05/12/10

Pinóquio: como tornar-se humano


Adriana Tanese Nogueira

Entre outros significados da história de Pinóquio há um de extrema importância para o processo de individuação do sujeito humano, ou seja, para a passagem da identidade coletiva para a individual, original e precisamente única.

A identidade coletiva é o conjunto de formas de pensar, de interpretar o mundo e a si mesmo, de abordar o que se sente, de relacionar-se com os outros e o parceiro, de entender a vida enfim que o grupo e a sociedade como um todo injetam no indivíduo a partir do momento em que ele nasce. Ao interpretar o choro do bebê segundo padrões dados está-se estereotipando o bebê.
Ao dar a um filho o que supostamente “toda criança gosta” o estamos colocando num lugar comum. Ao vestir a menina de “bonequinha” e o menino de “moleque” tiramo-lhes suas individualidades e os achatamos num padrão comum. E assim em diante até a velhice é um constante reconduzir toda manifestação pessoal a um punhado de modelos coletivos dados (e convenientes).

Lá vem a crítica: mas a pessoa gosta, a criança aceita, o outro se reconhece… Sim, eles adoram assim como Pinóquio amou encontrar o Gato e a Raposa. Olhando de fora e de longe para esta história infantil, podemos pensar: que bobinho…  Pois é isso que Pinóquio é, um “bobinho” e é tal porque é um boneco.

É da “natureza” do ser boneco ser manipulável, é para isso que ele serve. Bonecos devem poder ser pegos nas mãos e usados para uma variedade de jogos e brincadeiras, personagens e fingimentos. Quem decide o que fazer dele são os criadores do jogo.

Bonecos seguem o que outros decidem por eles, e, como Pinóquio, se encantam com qualquer sonho cintilante lhes é ofertado pelos conselhos espertos de quem tem outros fins. Não é este mesmo encantamento que vemos nos olhos de crianças quando sonham com seus presentes? Não é esse mesmo enaltecimento que a mulher e o homem sentem quando se percebem próximos de ideais aprovados pelo colletivo? Que sejam músculo e corpo fino ou um lugar de poder no trabalho, ou simplesmente os amigos que se têm não importa, desde que seja um valor coletivo (e quem não conseguir fazer este jogo, está fora e se sente um peixe fora d’água).
E é assim que Pinóquio sai pelo mundo afora acolhido e apoiado pelos seus pares. Alegremente, ele se entrega ao que é vendido como bom (hoje em dia, os vendedores são: pais, professores, amigos, TV, Internet, música, etc.). Confunde-se com a massa e está feliz assim, no abraço de amigos e balas.

Sabemos que as coisas na vida não são bem assim, logo ocorre algo que sacode a pessoa de sua hipnóse. Diferentemente de Pinóquio, a maioria das pessoas não possuem nem um pai preocupado que vai atrás do filho nem uma fada madrinha. E o pequeno grilo com seus conselhos contra corrente foi calado e recalcado desde a mais tenra infância, ainda na casa dos pais quando certas coisas não podiam ser ditas, e nem pensadas.

Mas a história de Pinóquio está a nos lembrar que só se deixa de ser bonecos quando se passa a pensar com a própria cabeça. Uma pessoa para de ser presas de estereótipos e modelos externos quando passa a prestar atenção à própria consciência. Pinóquio conta a transição de comportamentos inconscientes, facilmente hipnotizáveis pelas luzes faiscantes de miragens douradas, à consciência, que é a marca do ser humano, e que lida a comportamentos responsáveis.

PS. A dica para compreender a história de Pinóquio foi me dada anos atrás por meu analista e supervisor Mario Mencarini.

8 comentários:

  1. Adriana:

    Gostei da postagem.

    Dúvida: Crianças pequenas não têm autonomia para escolher suas roupas, então seus pais escolhem até que elas possam fazê-lo. Não parece algo ruim em si mesmo. Você está falando de pais que não cultivam a autonomia dos filhos?

    * * *

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  2. Verdade, não é ruim os pais escolherem as roupas dos filhos... e muitas outras coisas. Eles precisam é saber prestar atenção na criança e em sua personalidade tentando combinar seu bom senso com o estilo da criança.

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  3. Bravo Adorei seu artigo - estou organizando uma montagem sobre o tema, e vc elucidou muitas coisas legais, parabéns...

    www.artevidateatro.blogspot.com

    Paulo Evandro Costa Diretor de Teatro e Professor
    Rosário do Sul - RS

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  4. Obrigada, Paulo!
    Dei uma olhada no seu blog, bem interessante, parabens a vcs tambem!

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  5. Sobre as roupas, acho que é também criar os filhos dentro de uma gama maior de opções para que eles próprios tenham a oportunidade de experimentar, formar seu catálogo e ir escolhendo quando tiverem idade para tal. Assim como se faz com alimentos quando incentivamos que provem de tudo um pouco. A vontade dos filhos conta e penso também que como pais devemos provê-los de oportunidades. Até porque senão eles vão ficar a base de achocolatado e vestindo só aquela blusa do homem-aranha que eles tanto adoram :) Isso vale é claro para qualquer outra área da vida.

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  6. Ju, é preciso encontrar um equilíbrio entre oportunidades e maturidade para saber escolher. A coisa mais importante, hoje em dia, é estimular o senso crítico, a reflexão individual levando em consideração que vivemos num mundo onde a mídia exerce um papel poderoso sobre as "escolhas" e "gostos" das crianças. Cabe aos pais equilibrar a presença da mídia com atitudes e reflexões que promovam a liberdade da criança dos estereótipos, seja eles os achocolatados que as fantasias dos homens-aranha da vida.

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  7. Concordo e assino embaixo. Essas propagandas para crianças, ou para adultos mas usando crianças, são perniciosas, deviam ser proibidas. Tornar-se um indivíduo é tarefa cada vez mais árdua. E aí é que está né. É "tornar-se" e não "ser tornado". É tão fácil se deixar levar pelo que está a nossa volta, é mais abundante. Às vezes acho que como mãe estou nadando contra corrente e cansa. Mas como 'água mole em pedra dura' acho que tem dado certo. Noto que minha filha de 10 anos tem feito questionamentos muito próprios. Tem feito não, sempre fez. Acho que toda criança faz, nós é que matamos essa curiosidade delas de irem além do óbvio, ou nós paramos de ouvir e elas desistem de continuar falando. É triste ver crianças tendo que lutar contra tanta má influência, sexualização, banalização de valores éticos e por aí vai, quando muitas vezes nem os adultos conseguem lidar com tudo isso. Mas de fato, é mais fácil incentivá-las a terem senso crítico do que ficar lutando contra o resto do mundo.

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  8. É isso aí, Ju. O mundo de hoje é como a selva de ontem. É cruel e impiedosa. Gostaríamos de dar mais e melhor para nossos filhos, não vê-los às presas com um sistema vulgar, superficial e estupidificador. Mas é o que temos, pegar ou deixar. Então, instrumentalizemos nossos filhos, equipamo-os com meios para lidar com essa selva: senso crítico e conhecimento. Essas são as armas. Consciência, outra arma.

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