16/01/2011

O arquétipo da Virgem Maria na psicologia masculina

Adriana Tanese Nogueira

Na psicologia patriarcal, há um número limitado de papeis femininos. Temos a mãe, a prostituta/amante e a filha. Basicamente, por um desses viés a mulher é/era percebida. Diante de todas as mulheres que possuem características maternas, os homens se relacionam como filhos obsequiosos. Podem gostar ou não gostar da mãe (ou esposa) real, mas não vão ousar "criticá-la" no sentido de reconhecer suas limitações e problemáticas psicológicas, pois este feminino em sua imaginação está  envolto pelo manto azul da Virgem Maria.

Arquétipos atuam a despeito da percepção consciente; seu poder manipulador está livre de agir uma vez que é inconsciente. Sua presença, entretanto, é discernível pelos efeitos que produz. No caso, como reconhecemos a presença do arquétipo de Virgem Maria, da Santa Mãe intocável e "acima de toda suspeita" na psicologia masculina? Pelas mulheres que eles, de alguma forma, protegem e toleram.

É bom frisar que a realidade não é tão simples como parece, nem os homens tão bobos. Eles podem reconhecer falhas, saber raciocinar e tirar as devidas consequências do que vêem... entretanto, por incrível que pareça, continuam sendo manipulados por este tipo de mulher. As razões dessa realidade não se encontram no plano consciente, mas no profundo e sem uma elaboração das motivações inconscientes, o homem não tem como libertar-se.

A resistência em dar esse passo (ou seja, em indagar as motivações profundas) confirma que se trata de uma dependência afetiva de um arquétipo. "Afetiva", porque não é racional, não está ligada a razões e explicações de ordem racional. "Arquetípica", porque não diz respeito diretamente a fulana ou sicrana. Aí está o problema: Fulana e Sicrana pode não valer nada. Então como é que um homem "tão inteligente" não se toca e não toma as atitudes sensatas que se espera dele? Porque Fulana e Sicrana não são simplesmente esta ou aquele mulher, mas representantes de uma instância maior e superior, o arquétipo. É que o vemos atuando por trás da realidade codiana.

Um exemplo vai facilitar a compreensão: Se soubermos que o tal garoto encontrado sozinho, sujo e abandonado, no parque é descendente da família de Jesus (o qual, apesar de Cristo, também tinha família), a desconfiança e/ou repugnância inicial pelo menino se transformará imediatamente em atenção cuidadosa e reverente. Se após um ano (ou dez anos), o garoto continuar a apresentar os traços de um malandro de morro, continuaremos a considerá-lo um ser especial - mais especial do filho de um rei - sendo tolerantes com suas falhas e protegendo-o dos outros. Arquétipos têm esse sabor religioso que borra outras formas de percepção, de modo que a tal pessoa que encontrou um primo de "n" grau de Jesus terá um dia sua casa  arrombada e esvaziada e continuará achando que foi algum engano...

Assim acontece com muitos homens. Há mulheres que lhes roubam o bom senso ao tocar-lhes uma tona interior tão distante quanto decisiva. Apesar de suas boas idéias, estes homens se prestarão a ser vítimas de um engodo e favorecerão situações que, se eles não estivessem governados pela fantasia de um "sagrado pedigree", nunca estariam suportando. A palavra "mãe" tem para este homens um valor especial, ressoa de melodias hipnotizadoras. Que se trata de sua mãe ou da mãe de seus filhos, há mulheres que eles tratam com a paciência e o resguardo que muitas vezes negam a mulheres muito mais merecedoras, talentosas e honestas; mas, uma vez que estas são desprovidas do manto azul da Virgem, não valem tanto quanto as primeiras (sobretudo quando tentarem abrir-lhes os olhos a respeito da impostura na qual vivem).

Nos dias atuais, a áurea azulada da Sagrada Mãe é visível nos rostos daquelas que adotam atitudes congruentes à do mito da Virgem. As mulheres que ganham atendimento especial dos homens sob a inflência do arquétipo da Virgem Maria geralmente sofrem alguma forma de inferioridade social, emocional, monetária ou moral. São "boazinhas", mesmo quando fazem absurdos, e precisam ser "redimidas" e "ajudadas". Daí a necessidade de ser "tolerantes com elas", e apoiar sua "dedicação" e "luta". Mesmo se a situação que o homem vive com esse tipo de mulher se arrastar por vinte anos sem resultado positivo algum, ele não chegará a tirar a legítima conclusão de que há um embuste na cena toda. Também aquela mulher que comanda através de escândalos e dor exibida pertence ao rol das que devem ser "protegidas" e "toleradas", pois elas "sofrem muito". O homem, na verdade, teme ser desobediente, e se a "mãe" for difícil ainda assim ele deve ser fiel a ela. E desta forma ele continua preso na sua teia de aranha.

O resultado concreto desse tipo de problemática psicológica é que homens assim não têm visão objetiva da situação e, portanto, não sabem administrá-la de forma positiva. É muito frequente o homem prejudicar a relação com a esposa para defender uma postura de sua mãe que é, na verdade, indefensável. Lhe é impossível distinguir a mãe como pessoa do sentimento mágico na qual a envolveu, estabelecendo limites e prioridades.

Outra situação bastante frequente é o homem prejudicar a relação com a segunda esposa ou outra relação importante por causa da primeira. É comum que os homens tenham um primeiro casamento com um mulher do modelo da Virgem e que, por evolução natural, se afastem desse tipo e encontrem outra mulher. Se essa transição porém não for conscientizada em seu valor psicológico e evolutivo, eles acabarão por viver a segunda relação (que geralmente é mais satisfatória do ponto de vista emocional, intelectual e/ou  sexual) como uma traição e um sub produto de sua própria desobediência. Assim as exigências e "problemas" da primeira mulher terão mais espaço do que os da segunda, que eles amam. Muitos segundos casamentos naufragam porque o homem não conseguiu cortar o cordão umbilical da primeira mulher, sobretudo quando há filhos envolvidos. Parece faltar a autorização interna a abandonar o arquétipo da Virgem Maria como modelo feminino norteador e a migrar para uma mais recíproca e saudável forma de relação.

9 comentários:

  1. Eu tive dificuldade de entender algumas coisas, mas pensei na minha experiência. Meu ex-marido achava que a mãe era uma coitada e uma grande mulher porque seu marido não esteve com ela quando tiveram o filho. Ele custou ver as coisas ruins que ela fazia, porque não queria vê-la como uma simples mortal, uma mulher como qualquer outra, que tem carências, desejos, defeitos... e as dinâmicas negativas foram só se reforçando... E, claro, eu me engatei nisso, por força das minhas prórpias dinâmicas negativas. Mas, era o amor certo que eu precisava ter para aprender muitas coisas sobre mim.

    ResponderExcluir
  2. A relação dos homens com suas mães é complicada muitas vezes, porque eles a idealizam mesmo quando acham que estão sendo objetivos e isso advém do fato que eles não sabem elaborar seu mundo interior...

    ResponderExcluir
  3. ADOREIIII!RECOMENDEI PARA VÁRIOS AMIGOS.PARABÉNS

    ResponderExcluir
  4. oi dra.

    gostei muito do artigo sobre psicologia masculina e o da virgem maria referindo-se as mães.
    lí anteriormente um artigo sobre covardia e coragem.
    coloco a coragem em primeiro plano, gostaria de saber se atende mesmo que eventualmente no rj.
    att.

    ResponderExcluir
  5. Mário, atendo online, via skype, or text message.
    Se tiver interesse, me escreva: adrianatnogueira@uol.com.br

    ResponderExcluir
  6. Que texto maravilhoso! Adorei! Incrível como esse arquétipo é tão fantástico e ao ao mesmo tempo, tão perigoso.

    Estou começando a ler sobre psicologia e já estou amando!!! Maravilhoso post!

    Esse aquetipo pode ser visto em outras pessoas e não só na mãe daquele homem né?

    ResponderExcluir