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CRIANÇAS PROBLEMA

O principal problema das “crianças problema” é que elas trazem à tona os problemas que a família e o casal em particular haviam muito cuidadosamente mantido sob controle, escondidos e camuflados. A criança problema vem destampar o vaso de Pandora e libertar os tormentos que nele haviam sido enterrados.

Ninguém gosta de ter uma criança problema, mas menos ainda se gosta de enxergar aquilo ao qual a criança está apontando através de seu comportamento, a saber as falhas inerentes às relações familiars e à psicologia de seus pais. Entre questionar a estrutura familiar e tratar da criança, prefere-se a última opção. A estratégia é isolar o problema, ou seja a criança, e tratar dela como se fosse um órgão solitário adoentado, se esquecendo convenientemete do corpo doente ao qual o órgão pertence.

Certamente, as crianças têm sua personalidade e forma de abordar as situações da vida. Precisam de ajuda para compreender o mundo e a si mesmas e  se desenvolverem de forma saudável e isso tudo no âmbito familiar caracterizado por suas idiosincrasias e características únicas. Algumas crianças, entretanto, parecem ser mais sensíveis que outras e aparentam sofrer de uma “alergia” emocional-psicológica e/ou espiritual a specíficos ambientes e mentalidades. Situações não resolvidas, latentes e/ou inconscientes de um dos pais ou relativas à relação entre eles são de alguma forma absorvidas pelo filho e materializadas em suas estranhas reações.

A criança problema é então a campainha de alarme que toca, algumas mais furiosamente do que outras, avisando de que algo está errado. Uma vez que o problema se torna visível é preciso agir sobre a criança, cuidar dela, e especificamente buscar ajuda terapêutica antes que a sintomatologia se aprofunde e piore. Mas não se deve, porém, esquecer das relações familiares que estão por trás do comportamento da criança.

Às vezes com boas intenções se faz o mal, sem perceber gera-se dor naqueles que mais amamos. É possível que a criança venha, com seu problema, convidar os pais a enfrentar e superar seus conflitos e questões não resolvidas. Por ela ser nova e ainda não intoxicada por determinadas formas de pensar, ela reage violentemente contra aquilo que os pais, por falta de condições e/ou de sensibilidade (anestesiados como estão pela vida que levam), erroneamente aceitaram e transformaram numa segunda natureza.

É por isso que muitas vezes os pais não entendem o que ocorre com o filho, pois sua mentalidade e conhecimentos estão aquém daquilo que é preciso para enxergar o que acontece na alma da criança. Frequentemente, a criança está simplesmente resistindo a algo psicologicamente venenoso al qual os pais estão infelizmente acostumados, e ingenuamente almejam para a ela o mesmo envenenamento como forma de manter o equilíbrio doméstico. Eles não percebem que assim fazendo, estão sacrificando o que há de mais valioso em seu filho, sua personalidade e verdade interior.

A cada geração é preciso garantir as condições para encontrar novas respostas aos dilemas da vida, buscar novos conhecimentos, questionar o anterior e evoluir para novos horizontes. Trancar um filho num mundo que é geralmente mais limitado daquilo que ele precisa é privá-lo daquela vida que ele recebeu ao nascer. Do que adianta ter existência física se falta a vida viva e criativa da alma?

Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista, filósofa, terapeuta transpessoal, educadora perinatal e autora. www.adrianatanesenogueira

Comentários

  1. Certíssimo!

    As "crianças-problema" sempre têm pais-problema.

    * * *

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