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AFOGANDO NO CONFORTO

Adriana Tanese Nogueira


Nos tempos atuais, o valor regulador da cultura de massa é o conforto. O que mede o sucesso de uma pessoa é a quantidade de conforto que possui. Ter uma vida confortável quer dizer poder comer o que se deseja e aliás ter muita comida na geladeira e no freezer mesmo que seja para ser jogada fora porque é demais e não dá tempo de comê-la, fazer o que se quer (ou quase tudo), viajar e possuir objetos como casas, carros, roupas, perfumes, sapatos, lingerie da moda, motos, etc., cada um segundo seus ídolos. No geral,
conforto envolve o uso de dinheiro para um bem que deve poder ser imediatamente aproveitado. Estamos no antípoda da Idade Média quando as pessoas não nobres viviam uma vida dura e pobre com a promessa num além melhor, o paraíso após a morte. Hoje as massas querem viver bem agora.

Que a razão dessa ansiedade por conforto venha de uma infância problemática, ou porque se ama os filhos e lhes se quer dar uma “vida boa”, ou ainda porque a própria se deseja “aproveitar a vida”, o investimento monetário e energético (tempo e dedicação) é maciço quando se trata de conseguir a satisfação imediata via acquisição de bens de consumo.
O efeito colateral desse movimento é que dele surgem indivíduos fracas. Pessoas que tem tudo agora e já não sabem criar projetos a médio ou longo prazo, não são capazes de administrar seus recursos porque não sabem se segurar e não gastar, têm escassa capacidade de concentração, perseverança e determinação. Pelo fato de estarem habituadas a satisfazerem suas necessidades já, não sabem esperar, não sabem “aguentar” e muito menos criar estratégias e persegui-las para chegar a seus objetivos. Uma boa descrição de uma pessoa psicologicamente fraca.

Graças à facilidade de acesso a muitos bens que eram outrora reservados a uma elite, uma parte sempre maior da população tem mais conhecimento e dispõe de mais recursos - só que não sabe o que fazer com eles. Os valores dominantes da cultura de massa não prevêem um projeto de vida, um devir que cada um conquista individualmente pelo esforço pessoal e constante. Quando há objetivos eles são brandos e a postura é indolente. O convencimento mental pode ser forte, porque pensar é fácil, botar uma palavra atrás da outra é um processo que não requer muito Q.I. nem tempo ou fatiga. O grande problema surge na hora da realização.

Afundado no conforto macio da ausência de impelentes necesidades vitais, o indivíduo (ainda mais quando for um jovem criado assim) não tem forças para se levantar e andar. Melhor, não tem motivos para fazê-lo. Sem direção, fica-se onde se está. Após a inicial orgia de conforto e prazer, a queda seguirá inevitável.

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