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Falsos homens novos (O lobo perde o pêlo mas não o vício)

Adriana Tanese Nogueira

Alguns homens parecem manifestar seu avanço psicológico quando valorizam, aparentemente de forma desinteressada, as mulheres e o feminino em geral. Este seria um verdadeiro passo adiante uma vez que a apreciação do feminino, no horizonte patriarcal, acontece na medida em que das mulheres se obtém alguma coisa: seu corpo, seu trabalho, sua generosa e dócil disponibilidade.

Há homens que parecem, contrariamente à tradição, pôr em relevo o poder das mulheres, estimulando-as a salvaguardá-lo e a exercitá-lo.
Sua propaganda pró-mulheres é explícita e pública. Esta é uma agradável surpresa sobretudo quando ocorre em ambientes estritamente masculinos, onde, apesar das mulheres terem lugar, não é aquele ativo de quem fala e é ouvido. Exemplo disso é o mundo da obstetrícia, eminentemente masculino, na mentalidade e na abordagem à mulher grávida.

Hordas de mulheres respondem ao chamado de tais homens. Qual mulher não gosta de sentir-se chamada de “deusa”? Saber de um homem que fala alto e forte contra o poder masculino e em favor da libertação feminina é, no mínimo, emocionante. Encontrar um aliado masculino… quem diria, num mundo onde tantas vezes as mulheres ainda dormem na mesma cama com quem é seu amante e marido, mas nem sempre seu amigo.

Tais homens novos são aclamados pelo público feminino, carregados como troféus e xodós. Sua oratória é sofisticada, seus conhecimentos expressos em complexos e charmosos argumentos que deixam o ouvinte cativado. Sobretudo, as ouvintes.

A verdade a respeito desses homens é revelada quando eles encontram entre suas ouvintes mulheres que podem dialogar no mesmo nível (se não superior). Existem mulheres emancipadas na vida e no pensamento, as quais podem acompanhar a lógica da argumentação desses homens e responder à altura. Mulheres assim não veneram mas buscam interlocutores. Elas encantam-se com tais homens justamente pela possibilidade de poder pensar juntos.

Eis porém que tais homens recuam de mulheres assim. As que não babam a cada palavra que sai de sua boca e as que têm argumentos de repente não são mais “deusas”. Mulheres imunes ao charme sedutor desses faladores pró feminino não interessam. Assustados, eles as rejeitam.

“Deusas” são aquelas mulheres que os idolatram, que absorvem cada gota de sabedoria por eles despejada, que aceitam suas reprimendas e correções e que não têm conhecimentos suficientes, e muito menos consciência e lógica racional, para perceber suas artimanhas e falhas. “Deusas” são aquelas mulheres patriarcais que precisam do alvará masculino para seu próprio empoderamento, que não percebem que mulheres empoderadas não podem ter como supremo sacerdote um homem.

O apelo dos falsos homens novos é dirigido a estas mulheres. São elas que podem alegramente carregar em seus ombros o trono dos homens supostamente novos e cegamente promover pelo mundo afora a vaidade e presunção deles.

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