19/02/2011

Homens sem testosterona

Adriana Tanese Nogueira

Estava esta manhã no parque de cachorros (aqui nos EUA há disso). Após algumas ligações, guardo meu celular e vou sentar-me no banco próximo de onde meu Rottweiler de 7 meses está brincando feliz com uma mestiça de Boxer de 9 meses. No banco ao lado, perpendicular ao meu, está o dono da cadela, um homem de uns 45 anos, com ao lado a filha, uma adolescente magrinha curvada sobre seu celular jogando um game.


Situação sem graça esta. O homem sequer consegue olhar para o meu lado. Já tinha notado o embaraço dele quando, mesmo conversando ao celular fiquei longamente apertando o botão para a água da fonte escorrer e sua cadela poder beber. Ele de longe assobiou e assobiou, mas a bicha estava sedenta e não atendeu. Não me incomodo de dar água para os cães alheios se estiver por perto e nem acho que estou aproveitando de alguém se acontece o oposto. Mas o homem estava certamente preocupado de estar me incomodando e continuou assobiando inutilmente (mas não se levantou do banco), e eu não dei a menor atenção ao episódio.

Agora, que tinha acabado minhas ligações, sentada no banco, permanecer em silêncio quando se está tão próximos um do outro, pareceu-me ridículo. Resolvo então iniciar a conversa. Por minha surpresa, o homem acompanha bem, parece que despertou. Trocamos informações sobre cachorros e treinamento dos mesmos. Não concordo com o fato dele treinar sua cachorra usando guloseimas. Isso, para mim, é suborno. É como dar mesada pro filho se ele for bem na escola. Educação não se mistura com vantagens secundárias, é importante por si mesma e pronto. Assim, é com a disciplina dos cachorros. O líder é líder sem subornar ninguém. Esta que é verdadeira autoridade.

Objeto seus métodos mas não insisto. Continuamos conversando quando entra pelo portão do parque (logo atrás de nós) outro homem, mais novo, de uns trinta anos, com o filhinho de uns 5/6 anos segurando na guia um cachorro de tamanho médio e cara de jovem. A cadela vai logo dar as boas vindas ao novo chegado e o convida para brincar. Bunda para o alto, calda abanando e pernas dianteiras deitadas no chão: creio que seja um sinal universal que todo adulto reconhece como um convite canino à brincadeira. Mas o menino estava assustado, provavelmente pelo tamanho da cadela, e puxou a guia para afastar seu cão dela, sem conseguir, pois seu animal permaneceu parado no lugar.

O menino lamentando, perdido e medroso; a cadela abanando o rabo toda feliz; o cachorro do menino no começo curioso passou a ficar nervoso. Deu umas rosnada e um latido de histérico num bico sem saída. O dono da cadela assobia para chamá-la para perto (sem sucesso desta vez também). O pai do menino olha com um meio sorriso nos lábios. 

O cachorro irritado e angustiado se torna sempre mais agressivo. O pai do menino continua com o meio sorriso olhando para a cena; o dono da cadela continua assobiando inutilmente; e o menino assustado continua a puxa a guia. Uma cena constrangedora e ridícula ao mesmo tempo. Nenhum dos dois homens foi capaz de tomar uma atitude. Assim eu tomei.

Levantei-me e fui embora porque tamanha falta de testosterona - além da falta do bom senso básico (não se deixa um cachorro nas mãos de uma criancinha que não sabe administrá-lo) - era demais. Fiquei abismada e achei melhor abandoná-los a si mesmos. Afinal, meu cão já tinha se mandado para outro lado do parque, deve ter farejado a falta de qualquer ser de interesse naqueles 5 metros quadrados nos quais todos nos encontrávamos.

O pai do menino não foi capaz de tirar a guia das mãos do filho e a) soltar o bendito animal para que se virasse com a filhota (nenhum cão adulto - se é que aquele cão era adulto - ataca um filhote), ou b) afastasse de vez seu cachorro da pobrezinha que insistia em querer brincar com ele. O dono da cadela não foi capaz de levantar seu traseiro e dar dois (não seriam mais do que dois) passos e pegar sua cachorra pela coleira e dar um basta àquela patética situação.

Como terminou eu não sei. Levantei-me e fique a ruminar sobre a vergonhosa falta de testosterona que tantos homens demonstram, incapazes como são de tomar uma atitude (valor), de ter iniciativa (corajosa), de fazer algo de bom (e na hora certa, não décadas mais tarde). Uma vez que o gênero masculino sai das cavernas do homem-macho-que-bate-os punhos-no-peito-dando-ordens, o que sobra desse humano? Será que não há um meio termo entre 8 e 80, entre o bruto e o molenga?

7 comentários:

  1. Tinha que chamar o Cesar Millan pra dar uma bronca nesses donos! Ele ia humilhar os dois! (Hehehe!) Onde já se viu! Belos líderes de matilha esses (e não quero nem pensar em como os filhos dessa galera são criados!)

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  2. Exatamente, Adèle! ;-)
    Que modelo masculino poder ter essas crianças?

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  4. Estranha essa postagem. Teria sido melhor se você tivesse falado sobre SERES HUMANOS, pois atitudes (boas ou ruins) não têm gênero.

    Engraçado como os homens sempre são condenados, não importa o que façam ou deixem de fazer. Se tomam iniciativa, são dominadores, brutos; se não tomam, são molengas, fracos. Se querem ser promovidos a um cargo de chefia na empresa, são gananciosos; se não querem, são medíocres. Se admiram a beleza de uma mulher que passa, são cafajestes tarados; se não admiram, são homossexuais... E assim por diante.

    Agora, se neste caso fossem duas mulheres e nenhuma tomasse uma atitude, seria associada alguma virtude a isso (modéstia, paciência, deixar a criança adquirir experiência, etc.). Ou seria dito que elas são pobres vítimas da repressão da sociedade machista, etc. Mas se elas tomassem alguma atitude, que são exemplos, guerreiras, etc.

    Talvez na visão deles o melhor a fazer era não intervir. E se fossem ouvidos os motivos deles, talvez se constatasse que eles tiveram razão. As pessoas possuem crenças e valores diferentes. O que é virtude para alguém pode ser defeito para outro. Dentro de certos limites, temos que aceitar essa diferença entre os indivíduos e aprender com quem pensa diferente de nós.

    E acima de tudo temos que ver as pessoas primariamente como SERES HUMANOS, não criticar um comportamento X só porque foi feito por um homem e elogiar ou desculpar esse mesmo comportamento X quando é feito por uma mulher.

    * * *

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  5. Engraçado que quando falo de mulheres - e se vc não notou, Emerson, tem nesse blog no momento mais posts sobre mulheres do que sobre homens e se vc se der ao trabalho de lê-los verá que não são sempre elogiadores das mulheres - então, dizia, engraçado que quando aponto o dedo para os homens, vocês reagem, susceptíveis, ofendidos, delicados como só vocês quando se trata de seu gênero. Agora, tenho escrito coisas bem duras sobre as mulheres e NUNCA nenhuma delas demonstrou tamanha sensibilidade como você e alguns seus colegas demonstraram.

    Sinto muito, continuarei expressando minhas idéias. Vc que dê suas aulas de psicologia em seu blog. E, a propósito, vc NÃO entendeu meu post sobre o behaviorismo. Estava mais preocupado em mostrar estar "por dentro" do assunto do que em ler o que escrevi.

    Abraços
    Adriana

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    1. tu é agressiva heim muié!! cheia de testosterona hehehe

      e deixa o cara falar da opinião dele, se vc tb pode falar a sua!

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  6. Ihh, a propósito, meu caro, TESTOSTERONA nós mulheres também temos. Não é exclusividade masculina. Em segundo lugar, no post acima relato uma experiência real. Não é culpa minha se os sujeitos em questão fazem parte de seu mesmo gênero.

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