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SEXO COMO BAND-AID

Adriana Tanese Nogueira

Na busca da eterna alegria, do gozar uma vida plena, sorridente e luminosa, o sexo figura como perfeito atalho. Vejamos: o sexo providencia prazer (e não engorda como a comida), imediata gratificação (um fácil vicário da felicidade) e relaxamento (funciona melhor do que o Prozac). O sexo põe quem o pratica de bom humor, pelo menos no momento presente, e está potencialmente ao alcance de todos, além de (geralmente) não custar nada (apesar de poder custar chateações depois).

O sexo então é um método para sentir-se imediatamente satisfeito com a vida. Como ele acontece, ou assim se espera, com outra pessoa, o sexo também provê uma sensação de auto-estima e um lugar de mundo (ou na cama). Por ser precedido de um ritual (corte, paquera, olhar, telefonema, chopp, bombons e etc.) que o inflama e propele para seu clímax final, o sexo oferece um senso de alegria e até de amor. A expectativa em si já envolve a pessoa numa áurea luminosa tirando-a da banalidade do dia-a-dia, da vulgaridade das contas para pagar e das preocupações da sobrevivência.

Quando há atritos com o mundo ou com o parceiro, fazer sexo parece ser uma terapia tão excitante quanto efetiva. Para que tantas conversas quando na cama tudo se “resolve”? A química entre duas pessoas se apresenta como a chave para manter uma relação firme, para construir confiança e planejar o futuro. Na medida em que o sexo gera prazer ele é o pilar que sustenta os dias da relação, e o altar sobre o qual se sacrificam as diferenças, as dúvidas e as outras questões que não cabem na cama.

Então, a magia do sexo se revela tão conquistadora como manipuladora. O sexo conquista pela sua força magnética, pela irresistibilidade de suas urgências. Mas também manipula corações e mentes submetendo-os a seu domínio. Logo, sexo vira uma “obrigação” com cara de Carnaval, a liga quando não se tem o que dizer, ou melhor, quando se teme dizer qualquer coisa. Sexo vira a cola que une o que as mentalidades afastam, e a necessidade que contradiz e trai outras necessidades.

A compulsão sexual é uma dependência como tantas outras. Nela a parte é trocada pelo todo, e a alma é confinada a uma pequena porção do corpo. Quem avidamente o pratica está a seu serviço, sempre buscando oportunidades para apaziguar o deus em chamas que carrega dentro de si, nos quadris. A fim de espantar o fantasma da dependência (que gera insegurança), os momentos de prazer são enfatizados, e assim se fortalece o círculo vicioso.

Como distinguir o sexo como compulsão do sexo como comportamento normal?

Basta observar a vida da pessoa e ver se ela possui outras áreas de realização que lhe dêem igual satisfação. Deve-se também conferir se a relação com o parceiro é feita de respeito, liberdade e generosidade. Enfim, é importante prestar atenção nas outras formas de expressar o amor, além da sexual. Elas existem? Quanto mais completa for a pessoa, mas o sexo é pura alegria. Se, porém, este funcionar como antítodo, exorcismo, passa-tempo e fuga do dialogo e do olho no olho, é sexo trivial e banal. É sexo como band-aid.

Comentários

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  2. Adriana como sempre, um texto maravilhoso!
    Já vi essa história. Parece que o casal é somente parceiro sexual.
    Bjs.

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  3. Pois é, Jacqueline. É o tédio ano ao qual as relações estão relegadas.
    Abraços!

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