04/10/10

O que é inteligência

Adriana Tanese Nogueira

A palavra inteligência vem do latim “intelligentia”, que por sua vez nasce do verbo “intelligere”, formado por “inter” = “tra” e “legere” = ler, captar, “sacar” e também “ligar”. Então, inteligência é a capacidade de ler por entre as linhas e de interligar idéias não explicitamente relacionadas. A pessoa inteligente colhe os pensamentos, é capaz de raciocínios abstratos, sabe planejar e criar estratégias.

É importante estabelecer logo uma diferença entre esperteza e inteligência. Usa-se muito o termo “esperto” para designar pessoas que encontram soluções e saídas de situações espinhosas, ou que sacam respostas com rapidez. A raíz de ambas as atitudes está na curiosidade inicial da vida, no espírito vivo que caracteriza tantas crianças pequenas. É do ser humano querer saber e é também dele ter que encontram soluções para sua sobrevivência.

Contudo, sem o mundo do conhecimento, das idéias amplas e das relações universais entre conceitos, esse espírito vivo e curioso se resume à astúcia de “salvar a pele”. Podemos definir o esperto como aquela pessoa que tem inteligência prática e cuja referência é seu ego (ou seu umbigo) o que o leva a buscar simplesmente responder às perguntas: como ganhar vantagem? como superar um obstáculo se dando bem e obtendo o que se quer? Questões de ordem moral, de ética, civilidade e sociedade são por princípio excluídas. Na esperteza assim entendida há espaço somente para o “meu interesse”, ou no máximo o “nosso”. Na vida diária a esperteza é essencial para a sobrevivência, mas deixada a si só ela se transforma facilmente em “malandragem”.

Inteligência também não é conhecimento, no sentido de saber muitas coisas. Para isso basta ter uma boa memória. Ir à faculdade não é sinônimo de inteligência. Ingurgitar textos para fazer provas não necessita sequer de esperteza, mas da determinação para passar o teste. Não é lendo livros que se adquire inteligência. Apesar de ser importante não é suficiente.

Nascemos todos com um belo corpo, esbelto a saudável, pronto para o uso. Se, ao invés de exercitá-lo, o deixarmos mofando na frente de uma TV ou jogando joguinhos tolos, aquela agradável forma inicial vai se deformando, e logo temos as crianças obesas, preguiçosas e malandras que encontram por aí. Com a inteligência acontece o mesmo. O potencial está lá, bonito e lustro, precisa ser exercitado, treinado e aprimorado para obtermos aquela maravilhosa capacidade de elevar-se acima da gravidade do dia-a-dia e construir pensamentos universais, tão elegantes quanto significativos. As piroetas e acrobacias que vemos uma habilidosa ginasta executar são fruto de anos de treinamento feito com dedicação e seriedade. O mesmo vale para a inteligência.

O exercício para fortalecer a inteligência é o estudo crítico e o pensamento reflexivo. Por estudo crítico entendo aquela forma de estudar que não se limita a absorver informações mas que as religa, elabora, repensa, aprofunda e questiona. Pensamento reflexivo corresponde à capacidade de pensar o próprio pensado, isto é de questionar o pensamento e refletir sobre ele sem tomar por óbvio o que vem. O pensamento reflexivo é dialético e questionador, mas não por espírito de revolta e por estar animado pela vontade de saber, de enteder “de verdade”, de penetrar sempre mais fundo.

A inteligência necessita de muitas e variadas leituras, de espírito investigador, de amor pelo conhecimento, de prazer pelo pensar e comprender, e de honestidade intellectual. Esta permite perceber o preconceito e desconstrui-lo (pois até do preconceito é possível obter interessante conhecimento). Cada novo texto ou nova situação de vida coloca a pessoa inteligente à frente de onde estava antes.

Conforme as análises feitas por Jung em “Tipos Psicológicos”, a função Pensamento (da qual deriva a inteligência de que estamos falando) pode estar em sua forma desenvolvida ou primitiva, dependendo da personalidade da pessoa e do treino que ela tem. Para reconhecer em que estágio ela está, basta observar seus frutos. Se seus raciocínios terminam sempre no mesmo ponto, se vira e mexe o que ela ler ou supostamente aprende “confirma” o que ela já sabia, a convicção que ela já havia formulado, seu pensamento é subdesenvolvido. É como uma pessoa que em qualquer coisa coma encontre sempre o antigo e familiar sabor do arroz com feijão.

A inteligência é creativa, de tudo sabe extrair novo conhecimento. Assim como da análise das fezes se produz informações importantes sobre o paciente, a inteligência verdadeira não olha nada com desdém. Pensamento que se preze é um dialogo infinito seja com o real fora de nós que com aquele dentro de nós.

Veja também o meu "Inteligente, não simplesmente esperto".

25 comentários:

  1. legal saber isso sobre a inteligência

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  2. Pois é, é sempre se perguntar o por quê das coisas, e não reproduzi-las meramente.

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  3. Bom otimo texto, mas gostaria de saber de fontes de onde voce tirou a diferença do conceito de inteligencia e esperteza, se voce puder me ajudar agradeço.
    envie-me em ricardw@live.com, mas se não tiver fontes mesmo assim grato, estou numa discução sobre esse assunto e quero argumentar com conceitos e pesquisas as quais não há no meio eletronico,

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  4. Olá Ricardo,

    sinceramente, este conceito eu o tirei de minhas próprias observação e reflexão. Quando eu morava na Itália nunca pensei nesse termos, foi a mudança para o Brasil que me forçou a observar com muita atenção para entender o que é que "está acontecendo aqui". Aí vi o quanto essa diferença é evidente na cultura brasileira.

    Abraços

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  5. Boa noite Adriana! Seu post me ajudou muito no meu trabalho da pós graduação sobre o "conceito de inteligência". Quais as fontes que você consultou além da sua maravilhosa (não estou de ironia não!!!) capacidade de observação do mundo ao seu redor?

    meu email é bio.nathalia@gmail.com
    Também tenho um site e toda semana eu tento postar notícias interessantes. Se você quiser, vale a pena conferir (modéstia a parte!!).

    www.nathyterapias.webs.com

    Grande beijo, Nathy

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  6. Nathy, isso tudo que escrevi sou eu. Minhas sinteses de anos de estudos e de auto-conhecimento, o que me permitiu ter essa " maravilhosa observacao do mundo" a minha volta. :-)
    Abracos e parabens pelo teu site (dei uma olhada nele).
    Adriana

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  7. Brilhante texto! Você demonstrou que se encaixa no conceito de pessoa "inteligente"! hehehehe
    Divido a mesma opinião, só acho que no 5º parágrafo, o termo "joguinhos tolos" deve ser especificado. Porque somente os jogos de proposta simples demais (tolos) freiam o desenvolvimento da inteligência. Muitos jogos modernos envolvem estratégia avançada e podem ser muio bem usados para desenvolver a lógica.
    Maurício Goulart

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  8. Oi Maurício, obrigada.
    Com certeza há jogos que desenvolvem a inteligência... mas eu estou falando daqueles bem tolos mesmo que servem para aprisionar a atenção e alienar a pessoa de si mesma - e da própria inteligência!

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  9. nossa...que maravilha seu texto....é incrivel como entendemos melhor a vida quando passamos por experiencias e tiramos nossas proprias conclusoes dela...amar aquilo q se faz realmente te traz respostas p coisas q vc não teria compreendido se tivesse feito sem querer fazer....AMEI!!!!!!!!......ESPERO TER ME EXPRESSADO BEM....RS

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  10. Obrigada, Sara Lima. Expressou-me com clareza :-)

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  11. Parabéns Pelo Texto Adriana, BRILHANTE!!!!
    Gostaria de saber mais dessa diferença da Itália em relação ao Brasil em sua experiência citada acima.
    Obrigado.

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  12. Oi Deivy, de qual diferença entre Itália e Brasil está falando? Obrigada pelo comentário!

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  13. Parabéns pela clareza e beleza de seu texto!
    A mente humana quebra paradigmas, revoluciona, cresce e atinge alturas impressionantes, que maravilhosa máquina, que design!!!
    abç

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  14. a percepçao eh quanto aos sentidos da pessoa
    *visao paladar olfato tato...
    *o raciocinio e a inteligencia estao ligados
    *o raciocinio eh sua capacidade de usar o q vc já sabe para solucionar os problemas
    *a inteligencia eh sua capacidade de aprender coisas novas e lembrar delas

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  15. Excelente seu texto. Foi do melhor e mais resumido que li até hoje, sobre o que é ser, ou ser-se inteligente, bem como o que é a inteligência Um grande beijão para sua inteligência e um forte e doce beijo para sua pessoa.

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  16. Quero contribuir com estas pérolas. O CONCEITO DE INTELIGÊNCIA.

    A inteligência é um conceito complexo, não sabemos quantos nem exatamente quais são seus conceitos básicos. Conceituar a inteligência significa delimitar suas fronteiras, identificar suas características e diferenciá-las das demais funções mentais envolvidas nos processos cognitivos, como a memória, a atenção (a capacidade de manter ou desviar a atenção), a consciência, a percepção, o juízo, etc.. Além destas, outras funções mentais ainda pouco estudadas também podem estar envolvidas no processo cognitivo, como a auto-eficácia, que na prática influencia o exercício da inteligência, recentemente demonstrado por Ângela Perez (2002). Como ainda não conhecemos todas as fronteiras mentais da inteligência, nem a extensão de cada uma com a inteligência, temos que admitir que o conceito de inteligência na psicologia não está completo.


    O processo de conceituação de inteligência.



    Uma pessoa com uma memória prodigiosa pode ser confundida com uma pessoa inteligente. Se a inteligência é a capacidade de resolver problemas, uma pessoa com boa memória pode se lembrar de como se resolve determinados problemas, e usar a memória para isso, nesse caso não se está criando uma solução, mas recordando-se de uma. É difícil embora possível, isolar o comportamento para obtermos uma resposta pura em psicologia, como é feito em outras ciências.



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  17. O processo de conceituação de inteligência.



    Uma pessoa com uma memória prodigiosa pode ser confundida com uma pessoa inteligente. Se a inteligência é a capacidade de resolver problemas, uma pessoa com boa memória pode se lembrar de como se resolve determinados problemas, e usar a memória para isso, nesse caso não se está criando uma solução, mas recordando-se de uma. É difícil embora possível, isolar o comportamento para obtermos uma resposta pura em psicologia, como é feito em outras ciências.



    A possibilidade filosófica de definir inteligência
.


    Falamos acima de inteligência pura, isso significa que existe uma inteligência misturada? Em outras palavras, há partes, subtipos, categorias de inteligência? Admitir isso é partir do principio de que a inteligência é divisível, se é divisível suas partes são equivalentes? Existe alguma parte mais importante do que outra? As atuais teorias da inteligência falam a respeito de inteligência geral e específica, em cristalizada e fluida. Fala-se em capacidades intelectivas, em habilidades, em dons. Certamente muitas são as atividades mentais envolvidas com a inteligência, mas considerá-las todas como parte da inteligência seria correto? O homem sempre anda vestido, podemos por isso considerar a roupa como parte essencial do homem só porque as roupas sempre estão presentes? A experiência empírica prova relações entre a inteligência geral e capacidades intelectuais como para a matemática. Mas qual o fundamento para se afirmar que por existir uma relação trata-se de uma parte integrante? Com este princípio de raciocínio acaba-se encontrando tantas inteligências quantas capacidades cognitivas, para a área emocional, social, espacial, matemática, verbal, etc.. Quanto mais objetos tentamos juntar ao conceito de inteligência mais complicado este conceito fica, talvez a dificuldade de conceituar a inteligência seja devido à estratégias de conceituação equivocadas, e não somente devido à complexidade do conceito de inteligência. Por que não admitir então que a inteligência seja indivisível, como um bloco único operando na consciência?
Até o momento muitas pesquisas sobre inteligência forma feitas, muitas características foram identificadas pelos vários modelos, que foram cientificamente validados. Talvez agora seja o momento de rever a forma da definição, não a definição em si, mas a maneira como as informações relativas a ela são articuladas, não precisamos mais descobrir novas peças, precisamos saber como elas se encaixam. Acredito que a partir do momento atual não reste muito por descobrir em relação a definição da inteligência, resta convencionar como a inteligência deve ser definida, resta escolher o que é essencial para sua definição e o que é acessório.


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  18. Conclusão
As questões difíceis de serem respondidas muitas vezes são difíceis não por natureza, mas por equívoco. Tentar explicar o que é um círculo quadrado não é difícil, é insensatez porque tal coisa não existe, se não existe não pode ser definida. Querer definir uma cor que é simultaneamente branca e preta é insensato pois o cinza é uma outra cor que não é nem brando nem preto e uma coisa não pode ser duas simultaneamente, uma cor não pode ser ao mesmo tempo branca e preta. Com a inteligência acontece o mesmo, talvez a dificuldade de defini-la não seja por causa de sua natureza complexa mas por causa do modo equivocado como é feito. A inteligência é a aptidão psicológica que permite ao homem abstrair, captar, entender conceitos, a essência das coisas que tomamos consciência. Junto a essa aptidão outras atividades mentais se integram e atuam em conjunto, como as habilidades matemáticas, verbais, emocionais, etc. por exemplo. Tomar a inteligência pelas suas características acessórias talvez seja o erro que impede a realização de uma definição precisa, talvez a tentativa de resumir todas as aptidões relacionadas à inteligência na própria inteligência esteja dificultando o trabalho de explicar a própria inteligência.
    Bibliografia
    • Robert Sternberg. As capacidades intelectuais humanas. Artes Médicas. 1992
    • Jacques Maritain. Introdução geral à filosofia. Agir. 1981
    • Flanagan, Genshaft & Harison. Comtemporaru intellectual assessment. Cap.9. Guilford Press. 1997

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  19. E é por isso que a definição de inteligência é bem complexa e ela pode bem ser o somatório de todas as formas de inteligência mas não só, tendo de incluir algumas das formas de inteligência tais como, cognição ou capacidade de raciocinio, capacidade de interpretação, capacidade de aprendizagem, inteligência linguística, inteligência musical, intelig~encia matemática, inteligência espacial, capacidade de juízo, capacidade de memoria, capacidade de percepção sensorial, inteligência emocional nos afectos e nas emoções, raciocinio pelo bom-senso, e muitas outras mais.

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  20. A inteligencia não se divide, ou seja, não tem dois lados ,mas ela é expansiva ,o que para muitos ela é só para obter conhecimentos bons, na verdade a inteligencia é um sistema dentro de nossa mente aberto para explorar novos desafios ,tantos bons como ruins.Como você mesma sitou com os jogos,Parabéns Adriana pelo seu texto, e fica aqui meu comentário.abraço.

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  21. Inteligente é o ser humano que apesar da vida ser o que é ,conseque vivê-la sem maiores problemas seja no sentido espiritual e no material.

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