19/12/2010

O amor que não se pode dar


Adriana Tanese Nogueira

Amar nem sempre é possível ou correto. Manifestar ativamente um comportamento amoroso pode ser errado, não importa o que ideais e coração digam. Esta constatação vale para todo tipo de relação que envolve aquele sentimento chamado “amor”.

Uma mãe pode se ver na necessidade de não arrumar mais o quarto do filho, de não cuidar de sua comida e segurar o carinho que gostaria de expressar. Um amante pode ter que deixar a pessoa amada, e um irmão afastar-se do irmão. O sorriso pode ter que se engolido e a mão retirada. A vontade de dar, de abrir os braços e ajudar pode precisar ser contida, calada e ignorada. Por que?

Porque o amor exige reciprocidade. Quando o que se dá não encontra eco da parte de quem recebe, o dar é fora de lugar e continuar a oferecer se torna um ato neurótico. Ela está lutando contra o reconhecimento do que é.

Há momentos em que ser mãe é deixar de dar ao filho o que por anos foi o cerne dos cuidados maternos. As mães podem reconhecer este momento pelo cansaço que sentem. O amante sente quando é hora de ir embora quando o vazio se torna insuportável. E o amigo dá adeus ao companheiro ao perceber que por vezes demais os fatos não rimam com as palavras. Como um terreno que dá abundante colheita mas não é nutrido chega a secar, assim o doador de amor, achando que está fazendo uma coisa bonita, continua a agir conforme seus sentimentos até encontrar-se seco e cansado.

Se amar é uma função de ligação, ela só pode funcionar quando há autosustentabilidade. Amor é um processo psíquico que se autoalimenta pelas ações das partes envolvidas. A ação habitual é ativa e positiva, o dar. Se ela não estiver surtindo efeitos, é preciso passar à sua forma negativa e passiva, o retirar, ausentar-se, silenciar e afastar-se. Somente desta forma se preserva o equilíbrio psicológico.

Inevitavelmente, a tristeza é sua consequência. Deixar de expressar o carinho que se sente ou até virar-lhe as costas é doloroso para quem tem sentimentos. Entretanto, é o único caminho sustentável do ponto de vista psicológico.

Amadurecer passa por reconhecer o que é. Aceitar a realidade exposta a cada minuto de que o amigo, o filho, o amante, o irmão não retornam o amor que recebem implica para a pessoa consciente parar de jogar pérolas aos porcos. E, assim fazendo, oferecer um último gesto de amor, o de criar o vazio para permitir que no outro o sentimento possa crescer e florescer.

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