24/09/2010

Quem é seu inimigo

Adriana Tanese Nogueira

Inimigos são tão perigosos quanto mais se negar sua presença. Apesar do potencial para o bem que todos possuem e da declaração de boas intenções, é preciso aprender a olhar para os fatos que determinadas atitudes produzem.

Por trás e por baixo das infinitas diferenças de cada situação particular, se ultrapassarmos as peculiaridades pessoais, encontramos duas tendências básicas que se contrapõem: há um movimento para frente e uma resistência. Esta dupla de forças opostas pode estar presente no interior da psique individual e/ou no exterior das relações.

Vamos fazer um exemplo. A está apaixonado por B. Mas A é casado e não quer se separar da esposa porque infringiria dois dogmas: 1) que o casamento havia de ser para sempre e 2) que sem ela seu mundo desmoronaria. Logo, A vive um conflito interno entre duas forças opostas, de um lado, a que busca o movimento, de outro a força contrária que busca o que é seguro e conhecido.

Outro exemplo. C e D são bons amigos. C se apaixona por E, sobre a qual D tem suas dúvidas. D não acha que E seja uma pessoa honesta. C confia em D, mas quer fazer de seu jeito e finge que não vê. Uma vez encontrava a resistência externa (D), C projeta sua própria dúvida em D e, tirando D de se caminho, casa com B.

Passam os anos, C e E têm filhos. Estes começam a sentir-se apertados no ambiente doméstico, pois efetivamente E não era a melhor das escolhas. Naturalmente, os filhos nada sabem, só sentem. Um deles é atraído inconscientemente para D (que ele vê de longe, pois D não participa da vida da família), talvez justamante pela sua radical diferença de E. O desejo da criança de encontrar D, porém, será impedido, provavelmente de maneira indireta, por E, com a cumplicidade silenciosa de C. O menino então tem duas opções: assujeitar-se à vontade de E acatando-a como própria ou reforçar seu desejo e brigar pelo que quer. Isso vai depender de sua personalidade (e idade).

Em ambas as historinhas há uma luta interna e externa entre a força que empurra para além do imediato (por ex., das vantagens imediatas que uma situação pode providenciar) e uma outra que se agarra de unhas e dente ao lote pessoal, mesmo que seja feito de bijuterias sem valor. A briga é sempre entre o Ego e a Voz mais profunda e sábia, representada às vezes por pessoas de carne e osso outras por sentimentos interiores.

Pais podem ser inimigos de filhos e vice-versa, quando um deles impede o desenvolvimento do outro. Pode-se continuar a amá-los, mas os fatos restam fatos. Nas relações de casais é frequente dormir com o inimigos do que se imagina. O movimento para além deum deles é sentido como particularmente ameaçador. Apesar dos dois terminarem na cama (veja, Sexo como band-aid) o problema retorna no dia seguinte.

A verdade é que qualquer um pode ser nosso inimigo, porque inimigo não é uma pessoa mais uma atitude. Atitudes podem durar uns momentos ou uma vida inteira, depende da obstinação e consciência de cada um. É aqui que o potencial universal para o bem, ou seja para a evolução da consciência, abre caminho - ou não. Lembremo-nos do livre arbítrio, o qual devemos respeitar. Assim, quando há pessoas que escolhem se agarrar às suas atitudes mesmo quando demonstradamente erradas é preciso reconhecer o que são: inimigas do movimento para frente. Abençoe-as e deixe-as.

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