24/09/2010

Sonhar é pensar

Adriana Tanese Nogueira

É sabido que o filósofo francês, René Descartes, derivou todo seu sistema filosófico de três sonhos que ele teve enquanto estava acampado na Alemanha como membro do exército francês. Se o “Pai da filosofia moderna” sonhou com filosofia e você com as experiências que teve no dia anterior talvez dependa do tipo de comida com a qual você nutre sua alma. Contudo, é certo que os sonhos de Descartes não incluiam os racicínios e as argumentações plenamente desenvolvidas que ele escreveu em seus vários volumes e que iriam modificar a história do pensamento humano até hoje. Ele trabalhou nesses sonhos, sua mente aguçada levou-os a sério e deles Descartes extraiu uma obra de arte intelectual. Você também pode fazer o mesmo com os seus sonhos (se você se der o tempo e o trabalho).


A linguagem do sonho é diferente daquela que governa nossa vida consciente diurna, tanto é que todos sabem que os sonhos precisam ser interpretados. Não se lê um sonho como se lê esta minha frase, onde cada palavra tem um significado unívoco, pelo menos no contexto em que está. As “palavras” dos sonhos são de outra textura e a situação na qual se encontram (ou seja, a história do sonho e o momento de vida do sonhador) alteram ulteriormente seu sentido.

Em “Símbolos da Transformação” (na versão da última revisão de 1950), C. G. Jung levanta a primeira pergunta que surge ao lidar com a simbologia onírica: de onde é que vem essa capacidade de representar por símbolos que é tão diferente do nosso pensar consciente? É uma pergunta essencial que introduz a importância dos sonhos. Para respondê-la, Jung analisa nosso pensar diurno. Quando pensamos, podemos observar que nossos pensamentos formam uma corrente contínua de argumentos, como se estivéssemos querendo convencer alguém. Este pensar, além de manifestar essa lógica interna, está também direcionado para o externo. Por estes dois motivos, ele é chamado de “pensar com atenção direcionada”: pensa-se direcionando a atenção para algum fato da vida real e argumentando como se estivéssemos conversando com outra pessoa.

Mas a linguagem, escreve Jung, é mais do que isso. O que acontece, ele se pergunta, quando “soltamos” o pensamento, e não o direcionamos para algo? Acontece que ele perde o senso de direção e de representação superior, ou seja, ele não está mais vinculado a uma lógica global que o organiza e também não parece ter objetivos, pelo menos não externos.

Se o pensar com atenção direcionada é cansativo, este outro pensar é leve. Ele destaca-se da realidade e perde aquela força de gravidade que caracteriza o anterior. O pensamento direcionado é regido por palavras e argumentos, o outro pensar funciona por imagens e sentimentos apresentados em sucessão como num dominó onde algum tipo de congruência atrai a peça seguinte.

Esta segunda forma de pensar é chamada de sonhar e fantasiar. É uma atividade subjetiva e interna que acontece no pano de fundo da psicologia individual e de seus íntimos movimentos. Esta dimensão do pensamento era considerada antigamente como mensageira dos deuses (no Antigo Testamento Deus também manifesta-se pelos sonhos), em seguida passou a ser vista como sintoma de doença mental tanto mais grave quanto mais intensa sua presença na vida da pessoa. Assim a medicina da época de Jung a considerava. Mas ele corrige: “As bases inconscentes dos sonhos e das fantasias são somente em aparência reminescências infantis. Na realidade se trata de formas de pensamento primitivo ou arcáico baseadas em instintos, que como é natural se manifestavam mais nitidamente na infância do que depois. Mas em si elas não são nem infantis nem patológicas.” (1990, p. 42).

Logo, esse pensar por fantasias é tão objetivo quanto aquele lógico e direcionato e tão universal quanto o outro. O pensar dos sonhos promove a relação entre o pensar direcionado e as camadas mais profundas e antigas do espírito humano, localizadas abaixo do limite da consciência. Como água fresca o pensar inconsciente fertiliza o solo do pensar consciente que ao isolar-se demais do resto da psíque tende a ficar árido e pesado. É por isso que através dos sonhos podemos receber as revelações que trazem respostas e abrem caminhos.

5 comentários:

  1. Olá, Adriana. Tomei a arriscada liberdade de reproduzir seu texto aqui: http://www.sonhesustentavel.net/sonhe/
    Como faço para falar contigo a respeito? Ainda não o divulguei nas redes sociais. Obrigada, marília

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  2. Marília, o link que vc colocou aí não leva para nenhuma página em específico. Vc pode divulgar qualquer artigo meu, desde que com meu nome e o link para a página de onde o tirou.
    Abraço

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  3. Olá, Adriana, basta clicar no seu nome embaixo do título (Por "Adriana Tanese Nogueira"). Vou colocar o nome em negrito, para deixar mais explícito. Como a contato? Obrigada, marília

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  4. muito bom, olha descreve perfeitamente como e sonhar

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  5. Por tudo isso fico com o famoso dizer de certo sábio: "Sonhar é desejar sucesso e grandes realizações; logo sonhe grandes sonhos para que eles se tornem realidade"

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