24/02/2011

As três princesas e suas sombras

Adriana Tanese Nogueira

Branca de Neve, Cinderela e A Bela Adormecida: três lindas princesas com as quais toda menina brinca, se fantasia e idealiza. Uma é boa, a outra é submissa e a terceira é ingênua (o modelo perfeito de mulher na sociedade patriarcal, nao é?). E todas elas são perseguidas por uma figura feminina mais velha e má.

No primeiro caso, a madrasta é invejosa e seu veneno é tamanho que paralisa sua vítima ao ponto dela parecer morta.
No segundo, a pseudo-mãe é uma mulher sem coração e maltrata a pobre moça fazendo-a trabalhar como uma escrava. No terceiro, a bruxa má se vinga por ter sido excluída da vida da menina e a prende no mundo dos sonhos.

Temos, entao, uma princesa boazinha e servil (Branca de Neve), uma outra trabalhadora e humilde (Cinderela), e uma terceira que vive no mundo das núvens. Qual é a sua? Com qual você se identifica?

Apesar de serem aspectos diferentes de uma mesma representação feminina, é útil mantê-las separadas para melhor analisar o que cada uma tem a ensinar às mulheres de hoje.

Branca de Neve representa a mulher cuja identidade se alicerca no ser boa. ("Curiosamente", ou melhor, nada por acaso, a bondade é um valor mais feminino do que masculino. Ecoa aqui todo o condicionamento cristão ao qual a mulher foi submetida por séculos.) Sendo boa, ela é também servil, sempre pronta a ajudar os outros. Naturalmente, ela surpreende-se e sofre pela falta de consideração e/ou pelo aproveitamento que os outros fazem de sua disponibilidade. Mas ela continua sendo boa, porque esta é mais do que uma opção, é motivo de orgulho e, na verdade, é uma exigência interior oriunda de profundezas que ela não ousa investigar.

Cinderela representa aquele tipo de mulher que age como se no fundo de si não acreditasse merecer qualquer coisa (dinheiro, respeito, reconhecimento, liberdade, etc.). Ela nasceu para sofrer. Por isso, trabalha muito, faz além do que suas obrigações exigem e além do que seu corpo aguenta. Ela se sacrifica pelos outros, esgotando-se por anos a fio numa vida  árdua. Mas persevera, tendo somente sua laboriosidade e capacidade de aguentar o tranco para se orgulhar.

A Bela Adormecida representa aquela mulher que vive no transe de um sonho, uma fantasia, uma quimera. Ela é leve, alegre e esquecida. Sempre jovem, ri de seus esquecimentos, pula de galho em galho e degusta essa espécie de liberdade que vem do não dar importancia ao que é geralmente considerado importante, se achando ousada e alternativa por causa disso.

As três princesas, aparentemente de bem com sua identidade, escondem uma outra face. Nenhuma delas pode, na verdade, ser diferente. Seu modo de ser está preso ao reverso do papel que assumiram, ou no qual cresceram. Para que elas possam se libertar do estereótipo que vestem precisam encarar a bruxa, a madrasta que carregam dentro. A donzela, coitadinha e alegre, e a mulher madura, amargurada e má, são aspectos da mesma personagem. Viver de uma metade da moeda é privar-se do valor que somente quando inteira ela possui.
Por trás da Branca de Neve encontramos a famigerada Madrasta-Bruxa. Temos aqui algumas considerações importantes a fazer. A madrasta é invejosa como pode sê-lo uma mulher mais velha da juventude fresca e cheia de vida, ingênua e rica em potencialidades, da menina. Mas, sobretudo, a inveja (sobre a qual escrevi em outro post) está relacionada à dor profunda de ver o que outra pessoa é, e é capaz de fazer, ao mesmo tempo em que a invejosa se priva da dimensão do ser que admira na outra. A inveja é uma admiração ao contrário, é o torcedor que no lugar de apoiar solapa o que o outro tem, faz por diminuir o valor que vê brilhando na vida alheia. E isso pelo triste motivo de que, num nível profundo, a invejosa se auto-exclui do mundo que tanto deseja.
A bondade da mulher Branca de Neve é, na verdade, uma forma de fugir do perceber-se bruxa invejosa. Entretanto, assim como os conteúdos não evacuados produzem odores que fogem ao controle da pessoa, assim a inveja suprimida manifesta-se aqui e acola em pequenos gestos, atitudes, olhares, palavras tão " suaves" quando problemáticos.

Cinderela vive sob as correntes da convicção inconsciente de ter nascido para ser submissa. A vida é sofrimento, vence quem trabalha duro. Uma mulher que se respeita é trabalhadora, e não reclama "à toa", e se reclamar ninguém vai ouvi-la mesmo. As cinderalas andam pelo mundo arrastando uma grande carga, nunca se concedendo repouso e diversão, na crença de que seu mérito consiste em nunca parar. A mulher-Cinderela está sob o efeito do jugo patriarcal imposto diretamente pela mão do feminino (dentro dela) aliado do poder masculino. Ela representa o lado da mulher moderna que sofre na vida de escrava que leva, mas não ousa questionar, apontar dedos, levantar a voz e mudar as regras do jogo. Afinal, quem é ela para fazer isso...?

A Bela Adormecida encontrou um atalho para ser feliz e evitar de assumir o lado pesado, duro e contraditorio da vida. Seu ingresso no mundo ocorreu junto à exclusão daquela parte de si que está em contato com a dimensão problemática da existência. Mas, seguindo a lei infalível da natureza, o que foi suprimido volta trazendo as consequências da injustiça psicológica cometida. O preço que a Bela paga é o de ser uma dondoca que vive na superfície da vida ou uma destemida que se aventura pelo mundo sem perceber o dano que faz a si mesma e aos outros.

As três princesas são salvas pelo principe. Quem é o principe? Ele entra como o terceiro na histoória, interpondo-se entre a donzela e a madrasta. Sua presenca signfica questionar os papeis. No lugar de ser uma das duas, o terceiro princípio permite a reflexão crítica e, graças a ela, a criação de uma nova identidade que supere a dicotomia boa/má, humilde/arrogante, superficial/pesada.

É pelo desenvolvimento de um saudável masculino interno que a mulher vai além os papeis pré-constituidos nos quais foi criada. Porém, antes do beijo salvador, antes da doce e bem vinda união (interior), é preciso enfrentar a bruxa.

Bem disse Jung que o primeiro passo na jornada do auto-conhecimento é o encontro com a própria sombra. O que para as princesas encantadas é um passo tão árduo quando urgente.

4 comentários:

  1. heheheh pois eh, Eu não sou nenhum exemplo de mulher sonhadora, perfeita, submissa nem ingênua e continuo sendo perseguida pela sograsta má... tem título pior? SOGRASTA???
    Onde errei?
    rsrs

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  2. Sograsta - rs rs Gostei da expressão.
    Cuca, não sei onde errou, às vezes é pelo que é naturalmente, sem querer, que atrai a energia negativa dAs outrAs.
    Mas nesse caso, é preciso sair do papel da boazinha e começar a usar as artes da sograsta contra a própria.

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  3. Eu era a boadrasta da filha do meu então marido. Era bom exercitar a maternidade com ela. Porém, a bobona da Branca de Neve em mim não me permitia ver a sogra perturbada que eu tinha e, como meu príncipe era um Belo Adormecido, enredado nas teias da mãe-madrasta má que ele tinha, o casamento não deu certo! Eu comecei a sair do enredo, do papel de Branca de Neve... gostei muito desta análise!

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  4. É bem por aí, Juliana. Também gostei de sua análise. Os "sentidos internos" de seu ex marido (seu lado feminino) estava tapado. Poranto, ele não podia perceber as artimanhas da mãe (a maçã envenenada ou o fuso envenenado). Ele enxergava o mundo do lado de fora e não via com os olhos de dentro. Vc abriu os seus olhos interiores - ele não.

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