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Jung, a pequena Anna e a reencarnação

Adriana Tanese Nogueira

Em “Conflitos psíquicos em uma criança” de 1909, Jung relata o caso de Anna, uma menina de três anos, que ele descreve como saudável, de temperamento emocional e intelecto vivaz.

Um dia, Anna tem a seguinte conversa com sua avó:

“Vovó, por que os teus olhos são tão apagados?”
“Porque sou velha.”
“Mas você vai ficar jovem novamente?”
“Oh, querida, não. Eu vou ficar sempre mais velha e no final morrer.”
“E depois o que vai acontecer?”
“Depois serei um anjo.”
“E aí você vai virar bebê de novo?”

Anna, diz Jung, esteve, na época desta conversa, investigando de onde vêm as crianças. Foi-lhe contado que elas são anjinhos que vivem no céu e são trazidas para terra pela cegonha. A partir desse “conhecimento”, Anna, aparentemente teria aplicado a teoria de forma mais ampla.

A interpretação que Jung dá do raciocínio de Anna é que ela estaria encontrando uma solução ao problema da morte, pois, diz ele: “isto estaria de forma reconfortante, não somente resolvendo o doroloroso pensamento da morte, como ao mesmo tempo resolvendo o enigma a respeito de onde vêm as crianças.” (Conflitos psíquicos em uma criança, in: Psychology and Education, Bollingen Series, Princeton University Press, 1971, p. 9)

Tenho alguns pensamentos a respeito dessa interpretação. Ela parte de dois pressupostos  dados como adquiridos que bem poderiam ser pré-concepções que necessitam de revisão crítica. A primeira pressuposição sustenta que a menina estaria querendo resolver o “doloroso” problema da morte. Que ela sinta a morte como “dolorosa” não está demonstrado e pode facilmente ser questionado se somente olharmos para nossa própria experiência. Por um longo tempo, a morte simplesmente não existe. Todo jovem sente a vida como eterna e infinita. Por que uma criança associaria à palavra “morte” ao sentimento de “dor”? Somente no caso em que ela a tivesse experimentado, tendo perdido alguém querido. Mas Anna nunca perdeu ninguém. Em seu texto, Jung não comenta a respeito disso, mas o podemos deduzir uma vez que tomamos conhecimento que Anna era sua filha. Em 1909, nenhum parente de Anna, seja do lado do pai que da mãe, havia morrido. Portanto, a conversa de Anna bem poderia ser lida como sua busca por uma compreensão orgânica do ciclo da vida.

É verdade, como diz Jung, que, em seu esforço intelectual, Anna faz uso das informações que recebeu. Mas o que sabemos da compreensão das crianças, do que elas percebem da vida e de suas realidades? O fato de sua linguagem estar inevitavelmente reduzida no vocabulário e nos conceitos não necessariamente coincide com o sentimento que elas poderiam estar tendo da vida. Assin, quando Anna usa as informações sobre nascimento para expressar a idéia da volta das pessoas à terra (que chamamos de reincanação) não está pressuposto inevitavelmente que ela esteja misturando as coisas. Anna, poderia, ao contrário, estar tentando expressar sua visão com os meios racionais à disposição. Parece-me, muitas vezes, que as crianças tentem se comunicar conosco numa língua na qual não são fluentes.

Se, então, a de Anna não é uma racionalização da idéia da morte, porque ela não possui nenhuma experiência dolorosa a respeito, seu raciocínio poderia estaria testemunhando à crença de que a vida continua. O núcleo de sua idéia não seria “resolver o problema da morte”, mas explicar como, de qual forma e por qual meios, passamos de uma dimensão para a outra.

Comentários

  1. Adorei o seu blog. Linguagem direta e clara. Permita-me uma correção, smj: é "reencarnação" e não reincarnação.

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  2. Obrigada pela correção, "Mi". Tenho três línguas na cabeça e nem sempre saem na ortografia certa :-)

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