20/09/10

Importância do ambiente cultural

Adriana Tanese Nogueira

Ser diferentes é um problema. Apesar de toda a conversa sobre o fato que cada um é um, apesar do ideal da diferença e da tolerância, estamos longe de ter alcançado essa meta.

“É conhecida”, escreve Silvia Montefoschi (C. G. Jung, Un pensiero in divenire, Garzanti, 1985), “a importância do fator cultural na orientação do comportamento do indivíduo e no facilitar a estabelecimento de situações neuróticas.” (p.88-89)

Se é verdade que todos queremos ser “nós mesmos”, é também igualmente verdade que o sentido de nossa vida depende de estarmos inseridos numa comunidade humana, o que traz consigo algum tipo de conformidade. Entretanto, a concordância entre os membros de um grupo não necessariamente implica em estereotipização e repressão das diferenças. O que define o tipo de ambiente é, como sempre, a consciência, que é entendida como o conjunto de conhecimentos, educação, maturidade emocional e auto-estima que permitem ampliar os horizontes sem temer o colapso da personalidade.

“Um ambiente cultural heterogêneo, aberto, que aceita e que reconhece como valor a originalidade do indivíduo e da conflitualidade da existência, põe o indivíduo na condição de progredir para escolhas sempre mais livres, enquanto que um ambiente cultural homogêneo, fechado e rigidamente conservador pode impedir o abrir-se de novas visões do mundo e de toda possibilidade de renovação.” (89)

Vivemos num momento histórico interessante do ponto de vista da heterogeneidade de culturas. Hoje é possível encontrar pessoas de qualquer lugar do mundo. Temos acesso a informações sobre costumes, religiões e culturas do mundo inteiro. São Paulo ou Nova York é uma das cidades mais cosmopolitas do planeta. Entretanto, apesar disso, não vivemos na abertura mental que essas condições material deveriam propiciar. A globalização da cultura de massa espalhada pela mídia ao alcançar os quatro cantos da Terra também achata e condena toda verdadeira diversidade.

Ser diferentes não é curtir um tipo de música ou um livro alternativo ao que passa na TV, muito menos escolher “estranhas” roupas e comportamentos. Não é o cortes de cabelo que faz a diferença, mas o que tem debaixo do cabelo, o “corte” da consciência. Aparências são apenas isso, aparências. Ser diferentes é algo muito mais radical. Algo que somente o indivíduo encontra em sua busca interior profunda. Ser diferentes é afinal ser si mesmos.

Viver livres de estereótipos comportamentais e sentimentais é como sair do escuro de uma sufocante prisão subterrânea para o campo aberto sob o céu azul. É sentir que se tem o mundo à disposição, como se pudêssemos ir a qualquer lugar, sem limites postiços. O pensamento livre permite maravilhas que são impensáveis a quem permanece enclausurado nos trilhos de já conhecido, já pensado e já sentido. Esta fidelidade à interpretações sempre iguais dos fatos nascem de hábitos mentais esclerosados pela própria afetividade. É o afeto ou seja o apego irracional e emocional a determinados modos de ser que solidifica comportamentos e pensamentos, os impedem de enxergar que existem respostas alternativas às mesmas situações.

É de fato uma tarefa das mais complexas esta de mudar de perspectiva e mover-se na direção de novos horizontes. Toda pessoa absorveu desde criança o ambiente cultural de sua família e é nele que ela encontra portas fechadas ou abertas, estímulos a ir além ou crenças fixas.

Se o ambiente cultural no qual a pessoa cresceu ofereceu espaço para mudar de pontos de vista, tentar novas perspectivas e descobrir novas idéias, então a criança terá chance de desenvolver-se e encontrar suas próprias respostas à vida. Mas se o ambiente tiver sido intelectualmente limitado e com padrões afetivos vinculados a formas de controle entre os membros, então a criança estará destinada a repetir o padrão, estereotipando-se e inclusive condenando quem tentar ser diferente.

A imediata alternativa a isso, será buscar afoitamente saídas pelos meios que a cultura de massa oferece, como férias, drogas, trabalho exasperado, sexo, etc. A tentativa só pode fracassar porque é o mesmo que dar a uma criança um novelo embaralhado e confuso para ela desenrolar. É preciso antes recuperar aquela luzinha que estava se acendendo na época em que a pessoa levantava seus primeiros por quês, no tempo em que sua imaginação voava livre, antes que o ambiente cultural no qual vivia lhe cortasse as asas.

2 comentários:

  1. Gostei muito deste texto.

    É um desafio enorme, o de criar um ambiente cultural rico e aberto que permita aos seus intervenientes que continuem redescobrir-se e reinventar-se ao longo da vida. Para as crianças, claro, que são pequenos diamantes em bruto e também os adultos e até os idosos, para quem nunca é tarde para "crescer".
    A vida, a rotina, os afazeres e obrigações muitas vezes absorvem os recursos (espaço-tempo-energia) que poderíamos empregar para tal...
    No entanto, e apesar de todas as barreiras que possamos ter entre nós e a "riqueza cultural" (e consequente riqueza de espírito) há algo a que podemos sempre ter acesso: A leitura - cujos hábitos são aparentemente cada vez menos comuns, sobretudo entre os mais jovens - é uma porta aberta para o mundo e para todas as nuances da vida, mesmo aquelas que não estão presentes na nossa vida quotidiana e no nosso universo cultural.

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  2. E acrescento: leitura de qualidade, não qualquer leitura.

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