15/09/2010

O problema do Amor

Adriana Tanese Nogueira

Acreditava-se (Joseph Breuer) que as neuroses eram o resultado de eventos traumáticos. Uma pessoa desenvolveria um sintoma por ter passou por determinado trauma anteriormente na vida, daí a problemática presente.

Entretanto, como Jung justamente refletiu e antes dele Freud, essa explicação não dá razão do fato que, por exemplo, irmãos reagem diferentemente à mesma situação familiar. A antiga medicina costumava dizer que havia uma pré-disposição para sofrer determinado problema. Freud perguntou-se então: de onde vem essa  receptividade prévia individual com relação a certo problema?

Seguindo esta linha de raciocínio e analisando o trabalho direto com pacientes, Freud descobriu que o trauma não é a causa patógena (a que gera a doença) e sim as “circunstâncias particulares”, algo individual e mais profundo que se situa além do trauma, e que lhe dá condições para acontecer. É como, portanto, se o sintoma, ao apresentar um problema, ocultasse também sua verdadeira origem patológica. Nesse sentido, o sintoma se torna um símbolo, e não somente a manifestação psiquica e física de um desequilíbrio interno, pois o símbolo, por sua natureza, expõe e esconde ao mesmo tempo.

O que estaria o sintoma encobrindo? Respondeu Jung, ao relatar as descoberta freudianas: “…revelou-se que, em todos os casos analisados até aquele momento, existia, além dos eventos traumáticos da vida do paciente, também um particular tipo de distúrbios que não podemos definir de outra forma a não ser como distúrbio da esfera do amor.” (“Vie nueve della psicologia”, Boringhieri, 1987, p. 246. Itálico meu.) Jung está aqui explicitamente introduzindo a temática do amor na psicanálise, e apontando para ela como a origem dos problemas neuróticos.

Concluiu Jung: “… o trauma, que em aparência é a causa da doença, não é outra coisa que um pretexto no qual se manifesta algo do qual antes não se tinha consciência, e precisamente um importante conflito erótico. O trauma perde assim seu significado patógeno, e cede o lugar a uma concepção muito mais profunda e mais vasta, que vê o conflito erótico como o agente patógeno.”

O maior ponto de atrito entre Freud e Jung foi a respeito da concepção freudiana da “libido” como uma força exclusivamente sexual. Jung entendia a libido como a energia da vida que se manifesta em várias formas, dentre elas a sexualidade. De maneira alguma, Jung considerava o sexo como determinante na vida de uma pessoa e em suas problemáticas psicológicas. Com relação a Freud e sua teoria, Jung fez o que aquele havia feito com a psicologia anterior: foi além. Deu um salto para um nível de causas mais profundo e mais vasto. Um salto que, a meu ver, ainda muitos precisam cumprir: ir do impulso erótico como mera sexualidade para o impulso erótico como amor. Ainda confunde-se sexo com amor e usa-se o sexo para ocultar e desviar o amor.

Décadas depois, Silvia Montefoschi em “C. G. Jung, um pensamento em devir” (1985), após ter apresentado o pensamento junguiano trata dos temas atuais que o inconsciente coletivo têm apresentado. Um dele é o “Tema do amor”. Escreve ela: “Freud, ao interpretar a repressão sexual como causa fundamental daquele sofrimento existencial que caracteriza a assim chamada neurose, consentiu a libertação da libido, ou seja do eros, da prisão do moralismo puritano própria da época histórica na qual ele operava.

“Mas, assim fazendo, ele desprendeu a violência do amor universal, do qual é sexo é a porta primeira e o partner do relacionamento erótico seu mais imediato objeto.

“O problema perante o qual nos encontram hoje é aquele de como investir a carga de amor para além do sexo e do objeto imediato do afeto para não sermos derrubados pela enchente da carga erótica.” (p. 167)

Em minhas observações e análises percebo que socialmente nos encontramos naquela fase aberta por Freud mais de cem anos atrás: a liberação da sexualidade. Esta realidade é comprovada pela facilidade e rapidez com a qual hoje em dia, mal alcançada a maturidade sexual física, os jovens começam sua vida sexual com parceiros não necessariamente estáveis. É a descoberta e a exploração desse novo território.

Porém, como a Montefoschi aponta, ocorre, junto à libertação do eros, uma enchente que causa devastação e mais sofrimento: o amor solto ao estágio de pulsão erótica funciona como areias movediças. Os parceiros não sabendo ir além do sexo são levados à troca frequente de amante ou então, sendo o sexo símbolo de algo mais profundo, ocorre o estabelecimento de uma dependência doentia, caracterizado por crises e ataques violentos.

Trabalhar a temática do amor é a tarefa atual que se depara na frente de todo mundo: o que é o amor? O que fazer com ele? Para onde leva o amor? Para que serve o amor?

Recentemente, refletindo sobre este assunto tive um sonho elucidativo: via na minha frente, em grandes letras maiúsculas, a palavra “amor”. Uma voz dizia que o amor era a força universal altamente poderosa que atravessou a história humana. Ao fundo do sonho via, como de longe, cenas de batalhas e mortes. Via a Igreja Católica e suas ações repressivas, exércitos e multidões. A voz comentava que o amor incluia destruição e morte. Parecia que tudo o que havia acontecido tinha sua razão em função de manter essa força de alguma forma sob controle. Era preciso aprender a manejar o amor para não ser por ele atropelados. O que impressionava no sonho era seu apelo universal, não havia nada de pessoal, mas uma verdade cósmica sem qualquer matiz romântico.

Este sonho abre um campo de pesquisa interessantissimo em termos de “metateoria” e especulação filosófico-psicológica. Mas, atendo-nos à dimensão pessoal, é fácil de ver refletido nele o que cuotidianamente testemunhamos: quantas relações de amor não incluem destruição (de talentos, de visão, de sonhos) e morte (de futuros e possibilidades)?

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