24/10/2010

A IMPORTÂNCIA DA FIGURA PATERNA


Adriana Tanese Nogueira

Conceber e parir um filho é algo natural, acontece. Pode-se desejar um filho e fazer de tudo para engravidar, mas o fato em si ocorre fora da vontade do ego, tanto é que se engravida tantas vezes sem querer quantas não se engravida querendo. Parir, então, nem se fala. Acontece de qualquer jeito, uma força maior dirige os eventos e eis que temos um bebê no colo. Se se permitir que
os bebês cumpram seu tempo de gestação, eles certamente irão dar o sinal de que está na hora de nascer; o problema hoje é que os médicos e as mulheres não quererm esperar e então é que parece que o parto não vai acontecer e é preciso intervir. Mentira. Era só esperar.

Cuidar de um recém-nascido, socorrê-lo e protegê-lo é algo que faz parte do comportamento natural de um ser humano, na grande maioria dos casos. Os antigos romanos deixavam em cantos da rua os bebês indesejados (sobretudo meninas) e ainda nos tempos da colônia no Brasil se fazia isso. Mas se os pais naturais não o querem, alguém geralmente o acude. O bebê desperta imediata piedade, é difícil que uma pessoa psicologicamente saudável permaneça imune ao apelo mudo e os gritos de socorro de um filhote humano.

Se atender à necessidade imediata de um pequenino é algo instintivo, permitir-lhe a continuidade da vida, nutri-lo e dar-lhe um teto, ou seja assumi-lo é outra coisa. A maternidade natural (que venha da mãe biológica, da vizinha ou da avó) pertence ao grupo de atitudes instintas que vão sob o nome de “instinto de conservação da espécie”. Nem sempre o instinto “funciona”, sobretudo quando “olho não vê, coração não sente” ou quando a mãe está emocinal ou psicologicamente desequilibrada, mas pode-se dizer de forma geral que o comportamento do cuidado com o bebê é bastante difundido.
Agora, a paternidade é outra coisa. Um indivíduo pode ter sua vida salva (das intempéries, dos bichos, dos maus) mas não ser ninguém, não ter lugar no mundo, uma comunidade, um berço, uma história. A vida física não basta, o ser humano precisa da integração social. Dar a paternidade a uma criança, antigamente, significava dar-lhe o nome de família e com ele vinha um lugar na sociedade, conexões, ajudas e perspectivas. Significava também educação, trabalho, relações, confiança, apoio, patrocínio, orgulho. Durante séculos, um indivíduo só era aceito na sociedade se o pai o assumisse. O alvará do pai corresponde à legitimidade do indivíduo no mundo: “Eu tenho um lugar e o direito de ocupá-lo”.

Com o deterioramento da estrutura social e a mudança dos papeis e das regras sociais, acompanhada pela crise de mulheres e homens, não podemos nos fiar mais na paternidade entendida nessa acepção. Ela continua, entretanto, uma realidade psicológica. Se a função paterna tem sido exercida ao longo da história pelos homens, hoje em dia está evidente a todos que nem sempre eles têm condições de exercer esse papel na vida dos filhos. Há mulheres que possuem uma função paterna mais forte e evoluída do que muitos homens. Há muitas mães, solteiras ou não, que se encontram à mercê de maridos pais ausentes, distantes, negativos.

O pai é o símbolo da projetualidade da vida, daquela atitude que transforma a existência do imediatismo diário ligado à satisfação de desejos pessoais da ordem da sobrevivência a um sentido pessoal, ou seja à realização de um propósito. Ter objetivos implica engajar-se, fazer o esforço, desenvolver perseverança e disciplina. Ter metas, que incluem a necessidade interior de expressar um talento e a própria personalidade, criam aquela tensão indispensável para o arco lançar a flecha e o indivíduo se lançar na vida munido de visão e força de vontade.

Uma função paterna forte e saudável dá à pessoa confiança no próprio taco, fazendo-a sentir “com as costas cobertas” e impulsionando-a adiante. Uma estrutura psicológica paterna sólida dá chão (social) e metas ao mesmo tempo. Por um lado, situa o indivíduo na realidade, ora mais material, ora mais ideal, dependendo do modelo de origem da função, mas sempre oferece um determinado contexto sócio-cultural, de onde a pessoa pode partir, evoluir e, finalmente, construir seu próprio mundo.

Vemos hoje o quanto essa função está em crise. Faz parte dos fracassos do patriarcado que criou homens só aparentemente fortes, mas de pouco conteúdo interior, pouca fibra. Porque ter poder pelo fato de ser homem não significa ser uma pessoa de poder, é pura aparência. Na hora H da paternidade é que vemos tantos homens fracassarem, apelarem à mídia e às suas mulheres para saberem se orientar com os filhos, ou voltam a ser crianças e barganham a relação na base de mimo, diversões e às vezes braveza. Pais demais são temidos, não respeitados – porque o respeito se ganha, não se impõe. A quantidade de jovens que não têm perspectivas para o futuro, não sabem o que fazer, e não possuem valores que lhes dêem o norte mostra o buraco odierno da figura paterna na psique desses garotos e dessas garotas.

Parafraseando Simone de Beauvoir, ser pai não se nasce, a pessoa há de tornar-se, de conquistar esse lugar.

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