01/01/2011

Dilma Rousseff - a noiva do Brasil

Adriana Tanese Nogueira

Começa hoje uma nova etapa na história do Brasil. De branco, em meio aos demais presentes em trajes escuros, Dilma Rousseff parecia uma noiva indo ao encontro de seu compromisso com o país. De estrutura física forte, sorridente, feições controladas e voz estável, Dilma parece uma mulher que passou por muita coisa, engoliu diversos sapos mas manteve a mente firme e a cabeça alta. Pode não ser carismata como o Lula, ou emocionalmente atraente como a Marina, mas talvez é disso que o Brasil precisa agora. Uma mulher pioneira deve ter a estrutura psicológica para concretizar uma radical transformação e cumprir a travessia que marca a introdução do elemento feminino na direção do governo brasileiro.

A associação dos valores culturais ao desenvolvimento econômico e social é um dos sinais dos novos tempos. O Brasil acopla em si as características contradições engendradas pelo sistema capitalista, as quais estão presente em todos os países mas no nosso têm intensidade maior, por estar quotidianamente debaixo do nariz de todos. A tensão que esta situação provoca é também a alavanca para resolvê-la de forma efetiva. Como se sabe, "olho não vê, coração não dói", mas no Brasil é difícil não ver. Por isso mesmo é preciso agir.

A ação brasileira, como a Dilma salientou, não prescinde da criatividade. Compromisso, empenho, trabalho e investimento são indispensáveis, mas a criatividade é a chave. Os caminhos que outros países tomaram podem não ser os melhores, e, sobretudo, não apropriados para a cultura brasileira. A seriedade do trabalho e do propósito deve se juntar à criatividade das soluções encontradas. Temos aqui a união de duas qualidades psicológicas: a imaginação (que Einstein afirmava ser mais importante do que o conhecimento) e a racionalidade (da ação e do compromisso).

O Brasil precisa também simplificar. Viver, realizar, produzir, avançar devem se tornar mais fáceis. Dilma citou esta idéia quando mencionou a racionalidade e praticidade das iniciativas. A mentalidade latina em geral é caracterizada pela complicação burocrática, a qual trava o desenvolvimento social, para não dizer a vida diária de todo cidadão. Otimizar o sistema significa então simplificar o pensamento, podar, descartar o supérfluo e valorizar o que importa. Critérios baseados em objetivos claros, coletivos e entusiasmantes precisam ser adotados enquanto se mantém o passo e o rítmo, sem demoras ou acelerações que queimam as energias antes do tempo.

E, a respeito disso, vale a citação que Dilma traz: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem".

Na escolha dos critérios para a vida ética e no trilhar do caminho da evolução individual e social, é de coragem que se precisa. É com esta coragem, diz Dilma, que "vou governar o Brasil". É com esta coragem que mulheres e homens assumem as decisões difíceis que é preciso tomar. É pela somatória das atitudes de pessoas assim que se faz um país. No escuro da anonimidade e no silêncio dos cantos da sociedade uma centelha de luz se acende e conflui para a promoção dos indivíduos, dos que estão ao redor deles e da sociedade como um todo.

Enfim, destaco mais uma característica importante da presença de Dilma Rousseff na presidência: ela não tem um marido! Somente cinquenta anos atrás, uma mulher sem marido era ostracizada pela sociedade, e ainda no presente é olhada com ares de superioridade por homens e mulheres casadas (geralmente com casamentos ruins ou convenientes). Mas hoje, dia 1 de janeiro de 2011, uma mulher sem marido foi eleita para o cargo mais alto da sociedade, e é chamada de "sua excelência". Ela com certeza representa uma grande parcela da população brasileira, uma vez que mulheres chefe de família formam grande parte das unidades familiares do país.

Como se isso não bastasse, Dilma está acompanhada pela filha, e, no discurso de posse, homenagea sua mãe. Uma trindade feminina está aqui representada pela mulher Dilma: a jovem, a madura e a idosa. Três gerações de mulheres, três tempos históricos, sendo a ponta da lança, a mulher madura, Dilma, que tem a sabedoria e a força para levar adiante a missão. Eis mais um espelho para a realidade de tantas brasileiras. Isso não quer dizer que as mulheres não precisem dos homens, mas que elas de forma exemplar na imagem de Dilma Rousseff contradizem a mitologia feminina a respeito de sua dependência e inferioridade emocional e social do homem.

Sinto-me, portanto, representada pela Dilma Rousseff. Tenho certeza que minha avó, Lourdes Nogueira de Sá, professora pioneira no mato do interior do Brasil na década de 30, teria se orgulhado e chorado ao assistir a posse, assim como fez sua neta. Vejo minha mãe representada pela Dilma, pela ousadia de buscar seu caminho como mulher independente e digna, pela criatividade como vive sua vida, e pela oportunidade que sempre me deu de encontrar meu jeito de ser e viver. Enfim, vejo meu pai representado pela Dilma, tendo ambos pertencido à Vanguarda Popular Revolucionária na década de 60, ambos acreditaram nos valores que estão hoje emergindo e ambos pagaram pessoalmente o preço pelos seus sonhos. Mas sem sonhos não há vida decente. E sem coragem não há caminho.

Boa sorte para todos nós!

Discurso integral de posse aqui.


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