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ASSUMIR O RISCO

Adriana Tanese Nogueira



“Quem está na chuva é para se molhar” costuma-se dizer a quem reclama das consequências de suas escolhas. Efetivamente, assumir o que se deseja e arcar com o resultado de uma escolha é um ato de maturidade.

A água que molha, encharca e alaga representa bem a experiência de ter a própria vida apanhada
por algo novo no qual acabmos por mergulhar. Se por um uma tem a beleza da água, com sua suavidade e frescura, por outro ela quando demais a água pesa, sufoca e até mata – representando bem o peso emocional das pertubações da vida e do coração. Rotinas e hábitos mentais permitem manter sob controle os impulsos que poderiam romper o equilíbrio psicológico e gerar confusão e inquietação. Por este motivo, geralmente rechaça-se de princípio toda mudança, mesmo quando racionalmente se sabe ser boa, porque todo cambio traz também desequilíbrio, pelo menos no princípio. Aí, acontece da pessoa adiar os planos e inventar desculpas para evitar uma escolha incômoda.
Muitas vezes, os piores riscos, representados pela água, não coincidem tanto com as consequências concretas como com as emocionais. Que tipo de tempestades enfrentaremos? São elas que tornam as soluções práticas complicadas, são elas que borram a visão e impedem de enxergar com clareza e agir com prontidão. Agimos de forma efetiva somente quando temos equilíbrio emocional. 

O grande salto no caminho da libertação e autorealização é aceitar “se molhar”, ou seja aceitar passar pelas tempestades. Dizer sim ao que der e vier, acreditando que será suportável e que se não for poderemos procurar ajuda para nos fortalecer. Os riscos parecem sempre menores quando resolvemos a dar os passos que sabemos serem necessários.

Um caso exemplifica bem este processo. Lorena é uma moça que, logo no começo da terapia, sonha que encontra no caminho poças de água que ela cuidadosamente evita. Descobre que há encanações furadas de onde a água desce mas não quer averiguar.
Qual é sua realidade? Lorena é um mulher de uns trinta anos e pouco, trabalha num um negócio de família e com uma forte relação com o pai, tanto é que se identificou bastante com meu artigo “Filhinhas de papai”, sobre mulheres com complexo paterno positivo. Este dado é importante porque a intimidade psicológica com a figura paterna tem o efeito de fomentar o medo de, metaforicamente, “se molhar”. O princípio masculino é racional, “enxuto”, “seco”, aquele feminino é “úmido”, “molhado”.

Lorena é sonhadora romântica. Ela está apaixonada e deseja possuir o objeto de seus sonhos mas teme ser engolida por uma realidade complicada, cujo desfecho é imprevisível e cujo caminho é desconhecido. Ela, no fundo, não se entrega. Habituada a ser uma “boa menina”, apesar de ser aparentemente rebelde, Lorena vive dividida entre assumir o chamado do coração ou manter-se agarrada ao modelo tradicional dos caminhos seguros e garantidos.

Tomada nessa encruzilhada, Lorena segue a terapia e começa a enxergar novas perspectivas, ampliando seu entedimento da realidade. Finalmente, desenvolve a maturidade suficiente para tomar uma decisão e fazer sua escolha. Ela diz não ao que é tradicionalmente considerado “melhor”, mas que deixa seu coração entediado e indiferente, e vai ao encontro do misterioso chamado que borbulha em sua alma.

Naquela noite ela sonha: “Sonhei que saia para caminhar. Mesmo sabendo que iria chover, eu decido ir. Tomo uma chuva daquelas... Acordo com uma sensação de alma lavada.”

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