18/10/2010

Civilidade e democracia


Adriana Tanese Nogueira

Moro nos Estados Unidos, “referência paterna” para o Brasil dos anos 60, 70, e ainda hoje para muitos. Uma das coisas que mais me agradam daqui é a civilidade. Civilidade define-se como um “conjunto de formalidades observadas entre si pelos cidadãos em sinal de respeito mútuo e consideração.” É também “Polidez, urbanidade, delicadeza, cortesia”. É engraçado como dos americanos se segue só o que interessa a alguns grupos, deixando de lados os traços civilizatórios que este país tem a oferecer.

Por não estar acostumada é que achei ultrajante o artigo de Laura Diniz na edição da Veja de 13 de Outubro de 2010, “O segundo assalto da terrorista”, com o subtítulo “Uma ex-comunista que flanou por Paris pode levar uma bolada de 70 milhões. Quem paga é você”.

O texto parece ter saído de uma conversa de botequin entre dois sujeitos da extrema direita, amargurados e enraivecidos pela vida infeliz que levam, tomando cerveja num final de dia e cuspindo escrementos sobre seus inimigos. Independentemente do assunto, um artigo não se escreve assim, ainda por cima, um artigo numa revista que tem o poder social e de mídia como a Veja. É algo do qual a sociedade deveria ter vergonha: o artigo é incivil, crassamente preconceituoso, arbitrário e vulgar. Sem civilidade não há democracia.

“Terrorista” é uma designação relativa ao ponto de vista de quem a usa. É sempre considerado um terrorista o sujeito que se opõe ao sistema constituído, o qual, naturalmente, vai tratar de representar seus oponentes da forma mais assustadora e estúpida possível com claros fins demagógicos (demagogia = arte de manipular as massas utilizando idéias como cobertura mas na realidade apelando para fortes sentimentos). Terrorista é o “mau” menino que se atreve a opor resistência ao que o papai “bom” faz.

Se quisermos ter uma visão objetiva da realidade devemos tomar distância e nos perguntar: o que é o que os “bons” fazem? É assim que se faz história. Presos nas artimanhas da informação manipuladora, muita gente simplesmente segue a correnteza não se perguntando a origem e o objetivo da informação. É o que ocorre no artigo de Laura Diniz: ele carrega um julgamento e a jornalista leva o leitor desavisado a simplesmente repetir o já estabelecido (por ela e pela Veja).

Se é verdade que o Brasil saiu da dituradura militar, por que é que se continua utilizando o vocabulário forjado pela ditadura para referir-se aos seus oponentes? É como se os USA e o mundo muçulmano “fizessem as pazes”, mas os árabes continuam sendo chamados de terroristas pelos americanos (e vice versa). Seria ridículo. O Brasil passou por uma ditadura militar. Será que alguém duvida disso assim como há hoje bandos nazistas de que negam os campos de concentração? Se o Brasil passou por uma ditadura, isso significa que os que não quiseram aceitá-la - ilusioriamente apelando para suas liberdades civis (observem a página  da Wikipedia sobre o assunto em português, e agora vejam a em inglês Diz alguma coisa isso?) - foram apontados como “terroristas”, porque não baixaram a cabeça, não se contentaram em assistir samba e futebol e em encher a panza.

Aí vem a acusação generalizada presente no artigo, a de cometer “assaltos e assassinatos”. Vejamos, num regime democrático a oposição se manifesta através do voto, de manifestações populares, petições, protestos, envolvimento político, panfletagem, literatura, grupos de discussão, reflexão crítica e debate. Certo? Quando esses meios de expressão das idéias políticas são banidos, eles viram todos ações “terroristas”. Se, ainda assim, há gente que não aceita a submissão e a lavagem cerebral, que por sua “infelicidade” continua pensando diferente dos donos do poder, não tolera sua política, e quer participar da história ao invés de contentar-se em fazer parte do bando de ovelhas que é levado para onde o pastor “bom pai” quiser, este sujeito “rebelde” deverá partir para ações drásticas.

Os “terroristas” eram indivíduos que estavam reagindo à violência institucionalizada que os militares aplicaram como forma de governar o país. Os militares chamavam suas ações de “ordem” e os que a elas resistiam eram os “terroristas”. Poderíamos muito bem dizer o oposto: que, frente à violência militar, à barbaridade da violação de todos os direitos civis dos cidadãos, algums corajosos puseram sua vida em risco para lutar contra isso tudo em prol de todos.

Não é preciso tomar partido por nenhum dos dois lados para fazer jornalismo de qualidade. Mas é necessário evitar demagogia, isso no caso em que de fato saimos da ditadura.

Outro elemento grosseiro que beira o ridículo é a frase: “…Ação Libertadora National (ALN), grupo liderado por Carlos Marighella que, nos anos 60, praticava assaltos e cometia assassinatos como forma de derrubar o regime militar e interwar uma ditadura comunista”. A jornalista Laura Diniz, e a Veja que lhe deu espaço, estam claramente falando com leitores de nível intelectual de quarta série. Não só a jornalista chama o militar de “regime” e o comunista de “ditadura”, como sustenta a idéia de que se o método para alcançar tal “ditadura” seria via “assaltos e assassinatos”. Isso é pueril, a autora não possui conhecimentos históricos básicos. Uma revolução basea-se numa ideologia (que é diferente de “demagogia”), a qual está vinculada a ideais. Não sei se Laura Diniz tem noção do que significa essa palavra: ideais.

Ideais são valores universais. Não, não estou falando de “ideal de um corpo perfeito” com o qual a jornalista deve ter mais familiaridade. Falo do ideal de justiça universal, de acesso à educação universal, de paz, do fim da fome, de igualdade entre gêneros e entre classe sociais. Falto dos ideais lançados  na Declaração dos Direitos dos Homens e naquela dos Direitos das Mulheres. Falo dos ideais que visam a criação de um mundo mais justo. Pelo menos no caso do comunismo, sua base são ideais. Não o ideal de acumulação do dinheiro e do poder social, este é a linha condutora do sistema capitalista. O nosso, atual. Os ideais comunistas não geraram como a história demonstra realidades humanas praticáveis. Assim como não podemos dizer que de Jesus Cristo a Igreja Católica tenha feito justiça quando matou milhões de mulheres, judeus, muçulmanos e etc. ao longo de sua história, além de outras barbaridades. Nem por isso, joga-se fora a criança com a água suja. Certo?

Não é parte da natureza comunista “flanar” por Paris. O que Ana de Cerqueira César Corbisier, a suposta “terrorista”, fez em Paris não tenho a menor ideia (porque não a conheço) e o leitor não tira do artigo nenhuma informação a respeito. É do comunista lutar por um mundo melhor, apesar de ter ele mesmo que pagar um preço alto por isso. A vida não é fácil para ninguém, nem por isso o comunista resolve limitar-se à sua panza e aos seus interesses pessoais. Este pelo menos é o comunismo em sua essência humanizadora. Não tenhamos medo das palavras, tenhamos medo das práticas e saibamos reconhecer experimentos e indivíduos pelo que são: experimentos e indivíduos. Apenas.

Evidente que sou contra a ditadura militar, e contra qualquer ditadura. A Veja e a Laura Diniz, porém, não parecem ser contra a ditadura militar mas somente contra aquela comunista. No artigo competem entre si duas mensagens. Por um lado há o descrédito de tudo e todos que se opuseram à ditadura militar. Isso, naturalmente, é de arrepiar considerando o poder que a Veja possui no Brasil. Daí a pergunta: vivemos realmente numa democracia?

A segunda mensagem do artigo diz respeito ao “valor” dominante na sociedade atual: o dinheiro. Seria o fato que alguém receberia “uma bolada” de dinheiro o que mais incomoda a Laura Diniz e a Veja? Ainda por cima cutucam no leitor a mesma ganância (outro traço que a ditadura militar triunfalmente enfatizou no país): “você é quem paga”. ou seja: “Olha, tem grana aí e outra pessoa está botando as mãos nela, não você (ou eu)”.

Nisso se resume o artigo de Laura Diniz. Informação que é boa, não tem. Se tivesse daria dados objetivos, apresentaria uma entrevista com Ana de Cerqueira César Corbisier que está pleitiando um ressarcimento. Como pode o leitor avaliar objetivamente um fato desses sem dados concretos?

Vale perguntar-se: estariam a Laura Diniz e a Veja contra a Lei de Reparação dos Anistiados? É possível. Partidários como demonstram ser da ditadura militar não devem considerar válido ressarcir pessoas que “voluntariamente” se jogaram nas mãos dos torturadores e assassinos, pagos, estes sim, pelos cofres do estado (ou seja, literalmente com o dinheiro dos cidadãos), pois eram todos funcionários públicos.

Concluindo, o artigo de Laura Diniz não mereceria sequer um olhar se fosse a impressão de fundo de quintal de um grupo de fanáticos infelizes. O problema é que se trata da expressão de uma revista do poder da Veja, e esta é uma vergonha nacional.

Propositalmente, não comentei o conteúdo propriamente dito do artigo, ou seja a questão do dinheiro e de sua quantia porque queria frisar o contexto no qual a suposta informação é passada. Se um maluco gritasse à sua janela que o fim do mundo está chegando você não gostaria de conferir as informações e avaliar com lucidez a realidade antes de se juntar a ele e pular pela janela? Isso é ter senso crítico e parece que com a Veja é preciso ter muito senso crítico para conseguir tragar suas “notícias”. Para quem quiser ouvir o outro lado da moeda, ou seja, o que Ana de Cerqueira César Corbisier tem a dizer, acesse A companheira Ana pede ajuda .

6 comentários:

  1. Mesmo sem entrar no mérito do valor devido ao sofrimento a ela causado, o próprio número se contradiz-- mesmo que ela receba uma quantia de 15.400 reais mensais por 50 anos, o total é R$9.240,00. Ou seja, nem em matemática básica², essa jornalista é proficiente.

    Entrando no mérito da questão, 15.400 reais mensais está longe de ser algo absurdo aqui no Brasil, onde um deputado federal tem direito à indenização de despesas advindas de moradia,alimentação e outros gastos, o qual mais que dobra o sálario do dito cujo, ultrapassando facilmente R$ 20.000 por mês (dá pra fazer a feira, né?).

    ResponderExcluir
  2. Puxa, obrigada pelas informações. Dá pra fazer a feira própria e da mãe, do cunhado e do vizinho...! Fiquei realmente abismada com a baixaria da jornalista, ao menos que desse dados embasado para fundamentar seu alarde. Será que ela acha que os leitores são burros?

    ResponderExcluir
  3. Fiquei encantado com suas análises, vou guarda-lo entre aqueles escritos raros que tenho. Algo que me assusta é que ela não é uma exceção, mas uma constante na mídia brasileira, e me custa acreditar que exista um empresariado burro para mantê-los ou até influenciar tais estupidez.
    Parabéns mesmo.

    ResponderExcluir
  4. Obrigada, seu moço sem nome! Como dizia Einstein há duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana, e, ele acrescenta, "não tenho certeza quanto ao universo" ;-)

    ResponderExcluir
  5. Bom dia sra Adriana, achei muito interessante o seu texto.
    Sou homem, tenho 30 anos, sou eng. civil e estou com sérios problemas de concentração. Atuei durante os 6 últimos anos como gestor de uma equipe em uma atividade que me sugava totalmente e em demasia, eu tinha que ficar atento a tudo o que a equipe estava fazendo e deveria saber de tudo o que estava acontecendo. Hoje, não mais estou neste emprego, saí faz 3 meses, mas, simplesmente NÃO consigo me concentrar nas minhas atividades, uma vez que ouço tudo o que está acontecendo no escritório, que meus colegas falam e fazem e com isto tudo leva minha concentração. Só pra se ter uma idéia, não consigui ler seu texto de bate e pronto... tive que ler, aí minha mente vagava e eu tinha que buscá-la e assim por diante... Gostaria de sua ajuda. Gostaria de saber se tem algum execício que eu pudesse realizar para tratar esta minha situação? Meu e-mail é cardec.blb@gmail.com

    Certo de que posso contar com sua atenção,

    Grato
    Cardec Lomeu

    ResponderExcluir
  6. Olá Cardec, estarei lhe enviando um email.

    ResponderExcluir