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A IMPORTÂNCIA DO AMBIENTE NA FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS

Adriana Tanese Nogueira

Ser diferentes é e sempre foi um problema. Apesar de toda a conversa moderna sobre o fato que cada um é um e apesar do ideal da diferença e da tolerância, estamos longe de ter alcançado, de fato, essa meta.

“É conhecida”, escreve Silvia Montefoschi (C. G. Jung. Un pensiero in divenire. Garzanti, 1985), “a importância do fator cultural na orientação do comportamento do indivíduo e no facilitar a estabelecimento de situações neuróticas.” (pp. 88-89)

Se é verdade que todos queremos ser “nós mesmos”, é também igualmente verdade que o sentido de nossa vida depende de estarmos inseridos numa comunidade humana, o que traz consigo a tentação ao conformismo, o que por sua vez leva frequentemente à estereotipização e repressão das diferenças individuais. Pertencer a um grupo porém não necessariamente significaria sermos todos iguais.

“Um ambiente cultural heterogêneo, aberto, que aceita e que reconhece como valor a originalidade do indivíduo e da conflitualidade da existência, põe o indivíduo na condição de progredir para escolhas sempre mais livres, enquanto que um ambiente cultural homogêneo, fechado e rigidamente conservador pode impedir o abrir-se de novas visões do mundo e de toda possibilidade de renovação.” (Ibidem, 89)

Hoje em dia é possível encontrar pessoas de qualquer lugar do mundo. Temos acesso a todo tipo de informações. Entretanto, apesar disso, não vivemos naquela abertura mental que se imaginaria, pois a cultura de massa espalhada pela mídia ao alcançar os quatro cantos da Terra também achata e condena toda verdadeira diversidade.

Ser diferentes não é curtir um tipo de música ou um livro alternativo ao que passa na TV, muito menos escolher “estranhas” roupas e comportamentos. Não é cortes de cabelo que fazem a diferença, mas o que tem debaixo do cabelo, o “corte” da consciência. Aparências são apenas isso, aparências. Ser diferentes é algo muito mais radical. Algo que somente o indivíduo encontra em sua busca interior profunda. Ser diferentes é ser si mesmos de verdade.

Daí a importância de oferecer aos nossos filhos um ambiente aberto e livre, levando em consideração que a cultura atual apesar de sua diversidade conduz para padrões estereotipados de comportamento e de formas de pensar.

Com as crianças pequenas é preciso manter um saudável distanciamento de tudo o que é tido como “normal” para permitir ao pequeno crescer o mais livremente possível. Isso significa se conhecer, se descobrir, encontrar respostas pessoais às questões da vida que suas fases de desenvolvimento acarretam. O pensamento livre e a percepção original das coisas permitem maravilhas que são impensáveis a quem permanece enclausurado nos trilhos do já conhecido.


Ter absorvido o ambiente cultural que inclui a forma de pensar e de sentir as coisas, de interpretá-las, julgá-las, preferi-las ou excluí-las é o que molda nossa percepção pelo resto da vida. Vamos portanto cuidar para não estereotipar nossos filhos, para que não sejam mais um clone da estrela da tv, do esportista, do papai ou da mamãe. João e Maria são únicos. Nascemos originais e nos tornamos cópias porque assim somos ensinados. Se papai e mamãe não colarem na nossa testa respostas pré-fabricadas e pré-digeridas, se tiverem paciência conosco e acolherem nossa personalidade em desenvolvimento eis que podemos alcançar muitas coisas boas que vão beneficiar a eles também, incluindo felicidade! Filhos felizes fazem pais mais felizes, o que promove uma família unida, a qual traz saúde e harmonia para todos, inclusive para o ambiente social no qual vive. 

Comentários

  1. Gostei muito deste texto.

    É um desafio enorme, o de criar um ambiente cultural rico e aberto que permita aos seus intervenientes que continuem redescobrir-se e reinventar-se ao longo da vida. Para as crianças, claro, que são pequenos diamantes em bruto e também os adultos e até os idosos, para quem nunca é tarde para "crescer".
    A vida, a rotina, os afazeres e obrigações muitas vezes absorvem os recursos (espaço-tempo-energia) que poderíamos empregar para tal...
    No entanto, e apesar de todas as barreiras que possamos ter entre nós e a "riqueza cultural" (e consequente riqueza de espírito) há algo a que podemos sempre ter acesso: A leitura - cujos hábitos são aparentemente cada vez menos comuns, sobretudo entre os mais jovens - é uma porta aberta para o mundo e para todas as nuances da vida, mesmo aquelas que não estão presentes na nossa vida quotidiana e no nosso universo cultural.

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  2. E acrescento: leitura de qualidade, não qualquer leitura.

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