18/02/2011

Quem faz terapia? Os melhores

Adriana Tanese Nogueira

Terapia aqui significa análise. Quem se engaja numa análise são sempre os melhores. É um fato observável e uma constatação lógica deduzível do sentido da psicánalise como empreendimento existencial.

Tenho muito apreço pelas pessoas que fazem análise comigo. Não é uma questão de marketing, nem do fato que sou "boazinha". Seria "bobinho" da parte minha. É porque uma vez que começo a conhecer melhor a pessoa e a ver de onde ela vem, o ambiente no qual vive, o conflito que carrega, a dor que sente, as dúvidas e a luta interior, seu valor fica
evidente para mim. É ela que muitas vezes não o vê, e daí boa parte de sua confusão existencial. Eu enxergo a semente e a plantinha querendo brotar, se expandir, crescer e se fortalecer; a pessoa está fixa na dor da perda daquela casca que envolvia a semente e que quebrou-se para dar lugar ao broto. Falar parece simples, viver é outra coisa. Dolorida, incerta, desestabilizante. Só para pessoas especiais.


No geral, começa-se uma análise porque se está tão mal que não é mais possível fazer de conta. De uma certa maneira, é o correto procedimento: só se deve mudar quando não é não dá para viver do jeito de sempre. Há pessoas cujo movimento interno é tão intenso que precisam de mudanças frequentes. Outras, cuja resistência interna é tão grande que ultrapassam a época certa da tomada de atitude, perdem o momento e se afogam ou esclerosam num estado antiquado de ser. Para estas, começar uma análise é algo "feio", "coisa de maluco", ou "desnecessária".

Quando olho para o ambiente familiar e social das pessoas que atendo percebo que nelas acendeu-se uma chama que nos outros ainda não brilha ou foi apagada há muito tempo. Essas outras pessoas estão muito cruas ou paradas no tempo, resistentes, endurecidas. Somente os melhores, os mais fortes (os que possuem uma estrutura psíquica para aguentar a travessia), os mais receptivos (ao impulso interior que quer ir além e mais alto) e sensíveis (e o quanto sentem e sofrem!) fazem análise. Não são esses os melhores?

Enquanto os outros aceitam os nós existenciais que os amarram e inventam subterfúgios para distrair-se e ir levando, há pessoas que não conseguem se enganar e enfrentam uma jornada que é muito mais difícil e empenhativa do fingimento cotidiano de muitos familiares e colegas. E não são esses os melhores?

Do ponto de vista técnico, a psicanálise nasceu para curar "neuróticos". Freud os definia como indivíduos que viviam um conflito interno entre duas tendências: a de adaptar-se às regras de vida oferecidas pelo Super Ego, representante da autoridade social, e a tendência vinculada ao princípio de prazer que se contrapunha para impor-se. Traduzido em linguagem moderna: a briga é entre a adaptação a um modo de ser aprendido e aplicado (acriticamente), tido como o certo e o melhor (Superego) e a pulsão interior (inexplicável - quantas vezes já não ouvi uma pessoa dizer assustada e quase escandalizada: eu achava que me conhecia, o que é isso que sinto?!) que busca outros valores, outros caminhos, outros modos de ser. "Neurótico" é que ficam empacado nessa briga e, como um disco quebrado, acaba por repetir a mesma estrofe porque não consegue ir adiante. Em definitiva, a luta é entre o velho e o novo.

Somente quem assume o conflito é quem está apto a dar à luz o novo. Claro que antes deve passar pelo trabalho de parto e pelo parto os quais, como na realidade física, demoram conforme a entrega ou a resistência da pessoa ao processo. Que a caminhada seja demorada ou não, não é valiosa quando se gera uma nova vida, um novo Eu?

Por este motivo, meu antigo supervisor e analista, Mario Mencarini, costumava dizer: nos interessam somente os neuróticos. Não para angariar clientes, mas porque somente os neuróticos são pessoas interessantes.

Os não-neuróticos podem ser divididos em duas categorias: aqueles que estão aquém do conflito, imaturos e crus, como uma pessoa de outro tempo histórico, priva dos conceitos para entender o que acontece aqui; e aqueles, a maioria, que estão presos às ilusões e projeções com as quais se mascaram. Uma pequena parte desses tenta sinceramente começar uma análise mas acabam se dando conta que "não é possível servir a dois patrões". Quando se trata de por-se em discussão, pulam fora do vínculo analítico. Não estão prontos ainda.

Continuar requer coragem e fé. Após a "longa noite da alma" (como dizia São João da Cruz) surgirá a aurora, parida diretamente das vísceras de um ser humano de verdade que encontrou-se, pegou-se nas mãos e revelou-se.

A análise termina quando o processo interior que ela visa pôr em movimento, a reflexão crítica, está permanentemente em posse da outra pessoa. Inútil negar que esse processo seja longo, porque nada menos é que uma reeducação, a qual irá esbarrar na resistência individual e naquela social. Quem já não experimentou a energia negativa dos outros quando se tenta mudar de rumo, de abordagem, de pensamento?

É preciso esclarecer duas coisas. Em primeiro lugar, a análise, apesar de longa não demora décadas. Se assim for, algo está errado. Pode haver mudanças de atividades, como passar de uma análise pessoal para uma didática, participar de grupos de pesquisa, etc. Pode haver evolução, mas uma análise pessoal tem um limite. Em segundo lugar, nem toda análise e nem toda terapia dá os resultados dos quais estou falando. É um fato que acredito todos podem confirmar direta ou indiretamente. Há muita falta de amadurecimento interior da parte dos psicoterapeutas (incluindo psicólogas de toda denominação) e muita racionalização (ou seja, fala-se o óbvio do ponto de vista do bom senso e não se reconhecem as necessidades interiores que levam a incorrer em determinadas situações).

Pra finalizar, a caminhada que a análise propõe nada mais é do que a busca de si mesmos. Quem inicia, geralmente não pensa nisso, mas no problema que o está fazendo se sentir mal. Mas o movimento que serpenteia por dentro querendo aflorar é o processo de individuação (Silvia Montefoschi). E devo dizer que é uma experiência profunda e bonita tanto para quem dá à luz quanto para quem ajuda utilizando a arte psicológica de partejar (Sócrates).

9 comentários:

  1. Texto claro e objetivo. Ajudou muito...Obrigada.

    Eu fiz análise muito tempo . Sempre com gente bem ''famosa''. Vi alguns cochilarem na minha frente ( cobravam muito caro) e...Não foi um.
    Agora, busquei uma terapeuta do convênio e finalmente a análise está acontecendo.
    Esse problema da sonolência dos analistas e ou terapeutas mereceria estudos e talvez, pesquisas.

    ResponderExcluir
  2. Obrigada a você pelo comentário, Rose. Desejo-te um bom trabalho com seu novo analista :-) Sobre o que é ser analista estarei escrevendo em breve, é assunto muito importante.

    ResponderExcluir
  3. Adriana, seus posts como sempre certeiros.
    Eu preciso MUITO fazer o curso "A tenda vermelha": a feminilidade é o assunto em pauta na terapia no momento.
    Infelizmente no momento não tenho condições financeiras, estou adiando.
    Mas preciso, sinto que o feminino se perdeu, se escondeu...

    ResponderExcluir
  4. Oi Andressa, seu momento havera de chegar um dia. Vc esta querendo fazer esse curso faz tempo...:-)

    ResponderExcluir
  5. Adorei o texto!
    O que leva alguém a terapia é geralmente a dor, mas essa dor está além do fato gerador e ao ser abordada será descascada uma cebola, camada por camada...

    ResponderExcluir
  6. Muito bom seu texto!!Claro, objetivo....me identifiquei em mtos pontos.....passei para uma amiga e curtimos conversar sobre ele. Fazemos terapia e trocamos mtas conversas!!!A Psico que me acompanha é ótima!!!! um grande abraço!!!! ana

    ResponderExcluir