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O que tem para o almoço? Medo, dor e amoniaca

Adriana Tanese Nogueira

É de conhecimento geral que a alimentação atual não é das melhores, sabe-se que os agrotóxicos são simplesmente venenosos e que os animais que comemos são bombeados de antibióticos e hormônios. Mas é difícil imaginar até que ponto chegamos. Para ter uma noção da realidade capitalista selvagem na qual vivemos basta assistir ao filme Food, Inc. É preciso ter sangue frio para ver este documentário, mas quem quer cuidar de seu estômago deve ter estômago para vê-lo.

O filme expõe o sistema alimentar industrial americano e seus efeitos sobre o ambiente, a saúde, a economica e os direitos dos trabalhadores. Sendo os Estados Unidos modelo mundial de referência para os países desenvolvidos e em via de desenvolvimento, tomar conhecimento do custo que tem a alimentação que encontramos nos EUA como no Brasil é de interesse coletivo.

Não existe comida barata. A comida rápida e pronta, que não dá trabalho para fazer porque está pronta fácil de comprar e de consumir, contrapõem-se aos produtos orgânicos e locais. O fast food é o alimento mais barato. Nos EUA, encontra-se um hamburger em qualquer uma das cadeias de fast food (tipo Mac Donald’s) por US$ 0.99. Um brócolis custa pelo menos US$ 1,29. Uma garrafa de refrigerante de 3 litros está na faixa de US$ 1.50, o valor de uma garrafa pequena de água. O que compramos a baixo preço em supermercados e lanchonetes têm um custo altissimo em termos de meio ambiente e saúde (a nossa).

Os chamados “hamburgers” passam por uma série de procedimentos químicos que terminam com uma lavagem com amoniaca para desinfetá-los. Esta prática advém de várias causas, uma delas é a alimentação de bois e vacas e as alterações biológicas internas ao organismo do animal que provocam o surgimento de bactérias que podem ser letais. O filme cita o caso de um menino de 2 anos e meio anos que morreu em 12 dias por ter comido 3 hamburgers. A mãe está, há anos, tentando fazer passar uma lei (Kevin’s Law) que exige um tipo de supervisão sobre a alimentação do animal.

Enquanto isso, a FDA (Food and Drug Administration), agência do governo que deveria controlar o que sai no mercado, tem diminuído de cerca 70% sua presença ativa na industria alimentícia aparentemente porque os donos e diretores das corporações são muitas vezes os mesmos indivíduos que se sentam nos escritórios da diretoria da FDA ou do próprio governo (republicano ou democrático que seja).

A parte mais difícil de assistir é o tratamento dado aos animais. As galinhas vivem em espaços miseráveis, os poucos passos que dão são sobre seus próprios excrementos e mal conseguem se loco mover porque seus peitos enormes pendem para frente e as fazem cair. Nunca entendi porque as pessoas gostam tanto de carne branca, mas para satisfazê-las, as aves foram alteradas geneticamente e hoje desenvolver petorais desproporcionais. As vacas, por sua vez, vivem amontoadas em recintos tão pequenos que precisam manter a cabeça levantada para respirar. A alternativa a isso são cubiculos nos quais ficam paradas o dia todo, com dez centimetro de espaço de cada lado. O animal não pode se deitar ou se mexer, sua cabeça fica presa na frente de uma manjedoura (onde são alimentados com milho no lugar de grama, porque o milho é mais barato). Os porcos são abatidos violentementes após terem atravessado um corredor aterrorizante. Foi nesta cena que meu coração pediu arrego.

Além de antibióticos, hormônios e péssima alimentação, os animais que comemos vivem em condições de objetos, mera carne para o corte. Sua curta vida se passa na base de sustos e comida, medo e comida, dor e comida, e finalmente o choque final. Nenhuma consideração é reservada ao bicho, nem em nome de uma carne de qualidade. Quando comemos esta carne, não são só as proteínas que ingerimos mas a emoções do animal somatizadas nas reações químicas hormonais que ele produziu em sua vida infeliz.

O que podemos fazer? Podemos votar. Cada vez que se passa um produto por um caixa de super Mercado estamos votando.

Vote, portanto, por aquelas empresas que:
- tratam o meio ambiente com respeito
- tratam seus trabalhadores com respeito
- tratam os animais com respeito

E que as outras se afoguem na poluição ambiental, social e psicológica que produziram.

No Youtube se encontra o filme inteiro dividido em 10 partes e legendadas em português, a legenda porém não está na tela do filme, mas no espaço abaixo: Alimentos, S.A

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