05/09/2010

O Amor e os amores

Adriana Tanese Nogueira

Em nossos romantismo cultural idealizado, nos referimos ainda a conceitos hipostatizados. Hipóstase é uma noção filosófica que significa originariamente “substância”, mas que com a evolução do pensamento humano ganhou a conotação de uma abstração  considerada como real, uma ficção.

A idéia de Amor muito difusa é, por exemplo, uma hipóstase. Um conceito em torno do qual se tem muito respeito e veneração,
que pouco se usa de “tão profundo” que é e que permanece como uma relíquia incapaz de ser aplicado ou de adaptar-se à realidade. Pois esta é outra coisa, muito diferente e inferior ao Amor.

Esta cisão faz parte da série na qual fomos criados nos últimos 2000 anos, aquela entre corpo e espírito. O Amor, pertencente às coisas do “mundo superior”, naturalmente não pode encontrar-se entre as corriqueiras e banais situações da vida dos comuns mortais. Ah, o Amor…!

Mudando de paradigma e caindo na real, amor é, a meu ver, difuso, frequente e comum. Todos amam e todos os dias. O “problema” não é o Amor mas Quem Ama, ou qual parte da pessoa ama.

Há muitos padrões de consciência com correspondentes diferentes níveis de profundidade. Se a barriga for a “vanguarda” na realidade existencial de uma pessoa, pela barriga ela amará e amará tudo o que agrada à barriga, combina, promove e empodera. “Vanguarda” aqui quer dizer o que realmente move, a ponta da lança. A cabeça pode pensar o que bem entender, mas o que move um indivíduo pode muito bem não ser suas idéias, apesar dele assim achar. Se os genitais forem seu motor, pelos genitais a pessoa ama. E desses casos temos muitos, não é? Agora, o sujeito cujo foco da personalidade está em sua carência e dependência amamará quem corresponder com o seu chamado ou quem ele achar que tem condições de preencher seu vazio. Muitos casos aqui também.

Tudo isso é amor, amor em diferentes camadas. Nem sempre porém a outra pessoa, a que está sendo amada, se encontra na mesma camada do amante. Por exemplo, imaginemos uma situação em que uma pessoa ama pelos genitais e faz sexo com outra pessoa que a ama pelo coração, o que inclui os genitais mas não se resume neles. A quem ama pelos genitais pode estar também amando pelo coração mas seu foco não é lá em cima, seu amor do coração é confuso e fraco, enquanto o chamado dos genitais forte e claro. O resultado é que os dois amantes estarão se “amando em línguas diferentes” mas achando na hora que se estão se entendendo. Mais cedo ou mais tarde o equívoco, inevitavelmente, virá à tona.

O carente que busca uma mãe pode ter a aparência de um indivíduo com garra e iniciativa, alguém com projetos de crescimento na vida. Sua amada pode vincular-se a ele por este plano que é o dela, para perceber com o tempo que o amante sofre de uma triste discrepância entre falar e fazer, idealizar e ser. Logo ela se vê posta na posição de mãezona. O amante a ama, de verdade. Mas a ama do seu jeito. Entretanto, aquilo não é amor para ela.

Cada camada tem sua verdade. No nível superior ou inferior de cada camada, esta verdade já não existe mais. Tudo é amor, mas cada padrão de consciência têm e precisa de amores diferentes. O amor que uma formiga pode ter não é o mesmo amor que um cão sente pelo seu dono. O amor que um bebê precisa é diferente do amor que um adulto precisa. Toda camada possui um certo grau de complexidade, cada uma está contida na seguinte. Quanto mais complexo for o ser humano que ama, mais complexo será seu amor. Quanto mais simplório (na consciência) ele for, mais trivial seu amor. Quanto mais profundo, mais profundo será o Amor.

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