28/10/2010

ADOLESCENTES REVOLTADOS

Adriana Tanese Nogueira


Presos em nossos problemas, na correria do dia-a-dia, entre contas, inseguranças, obrigações e aspirações, o adulto se pergunta impaciente e irritado: o que diabo quer seu filho adolescente?? Por que ele ou ela é tão difícil? Dá vontade, de vez em quando, de sumir. Afinal ninguém é santo e, às vezes, mesmo que por uns poucos momentos, aguentar um filho em plena “sintomatologia adolescencial” é um façanha que nossos já cansados neurônios imploram para evitar. É então que genitores heróicos dão um profundo suspiro, contam até dez e assumem seu papel - aquele que escolheram doze ou dezoito 18 anos atrás, quando resolveram ter um filho.

Para entender o adolescente começamos por uma metáfora. Quem já fez pão vai acompanhar rapidamente. Imaginemos uma bola de massa para fazer pão (ou pizza), ela não está no ponto, está úmida demais. Gruda nos dedos, na palma da mão e até na própria tigela. Enfim, é uma meleca só. Imaginem a situação surrealista de um dia acordar dentro de uma meleca dessas. Como Belas Adormecidas, vocês viviam confusos na massa, assim a Bela do conto não percebia o mato crescendo à sua volta, as pedras, o chão, o céu. Ela não via nada, estava viva mas “em outra dimensão” (por exemplo, na infância). Aí um dia ela acorda… Um dia vocês acordam dentro de uma massa de pizza pegajosa e grossa. Sentem vontade de mexer um pé, e ele está preso, querem esticar um braço e ele não consegue sair do lugar, querem abrir a mão e os dedos estão grudados uns aos outros… Querem levantar a pálpebra para ver e ela tem cilhos colados…

Imagem a cena acima. Aflitiva, não é? Acrescentem à essa situação seu total desconhecimento dos por quê e dos comos. Os limites que sentem só produzem irritação e impaciência. A ignorância na qual estão mergulhados só aumenta o desconforto. A massa é familiar, quentinha e macia, mas prende a garganta, as idéias, a visão e os movimentos. Há algo errado e não sabem o que é. Só sabem que se sentem horrorosamente presos numa coleira.

É mais ou menos esta a condição da adolescência, com a diferença que o jovem tem sua própria cabeça. Alguns de seus pensamentos são exagerados, outros sábios, uns ingênuos e outros preconceituosos. A confusão é diretamente proporcional à intensidade do grude (que depende da quantidade de água e/ou de outros ingredients – ou seja, depende do ambiente familar).

Vejamos quais são os elementos que tornam o grude mais ou menos melequento:

1) Se a família de origem ofereceu um ambiente emocional e intelectual claro e leve, ou seja: consciente.

2) Se os conflitos foram enfrentados e não escondidos debaixo do tapete, inclusive aqueles entre os pais e que nada tinham a ver com os filhos.

3) Se a mentalidade familiar permitiu abertura a novas idéias e experiências.

4) Se o filho, hoje adolescente, foi tratado na infância com respeito, atenção e afeto, e não como bebê ou boneco.

5) Se os pais estão satisfeitos consigo e com suas vidas, ou se têm desejos reprimidos, insatisfação e raivas negadas.

6) Se o jovem pôde cumprir as etapas anteriores de seu desenvolvimento psicológico com relativa liberdade e, ao mesmo tempo, com o acompanhamento ativo dos pais.

7) Se o ambiente doméstico permiteu a diferença, o questionamento dos papeis, a busca por algo a mais.

8) Por ultimo, e somente após ter passados pelos itens acima, deixamos uma incognita aberta, porque ninguém é completamente decodificável e traduzível. Há sempre um ingrediente individual, que vem da alma da pessoa, e que pesa na balança.

A umidade da massa representa a emotividade e os preconceitos. Se vocês observarem ambos produzem uma limitação do movimento (intelectual e físico), são “pegajosos” e irritantes. São absorvidos no ambiente familiar, que as circunstâncias da vida podem contribuir para intensificar. Geralmente, a afetividade é grudenta quando não é consciente, o que aumenta as chances de ser acompanhada por um bolo informe de outros sentimentos, tais como culpa, inferioridade, medo, traumas, etc. A esse respeito, é importante frisar que filhos sofrem as dores dos pais, queiram ou não, saibam ou não disso. Sofrem por eles, têm dó deles e temem serem ingratos ao “abandoná-los” e “trai-los” na hora de crescer. Muitos pais e mães jogam pesadamente com esta carta, porque é fácil e permite ser confudida com o “amor”, uma perfeita estratégia para manter os filhos por perto na hora em que temem perdê-los. Ao sentir-se sufocados, os filhos têm duas opções: deixar-se abafar (e ser “bonzinhos”), ou sair de casa e ir o mais longe possível dos pais.

Outro ingrediente que contribue para a massa informe da adolescência ficar mais insuportável são os desejos e as ambições reprimidas dos pais, que os filhos de alguma forma absorvem sem saber. Esta atitude, também inconsciente, produz no filho um conflito interno entre realizar a vida não vivida de um dos pais ou construir a própria. Até o jovem não resolver esta briga interna, salvando a si mesmo e ao amor pelo genitor, não estará em paz.

Outro elemento prejudicial é a falta de dialogo em casa. Conversas abertas, honestas e sem censuras ajudam o jovem a se orientar, a entender melhor o mundo, a se situar e, sobretudo, a se descobrir. Infelizmente, muitos pais não têm tempo e/ou condições psicológicas (porque não sabem como ter um dialogo) para estar com seus filhos nesse terreno aberto e produtivo que é a troca. Esses pais, portanto, se limitam a emitir julgamentos, banalizações e opiniões mascaradas de verdades.

A este quadro se soma o complicado mundo no qual vivemos onde a publicidade e a mídia promovem a falsa idéia de que tudo é fácil e ao alcance da mão. O jovem sente desejos que não pode realizar. Oprimido por tudo o que não têm (e que “os outros” parecem ter), se sente angustiado e revoltado. Na agitação, se enrola mais ainda na meleca pegajosa. Além disso, seu desejos flutuam e, se não tiver recebido em casa critérios para distinguir o que vale do que não vale, estará à mercê de suas fantasias, não podendo distinguir uma necessidade profunda, existencial e importante de um enamoramento passageiro ligado a modas.

Não podemos esquecer do corpo. O adolescente se depara com um corpo em crescimento, que é estranho, cheira estranho, pede coisas estranhas, tem vontades impensáveis. Tem pêlos, dores, sangue. O adolescente começa a notar que os outros o olham e começam a enxergar nele um adulto e não mais aquela criança simpática com a qual se pode brincar. Mas é adulto só pelo físico. Pego de surpresa por seu próprio corpo que se desenvolve sem avisar, o jovem se sente inebriado pela perspectiva da liberdade adulta mas, ao mesmo tempo, apavorado.

E, falando em crescer, é inevitável que o pais se tornem os modelos do adulto para os filhos. Neste caso: será que o filho quer ser como o pai e a filha como a mãe? Será que se sentem atraídos pelo que vêem em casa? Talvez o filho não queira ser como o pai ou a mãe porque não gosta do que são e de como vivem, ou talvez está assustado de ver o quanto seus pais sofrem na luta pela sobrevivência e não querem passar pelo mesmo. E será que tem outros modelos de referência para se imaginar “grande”?

Para finalizar esta brevíssima e incompleta análise da revolta adolescencial, devemos tentar imaginar uma alma que sabe de si e que precisa encontrar seu caminho num mundo a primeira vista hostil. Não falo dos amigos e da família, mas do mundo externo, das ruas, dos carros, dos prédios, dos jornais, da economia mundial, das eleições, das fábricas, das multinacionais, das guerras, da camada de ozônio… O adolescente pode não parar para refletir sobre isso tudo, mas está à sua volta, está no ar poluído que respira, das injustiças que testimunha, nas perguntas sem respostas. Acredito no que James Hillman fala em seu “O Código do Ser”, isto é que nascemos com uma alma que carrega seu propósito. Ela sabe mas o ego não. Viver é descobrir-se, encontrar-se. Requer tempo.

A adolescência é o momento em que o ego começa a acordar para sua alma e, na grande maioria das vezes, pressente o quanto está longe de seu caminho. Longe porque há uma estrada a ser feita, com várias e imprevisíveis etapas, e longe porque talvez nasceu numa família cujos valores e práticas o mantém muito distante do que ele é por dentro. Esta percepção acrescenta tensão e angústia ao pote já cheio. E ele se sente só.

Ser adolescentes não é fácil. É o momento de um segundo nascimento. Quantos jovens têm condições para realizar essa transição de forma positiva e em sintonia com seu verdadeiro Eu?

17 comentários:

  1. A melhor maneira de sair dessa situação, na minha opinião é comparar, os pais com os pais dos pais. Quando eu comecei a ter curiosidade pelo passado do meu pai, ele faz muita coisa que ele mesmo reclama do avô, por exemplo, não escutar a outra pessoa e falar como o dono da verdade. Desde então nossa relação pode ser chamada algo perto de saudável e com sinais de melhora. Pena que eu esqueci praticamente toda minha infância de tanto stress =/.

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  2. Pena mesmo, Rudá. O estresse é um fator que altera completamente a experiência.
    Quando você fez a comparação foi com o teu pai, certo? Só desta forma ele poderia ter tomado consciência de que estava repetindo o que não gostou do pai dele. É assim mesmo que acontece: se repete. Isso é triste, como adolescente a pessoa reclama e se revolta, mas na ausência de modelos alternativos, acaba repetindo quando grande... :-(

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  3. Leninha 30/07/2013 O que que eu como Mãe tenho que fazer quando minha filha diz que não quer mais morar comigo , e as vezes chega até a fujir? Por conta de rebeldia, quer ser adulta quando ainda só tem 13 anos, mente por tudo, nunca sei quando fala a verdade pois não faz diferença porque a mentira é muito convincente, só faz quando quer e o que quer, sempre é muito interesseira, não dá valor a nada só enquanto não tem depois que adquire acaba ali o encanto. É muito vaidosa mas nunca cuidadosa com ela mesma, Sempre faz algo por exemplo pega algo de alguém escondido, depois se descobre em seguida parece que ela não fez nada absolutamente, sorri conversa com naturalidade. Não foi essa a educação que dei a ela, fui muito presente na vida dela e eduquei com verdades ensinando o que toda mãe ensina sempre acompanhei de perto pequenos detalhes de tudo que ja escrevi e levei a psicologa. 2 anos depois viemos descobrir q era molestada por um ... que na época ela com 6 anos e ele com 55 anos. fiz todos os procedimento judiciais, ele não foi preso e hoje ela tem essa vida que eu não sei como lidar ou como ajuda-la. por favor me responda.

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    1. Leninha, é difícil poder ajudá-la através desse curto depoimento que deu. Teria que lhe fazer várias perguntas para ter uma idéia real da situação. Sugiro que marquemos uma consulta de 1hora e meia para você me expor o caso e eu poder oferecer alguma orientação que sirva. Se quiser, me escreva: adrianatnogueira@uol.com.br

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  4. O que me revolta mesmo é que as vezes os pais só reclamam e se perguntam do por que de tanta ''rebeldia'', em vez de procurar e saber o que se passa em nossas cabeças, é claro que a maioria não gosta muito de se abrir com os pais, pois pensamos que seremos julgados ou reprovados de alguma forma. Entendo que eles mandam na gente, porem existem pais que não aceitam o jeito de ser dos seus filhos, alguns com a sexualidade, outros por comportamento e no meu caso estilo. Minha mãe acha que por eu gostar de usar preto, ouvir músicas pesadas, ou até mesmo pelo fato da minha audácia, vou acabar virando uma delinquente,com tatuagens e Piercings espalhados pelo corpo, já que na cabeça de toda a minha família eu deveria ser a garotinha ''perfeita'' .

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  5. Seria possivel descobrir os pensamentos ocultos dos filhos? De maneira alguma. De alguma forma passam pra nos pais, seja por palavras, comportamentos.
    Creio eu que o melhor remédio para os comflitos seria o acordo, quando se fala de uma mente saudavel, e muitas vezes o dialogo na hora certa seja a melhor soluçâo.

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  6. Seria possivel descobrir os pensamentos ocultos dos filhos? De maneira alguma. De alguma forma passam pra nos pais, seja por palavras, comportamentos.
    Creio eu que o melhor remédio para os comflitos seria o acordo, quando se fala de uma mente saudavel, e muitas vezes o dialogo na hora certa seja a melhor soluçâo.

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  7. Eu sou revoltada porque não aceito as injustiças. Acabo machucando minha mãe que é uma rainha que está me criando praticamente sozinha, meu pai é auzente, mas acha que é presente e isso me revolta. Eu não quero ser assi. Mas não consigo mudar meu jeito e ser aceita na família.

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    1. Querida Luzenice, vc tem razão em estar revoltada. Há tantas injustiças no mundo! É bom você manter seu espírito vivo e perceptívo. Só precisa aprender a expressar sua revolta de forma construtiva para de fato você ser alguém que faz diferença no mundo! Pense nisso :-)

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  8. Obrigada pela dica; mas é que,de fato eu não sei saber lhe dá com as pessoas ao meu redor, e por isso extravaso,berro, falo coisas que não deveria falar e acabo vendo as coisas de um modo equívocado justamente porque o que aconteceu eu não aceito.

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    1. Precisa aprender, se não vai acabar por ser a "culpada" e suas boas razões ficaram enterradas por baixo de seus "berros".

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  9. meu filho pediu pra morar com pai deixei por eu aguentava mais ,por q estava faltando a aula por eu saio cedo pra trabalha ai meus 4filhos ficava sozinho tenho um de 15um de 17um uma de 12 e aoutra de 8 voltando o asunto este mu filho de 15 foi morar com pai ele é os outros mais velhos na epoca ele tinha 12 hj eu ti com uma pessoa q não os aceita não tenho condições de pegaloagora mas converso com eles explicando q quando arrumar um emprego vou pegalos mas descobri q estar usando drogas não tem limites não aceita q chame atenção dele fica só na rua ninguém sabe o paradeiro drle parou de ir a escola me ajude por favor

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  10. ele quando vem me ver do para pedir as coisas e fala q eu não gosto dele q eu o abandonei mas foi ele q pediu pra morar com pai vivia me pedindo antes de eu tomar a decisão de deijalo morar lá com pai por ele estar faltando a aula por q não tinha como eu estar com ele neste momento por eu estava trabalhando o pai e um vagabundo não sei se ele foi morar la e viu o pai q quis ficar igual não sei o a faze se quando eu pegar ele ele continuar com mentira e usando drogas falo pra ele mudar converso do conselhos explico a situação ele escuta mas se persebe q entra num ouvido e saino outro

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    1. Bheth, o pai de seu filho é um "vagabundo" e você deixa seu filho ir morar com um "vagabundo" e depois se surpreende que seu filho vire um "vagabundo"... Complicado, não? Seu filho precisava de alguma coisa que você não soube dar, ou menos reconhecer o que era. Ele ficou sem, está perdido. Querer ir morar com o pai era um sintoma, não um desejo real. Ele estava precisando de direção, orientação, liderança.

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  11. Respostas
    1. Claro que sim! Um filho está em nossa vida por algum motivo e vice-versa. A recuperação não só é necessária como possível.
      ... precisa somente dar-se ao trabalho, pois nada cai do céu.

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  12. Meus pais são chatos pra... O tempo todo me limitam, são medrosos demais, acham que certas pessoas são falsas e querem impedir de ir no mesmo lugar que elas estão porque podem prejudicar e sempre esse argumento, não me deixam em paz nem eu sendo de maior, quero construir minha idependencia e não consigo porque acabo ficando com pena desses chantagistas, eu tava de passeio queria ir pra uns negocio de uma igreja la e eles disseram que nao era pra ir porque o pastor era falso e minha ex estava la, ate nao fui mas fiquei muito depre e pra compensar essa energia to planejando fazer o triplo de coisa pra chocar eles, vou sair pra baladas, ir pra eventos e fazer coisas q eles ficariam putos mas parar mim serve de experiencia pra encontrar minha identidade, mas quando digo que quero encontrar minha identidade eles se fazem de desentendidos então nn adianta falar nada pra eles por isso que comecei fazer tudo escondido, e agr vou buscar minha idependencia e ficar o mais longe possível desses dramáticos

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