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A matéria escura dos grupos


Adriana Tanese Nogueira

A despeito do capitalismo e de sua ênfase nos direitos e nas liberdades individuais, uma curiosa compensação ocorre todos os dias, isto é a valorização do trabalho de grupo. Ser capaz de ser um bom jogador de time parece ser uma das chaves do sucesso. Esportes e trabalhos de grupo são apreciados por pais pela união e responsabilidade que promovem entre os jovens.

Entretanto, quando nas relações pecam em sua essência de honestidade e consciência, a ideologia do trabalho de grupo encobre nada menos que o estrangulamento da unicidade individual. Grupos frequentemente não são ambientes onde reina a democracia e a liberdade de expressão como se desejaria, mas comunidades ditatoriais onde a lei do mais forte é a regra.
Os líderes dos grupos comumente ou são aqueles de que fato têm o poder, como em empresas e na academia, ou aqueles que melhor encarnam os estereótipos soberanos que governam os círculos juvenis, musicais, da moda ou de celebridades. Nenhum espaço é permitido à verdadeira originalidade. Inveja, competição ou simples maldade mantêm o status do grupo e lhe dão seu rítmo.

O pesadêlo que esta situação engendra numa mente brilhante é bem contado no filme de 2008 Dark Matter. A película, baseada aproxidamente numa história verdadeira, apresenta a experiência de um estudante chinês de cosmologia que vai aos EUA para realizar seu doutorado sob a direção de um de seus cientistas heróis.

Humilde apesar de ansioso para alcançar seu sonhado Prêmio Nobel, o protagonista foca seus dias e noites no assunto que mais o fascina, a matéria escura. Finalmente, ele faz uma grande descoberta, cuja única falha é a de superar o alcance da teoria de seu professor. A reação a este passo ousado dado por um jovem desconhecido e ingênuo é imediata. O professor cientista sabota o caminho do rapaz para o doutorado e o deixa num impasse.

Divergindo sua atenção do jovem desafiador, o professor dedica agora seu interesse a outro estudante chinês que assumiu o estilo americano e as “regras” acadêmicas. Ele se veste, fala e se comporta como esperado, ele até mudou seu nome para um americano e, sobretudo, ele se atém à teoria do professor. Desta forma, ele é bem vindo no time. Aderindo à mediocridade, o estudante conformista abdica de sua individualidade e faz o jogo. Enquanto isso, seu talentoso antigo amigo é deixado de fora e para trás. Seu gênio ignorado, pois, como disse o professor, ele não é um bom “jogador de time”.

O problema é que quando se lida com pessoas altamente inteligentes e de coração singelo, as consequências são muito piores do imaginável. O brilhante mas desesperado jovem pega uma arma e atira no colega, assim como no professor e nos outros dois membros da comissão. E tira a própria vida.

Moral da história: há trabalhos de grupo e atividades de times onde só a mediocridade se sente à vontade. Saber estar em grupo não significa necessáriamente ser bacana, muitas vezes é sinônimo de pura falta de coragem para assumir-se.

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