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A fúria do Ego

Adriana Tanese Nogueira

O Ego em sua condição primitiva, ou seja sem consciência, é uma força poderosa de caráter a-moral, que visa ao fortalecimento de si  mesmo (vou intencionalmente usar o masculino para referir-me ao Ego pois ele é uma dimensão masculino da psique), isto é um complexo psicológico que tende à manter-se no tempo firme e contínuo. Qualquer coisa lhe aumentar o poder é considerado um valor. Ter um Ego estruturado e resistente é uma necessidade psicológica
da qual depende a saúde mental da pessoa e seu sucesso na vida. Porém e infelizmente, o que mais acontece é o excesso de estrutura e de dureza, uma exageração de impermeabilidade do Ego. Daí sua atuação negativa, e a ênfase no auto-empoderamento.

E aqui está a questão. O Bem é algo que se encontra acima do Ego. Nem sempre o que o Ego chama de bom, o é de fato, assim como nem sempre o pirulito que uma criança tanto quer é a melhor opção.

O Bem envolve o ser total da pessoa, incluindo a evolução de sua consciência e a expressão de seus talentos. O Bem é tudo o que potencializa o ser inteiro, o que promove seu florescer. O Mal é tudo o que impede o desabrochar do indivíduo enquanto totalidade. Por este motivo, ajudar uma pessoa pode ser a pior coisa a se fazer, porque evita que ela assuma as atitudes das quais dependem seu desenvolvimento. Em outros momentos, ajudar alguém é uma boa ação, quando esse alguém está mostrando sinais reais de esforço e de necessidade.

Quando o Ego está alienado da totalidade à qual pertence muitos de seus desejos estarão em desarmonia com essa totalidade. Um exemplo bem simples é este: um animal evita comer coisas que possam fazer-lhe mal. Seres humanos, alienados como estão de seus instintos (que faz parte de sua totalidade) comem e passam mal. Do ponto de vista emocional: escolhem-se companhias que sabotam nosso progredir na vida e são um estorvo que carregamos sem saber por que. Estar alienados é não perceber os efeitos colaterais das escolhas que se fazem.

Quanto maior a alienação do Ego, maior sua distância do verdadeiro Bem. Um Ego com este perfil quando não obtém o que quer, se torna furioso. É-lhe insuportável ser desapontado. Diante de um Ego assim, o melhor comportamento é tão firme e impiedoso quanto obsessiva e cega é a vontade do Ego. Crianças mimadas e adultos egóicos têm as mesmas reações mas eme scala diferente: brigam, batem, chantageam, boicotam a relação, abusam da outra pessoa, se fazem de vítima, etc. Muito escândalo, muito estresse e muito prejuízo para quem está perto.

O que se deve fazer quando a fúria do Ego é desencadeada? Firmar o pé e resistir à ventania. Fortes e decidos. Ego é sempre Ego, sua maior vocação é “ter razão” e “ganhar”. Não importa se for para obter o direito de se jogar no lixo. O importante é que você não vá junto.

Comentários

  1. Voce concorda que na religião o Ego é o demonio e que o proprio ego criou o demonio para poder culpar alguem ,e que o ego é nosso pior inimigo ?

    Fonte:( Filme Revolver )

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  2. Algo assim, sim... o Ego é problemático dentro das religiões... Porém, mais do que "ego", eu diria o Eu. O que a religião cristã oficial baniu é o dialogo interior, a autonomia interior do eu porque esta pode questionar a autoridade externa. O Espírito não pode soprar onde quer...

    ResponderExcluir
  3. Dra. Adriana,

    adorei a frase: "O Bem é algo que se encontra acima do Ego."

    Nem sempre é fácil escolher o melhor para nós. A nossa índole é querer o mais fácil. Aí, a tendência é (lá na frente) "quebrarmos a cara".

    Obrigada pelo esclarecedor texto.

    Estella.

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