de pensar, sentir, ver o mundo e a si próprio foram recebidos da loja de usados da casa dos pais e da praça coletiva. A uma atenta análise, pode-se concluir que eles não são tão interessantes como pareciam na época em que a luz da consciência estava apagada. Agora é possível fazer uma limpeza de primavera, renovar a propriedade, abrir as janelas e arejar a casa. Novos horizontes são divisados, no fundo dos cômodos e pelas janelas abertas.

Com a prática, a luz da consciência tende a não se apagar mais e de ameaça e tormento que era inicialmente se torna uma aliada preciosa, um instrumento insubstituível para enfrentar a vida. Não é mais fácil enxergar o caminho se se possui a luz do discernimento sempre acesa?


Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

6 comentários:

  1. SINCERAMENTE ESSE TEXTO SEM VIA DE DUVIDAS É FANTÁSTICO, EU ESTOU ADORANDO LER OS SEUS POSTS. OBRIGADO

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  2. Depois que se abre as portas,se descobre a brisa do existir, de ser , se descobre única ,se descobre tb. que pode-se ser feliz conosco mesmo, embora as portas daqueles que compartilham essa existência conosco que estão trancadas , fechadas, muitas vezes são a causa de muitas das nossas desventuras, sofrimentos e momentos de dor. MUITO OBRIGADA PELO TEXTO LINDO, POÉTICO !!

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  3. Elizete, obrigada pelo comentário. Sim, as portas fechadas dos outros são com frequência a causa de nossas desaventuras. Mas, com mais consciência é possível enxergar essas portas fechadas e precaver-se delas. Boas relações só se podem realizar a dois.

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