09/03/2015

PELO SAUDÁVEL DESENVOLVIMENTO PSICO-SOCIAL DA CRIANÇA

Posto que temos garantido as necessidades básicas de sobrevivência - um teto, comida e proteção - quais são os requisitos mínimos para a criança crescer feliz?

Tempo
Crianças precisam de tempo: tempo desvinculado do relógio. Do ponto de vista do adulto, este tempo se chamaria "lazer", "fazer nada",  “preguiça”, dependendo da mentalidade. Do ponto de vista da criança, este é o tempo no qual ela está seguindo os processos e os desdobramentos de sua alma. Neste espaço imaginário, a criança se descobre e se experimenta. Este é o jeito dela se centrar, se conhecer e, consequentemente, encontrar seu caminho no mundo.

Contenção
A casa e a proteção física simbolizam o ambiente cultural e espiritual de acolhimento e aceitação, unidos a regras. Há de haver limites, que são como as fronteiras de um país: a criança precisa sentir até onde é seguro ela se mexer livremente, seguindo suas fantasias e espontaneidade. Ela necessita perceber que algo e alguém a contém (limita) ao mesmo tempo em que se sente abraçada (contida).

Liberdade
A liberdade da qual a criança precisa vem da permissão para seguir os movimentos de sua alma sem se sentir errada, culpada e, sobretudo, envergonhada. Não é possível proibir uma criança de gostar de movimento ou de paz, de atenção ou de independência, mas é possível e fácil fazê-la se sentir envergonhada de si mesma. Liberdade, então, correponde à ausência de julgamento moral e ao acolhimento da personalidade da criança.

Intimidade
Não basta providenciar cuidados, regras, tolerância e atividades educativas e divertidas. É necessário vivenciar o calor humano, a confiança gerada por olhares, a presença, estar atentos e emocionalmente disponíveis, sendo flexíveis para fazer espaço a novas exigências. A profunda e nutritiva experiência do amor só é possível na intimidade de duas pessoas. A relação pais-filhos deve ser portanto individualizada e especial: em cada fase, com cada filho e para cada mãe e pai.

Feminino e masculino
O desenvolvimento saudável é aquele que permite o desabrochar reflexivo e crítico das diversas facetas da personalidade de uma criança. É "reflexivo" e "crítico" porque não basta deixar crescer. Como as plantas que dão fruto, é preciso saber podar no lugar e no tempo certos para promover a abundância dos frutos. Em função disso, a criança precisa conviver com o elemento masculino e o feminino em igual proporção. O contato com a dimensão masculina lhe permite a experiência do pensamento, da visão, da racionalidade, das regras, do social, da realização e dos desafios; pelo contato com a dimensão feminina, a criança experimenta a aceitação, a tolerância, a intimidade, o carinho, a exceção, a flexibilidade, a intuição e o sentimento. Da união do masculino com o feminino nasce um fruto, fisicamente é o filho; psicologicamente, este fruto se chama criatividade e realização pessoal. Masculino e feminino não se identificam com homens e mulheres, mas com funções psicológicas, que todos podem aprimorar.
O que os pais estão dispostos a sacrificar pelos filhos?
Esta é a pergunta de um milhão de dólares, o teste dos testes.
- Para que os filhos cresçam de forma saudável pode ser preciso sacrificar o casamento. Se ele não for bom, é responsabilidade do genitor mais consciente tomar uma atitude, se não em nome da própria felicidade, pelo menos em nome dos filhos.
- Pode ser preciso sacrificar expectativas e projeções que nada ou pouco têm a ver com a personalidade do filho.
- Pode ser necessário sacrificar o medo; o medo de mudar, de pensar, de sentir, de crescer.
- Pode ser preciso abrir mão de projetos, adiar trabalhos e estudos.
- Pode-se ter que aceitar um nível econômico mais simples para oferecer mais qualidade humana para o próprio filho.


Sim, ter filhos é um sacrifício que vai muito além do monetário. Entretanto, é preciso lembrar que a radical reviravolta que um filho pode gerar dura um tempo limitado, mas é um tempo decisivo. Há atitudes e escolhas que só podem ser tomadas nos primeiros anos de vida, depois será tarde demais. Não se trata de idealizar maternidade e paternidade, e sim de reconhecer as prioridades e aceitar as consequências das escolhas que em sã consciência se sabe devem ser feitas.O ganho será pelo resto da vida.

Adriana Tanese Nogueira, psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org e http://www.atnhumanize.com/

6 comentários:

  1. Oi, Adriana.
    Gostei muito do texto! Acho que é uma reflexão que todas as mães e pais deveriam fazer, contantemente.

    Aproveito para recomendar um livro que fala do desenvolvimento interior da criança a partir do seu desenvolvimento psico-motor, e explica muito claramente como pais e responsáveis podem se relacionar com suas crianças dando-lhes plenas condições de desenvolver-se integral e individualmente.
    "O Despertar de seu Filho, de Chantal de Truchis-Leneveu (Ed. Paulus)"

    Vale a leitura!

    Bjo,
    Monica

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  2. Olá Monica,

    obrigada pela indicação do livro, fica como dica para todos. Considero o tema essencial, fundamental. O sofrimento das crianças vai muito além daquilo que os pais acreditam, e elas mesmas (as crianças) não podem se dar conta inteiramente do que lhes acontecem. Precisamos de mais consciência cultural e social a respeito desse tema!

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  3. Olá. Conheci seu blog hoje e estou aqui, me acabando de ler. Gostei demais, porque você coloca aqui, muitas coisas das quais acredito. Ainda tenho muita coisa pra ler aqui e aprender com você, mas por hora, gostaria de parabeniza-la. Sou Psicologa e tem dois anos que optei por parar de trabalhar (em empresas) para cuidar de minhas filhas. Agora estou me redescobrindo na profissão e vendo que posso contribuir muito mais com este mundo, assim, com uma Psicologia inteligente, critica, evolutiva. Você aceita uma discipula? ... rs

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  4. Obrigada, Letícia. Seja bem vinda e boa sorte!
    Um abraço
    Adriana

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  5. A parte mais desafiadora pra mim, sem dúvida, é a da "relação pais-filhos deve ser portanto individualizada e especial: em cada fase, com cada filho e para cada mãe e pai". Porque ela exige isso materialmente, efetivamente, de quem tem 3 ou mais filhos. Acho que ainda mais exigente quando todos são do mesmo gênero. A tendência para tratá-los 'no atacado' é grande, pela praticidade... mas isso os anula!
    Ano passado tomei a difícil decisão de colocar meus dois filhos mais velhos cada um num horário na escola com o intuito de ter condições de dedicar tempo exclusivo para cada um deles. Foi tão acertado que observamos muitas melhoras, algumas até físicas - como o do meio que parou de roer unhas, por exemplo.
    Este ano novamente fui avaliar esta questão e deixei os dois agora no mesmo horário para poder ter tempo exclusivo com o caçula, de apenas 3 anos que, raramente, conseguia uma mãe e um pai só pra ele! rsrsrsrs
    Desafiador, exigente e requer olhar interior e um olhar sobre os filhos constante.
    Obrigada pelo texto!!!! Vou compartilhar...
    Cariny Cielo

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