15/11/10

Como cuidar de nossa criança interior

Adriana Tanese Nogueira

Considero a psique um teatro onde muitas peças acontecem, algumas ao mesmo tempo, outra no decorrer do tempo. Esta idéia não implica em ser falsos, como atores que fazem uma parte e não representam a si mesmos, e sim na idéia de que há histórias se desenrolando no interior de nós mesmos, o conjunto total das quais somos nós. Algumas delas começaram lá no antigo passado e se repetem, como num disco quebrado, envolvendo situações presentes. Outra forma de ver esta situação é imaginar aquelas histórias como encantamentos que "hipnotizam"as  experiências do presente e as tornam iguais as do passado. Assim, parece que nunca se sai da peça, mudam os atores mas os personagens são os mesmos.

Uma dessas histórias chama-se "Infância". É a narração de uma criança e de sua vida. Sobretudo no que diz respeito a esta fase parece que os eventos ecoam dentro da mente, como perguntas que não encontram respostas, ou como chamados que se tornam barulho de fundo ao qual não se presta mais atenção. Mas a história está lá e um dia se percebe que é preciso recuperar algo, uma peça que falta para continuar a construir o quebra-cabeça do presente.

Como se resgata a criança interior? Em primeiro lugar, resgatando nosso ser criança, a criança que éramos. Como se cuida da criança interior? Simplesmente aprendendo a cuidar daquela criança que éramos. Isso é tão simples quanto pode ser doloroso. Não há segredos, mas coragem e honestidade.

É preciso voltar lá no passado, o que se faz se reconectando conscientemente àquela história que aparentemente deixamos para trás. Quando estivermos lá, deve-se abrir os poros e sentir em toda verdade e profundidade, e permanecer ou voltar lá até sentir tudo. É preciso voltar na memória e nos permitirmos sentir o que sentíamos mas não sabíamos que sentíamos. Hoje, com os olhos e maturidade que possuímos podemos entender muitas das dúvidas e perplexidade daquela criança que éramos. Mesmo que não tenhamos respostas, cuidamos daquela criança acolhendo-a. Até não conseguirmos identificar nossa criança interior (a que éramos), ela estará agindo em nossas vidas mesclada às outras histórias que tecemos, interferindo com nosso presente.

Nenhuma infância é perfeita. Nenhuma mãe ou pai consegue dar conta de todas as necessidades psico-emocionais e materiais de um filho. Mas isso o sabemos hoje, do ponto de vista da criança há coisas que faltaram e que pesaram enormemente, deixando uma marca indelével na formação da personalidade e do caráter. Se quisermos cuidar da criança interior é preciso deixá-la falar: ela deve ter a chance (que nunca teve na vida) de desabafar, do jeito dela, no estilo de criança, sem as boas maneiras adultas, sem os medos e sentimentos de culpa adultos (ou adolescencias).

O que faríamos com uma criança encontrada na rua com a qual nos sensibilizamos e que assumimos sob os nossos cuidados? Vamos querer saber sua história, ouvi-la generosamente, sem querer impor "regras". Acolher começa assim: permitindo uma fala difícil de se fazer e difícil de se ouvir. Prestando atenção ao lamento, à dor, à agonia. Sem culpas, sem querer salvar a cara de ninguém. O desabafo libre por si só já alivia.

Quando nosso ser criança libertou-se do fardo e encontrou acolhida e amor incondicional, nos aproximamos da Criança Interior, porque libertamos nossa criança dos fardos e das penas que lhe tiraram a leveza do arquétipo da Criança Interior. Esta fonte de energia psíquica está relacionada com o jogo e a renovação, com a curiosidade e o surpreender-se, com a capacidade de começar de novo e rir à tóa. Quando reconectamos com esta fonte de vida, as dores do passado finalmente parecem pertencer a um longíquo passado que não mais nos afeta tanto assim.

Toda criança nasce com esse potencial. É a vida que leva que a aprisiona e, eventualmente, lhe tira a alegria e criatividade. A parte de nós que tem acesso a essa fonte é a criança que fomos. É este o motivo pelo qual, vale a pena assistir aquela peça interna que ainda está passando, mas desta vez assisti-la com consciência, senti-la em profundidade e com a força moral do adulto de hoje (que supostamente somos e temos) acolhê-la, aceitá-la e embalá-la. Crianças precisam de colo. Sabemo renovera-se sozinahs, basta que lhes damos apoios. Nessa relação de compreensão impiedosa e de amor incondicional (pela criança que fomos) é que se transmuta a dor e se liberta o menino ou a menina que nos levaram à Criança Interior.

4 comentários:

  1. Bem interessante esse post!

    Acho louco essa idéia de que a maior parte de nossa personalidade é definida na infância justamente no nosso momento de maior fragilidade.

    Ou seja, não escolhemos quem somos.

    Abraços!

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    1. Escolhemos quem somos também, não é determinismo esse. Mas para escolher TEMOS QUE TER CONSCIÊNCIA do que nos limita :-)

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  2. Doutora, sou muito seu fã. Suas matérias são esclarecedoras e isso tem me auxiliado quando estou com alguma dúvida.
    Retornei a psicoterapia com o propósito de uma vez por todas desabafar tudo que tenho aqui dentro inclusive aquela criança q vivi aqui até hoje.
    Abs

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  3. Fico contente :-) Bom trabalho com sua criança interior.

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