27/03/2011

Alcoolismo: vício ou doença?

Adriana Tanese Nogueira

A forma como se entende o alcoolismo determina também sua abordagem. Os especialistas no assunto não gostam de usar a palavra "vício" (muito usada comumente) porque ela remete a conotações cristãs moralizantes que mais prejudicam do que ajudam. Vamos entender melhor isso porque, de uma certa forma, todos têm "razão",

Evitar o termo "vício" tem como principal objetivo tirar o atributo de culpa consciente e intencional do dependente. Ser alcólatra não é divertido. É humilhante. Ninguém se submente a cenas tão violentas quanto ridículas por vontade própria.
Existem reais alterações químicas que ocorrem no cérebro do dependente após um certo nível de álcool no sangue. Este é um fato.

O alcoolismo é uma doença hereditária, filhos de alcólatras têm 75% de chances de desenvolver a dependência (todos os outros têm 50% de chances de se tornar alcólatras). Atenção, porém: se for alcoolismo pode ser outra dependência. A questão é a tendência a desenvolver ou não dependências. Conheço pessoas filhas de alcólatras que são dependentes de comida. Gastar dinheiro também pode se tornar uma obsessão.

O alcoolismo é mais do que uma doença física. Alcoolismo é também uma doença emocional e espiritual

Com "emocional" queremos dizer a psicologia que está na base da dependência. O alcoolismo provoca distúrbios de comportamento e de relação que já observei entre pessoas "normais", mas no alcólatra e em suas relações afetivas esses distúrbios são mais intensos e mais difíceis de serem desmascarados e/ou transformados. Exemplo disso é o sentimento de culpa. Quem não conhece um pai ou uma mãe que usam da chantagem emocional para obter do filho alguma coisa. Nesta malha de probições não ditas e de bloqueios silenciosos, uma pessoa pode ficar enredada por anos a fio, às vezes uma vida inteira. Mas no não-dependente químico existe uma chance maior de rebelar-se (santa rebelião). No alcolatra e em seus co-dependentes essa chance cai, talvez porque existe efetivamente um "mal" (o alcoolismo) que suscita pena e dó. O alcoolismo tira força moral, poder pessoal e auto-confiança.

Do ponto de vista psicológico, o comportamento do dependente pode, porém, ser chamado de vício, no sentido que gera uma deformação na percepção e na interpretação de fatos e relações que prejudica o inteiro de sua vida. O comportamento viciado (deformado) contamina o dos outros, que acabam se adequando ao mesmo padrão. Geralmente, o dependente usa de poder econômico, emocional ou físico para dominar seus familiares, daí uma "boa" razão para estes encontrarem um "equilíbrio" dentro do sistema viciado se adaptando a ele. Escrevi em outro tópico como lidar com um pai alcólatra.

Agora, no que diz respeito ao plano espiritual, como entender o alcoolismo? É aqui que entram as religiões. Segundo os neo-protestantes (ou seja a leva de evangélicos dos últimos 40 anos), alcoolismo é coisa do demônio e o alcólatra precisa ser exorcisado. Muitos não acreditam nisso, mas quem viu um alcólatra em crise de brabeza sabe o quanto a pessoa que vêem está alterada. Há no dependente químico atacado uma componente realmente assustadora: seu rosto é diferente, feio, possesso, estranho. Sua voz e suas palavras são apavorantes e das mais baixas e agressivas. A raiva e o ódio que ele vomita nesses momentos beira o incompreensível, mesmo num contexto familiar difícil. Quem é essa criatura? Com certeza, não a mesma que conhecemos em seus momentos de calma. É muito fácil entender essa experiência como "possessão do demônio". Se o Mal existe, uma de suas manifestações é com certeza durante a crise agressiva de um alcólatra.


Convive com um alcoólico? Precisa de ajuda?
Veja o link à sua esquerda: Grupo de suporte a famílias de alcoólicos. Participe!

12 comentários:

  1. Oi, Tanese,

    Não sei se consegui comentar o outro comentário direito, mas então vá lá, rsrs:

    Gostei muito do seu site, há temas interessantes por aqui,

    Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Oi Marcelo, não vi outro comentário seu, fora este... Obrigada pelos parabéns.

    PS.: meu nome é Adriana, meu sobrenome é Tanese + Nogueira :-)

    ResponderExcluir
  3. Oi Adriana, é que de um certo tempo para cá meu pai vem bebendo muito, ele já bebeu anos atrás, já parou, mas voltou a beber de novo, e eu estou achando que pela quantidade, intesidade e o tempo que ele bebe, ele já se tornou um alcolatra. Já está bastante difícil o relacionamento com ele. Tu podes me ajudar? Me dá uma luz?
    Vou te add no msn!!! ;)

    ResponderExcluir
  4. Olá Rachel, para lidar com o alcoolismo há dois instrumentos essenciais:
    1) ir ao AA (para o alcoólico) e ao Al-Anon para os familiares;
    2) fazer uma psicoterapia.

    Se você estiver interessada em fazer uma terapia comigo então entre em contato pelo email: adrianatnogueira@uol.com.br

    ResponderExcluir
  5. Ola adrianaoque eu quera te falar e meu que meu pai vem bebendo muito,ele ja parou umas 2 ou 3 vezes. Normalmente quando ele vai beber ele fala que vai resolver algunha coisa as vezes ate importante, e quando chega em casa esta toltalmente bebado mais o pior de tudo e que ele menti fala que não beebeu etc e etc. eu gostaria que vc me desse uma dica para fazer com que ele pare com essa bebedeira

    ResponderExcluir
  6. Arthur, não existe "dica". Esse é um problema sério. Tem duas coisas que precisa saber: 1) que só a pessoa que tem um problema pode resolvê-lo; 2) que vc provavelmente apoia a bebedeira de seu pai. Esse é o seu problema e deveria cuidar disso. Vá ao Al-Anon e aprenda sobre isso.

    ResponderExcluir
  7. Olá, temos muitos problemas com meu pai, ele está é agressivo e violento, minha mãe fica recuada diante das situaçoes, e esconde a violencia provocada nela. agora conseguimos tirar ela de casa e ele esta respondendo processo por violencia domestica, mas esta se fazendo de coitadinho, chora e promete que irá se tratar. O que fazer, acreditar ou continuar firme com a decisão pois acredito que ele deve sentir na pele todo o sofrimento que ele causou ano apos ano para a familia.

    ResponderExcluir
  8. Continuar firme na decisão e deixar que ele mostre com comportamentos continuados e constantes que ele está mudando (= parar de beber por pelo menos 6 meses). E mesmo vendo mudanças, manter a vigilância. Viciados mentem muito.

    ResponderExcluir
  9. realmente e muito bom seu site gostei muito sou psicologo formado en letras e comportamento humano moro no estado do amapa na cidade de santana professor WALTER RICHARDSS email richardsswalter@gmail.com e walter.richardss@yahoo.com.br (MEU FACEBOOK walter richardss )

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada por ter deixado seu comentário, Walter.
      Um abraço

      Excluir
  10. Ola , estou no momento bem desesperada e acabei achando o se blog e seu comentarios. Acredito que meu esposo se alcooltra , como ja passei eainda passo por isso com meu.pai estou sem saber lidar a sotuacao. Agora a menos de 60 dias ele veio a ter um infarto, sinceramente em nenhum momento me passou na cabeça que ele iria morrer mad que talvez me ajudasse a mostrar pra ele que o ritmo de vida dele estava errado, infelizmente nada mudo só que antes ele bebia todos os dias agora so as quartas sexta sabado e domingo. Spu jovem e tenho raiva por edyar passando por isso e tbem nao quero que meus filhos crescam com estes traumas que tenho . Ele nao quer ajhdar e de vez em quando reconhece. Mas nao acha qie é alcolatra acha que confundo ele com meu pai, sera? Estou pensando em me separar, nao sei o qie seria puor para meus filhos a separacao ou conviver com o alcoolismo

    ResponderExcluir