04/03/2011

É PERMITIDO SER "MÁ"

Adriana Tanese Nogueira


Imagine que sua amiga ou amigo, ou namorado/a lhe dê um chute na canela. Se você for um brutamonte vai espancá-lo e depois, talvez, perguntar o que foi, por que fez o que fez. Se for uma criança levada vai lhe dar outro mais ou menos da mesma intensidade e esperar para ver ou correr embora. Mas se você for uma pessoa civilizada e “boa” vai provavelmente fazer de conta que nada aconteceu. Vai engolir a língua e olhar desconfiado.

Aí entra o nível de autoestima. Há pessoas que vão fazer tão bem de conta que literalmente não vão sentir nada, outras vão sentir mas não dar importância e esquecer rapidamente porque não querem problemas. E há as que relevam porque querem ser “boas”, “pensar positivo”. Infelizmente, este tipo de “bondade” equivale a suprimir os próprios instintos de autodefesa. Salta aos olhos como a cultura não está harmonizada com os instintos, sendo uma das maiores causas dos distúrbios psicológicos. Imaginem alguém levando chutes na canela desde pequeno e fazendo de conta de nada ora porque é proibido falar ora porque ensinaram-lhe a ser “bom”…

Diante de um chute na canela, e antes de chegar a conclusões apressadas, é importante refletir sobre quais são as questões em jogo 1) A pessoa pode não ter percebido o que fez (tem um tic nervoso); 2) Ela deu o chute intencionalmente; 3) Chutuo por engano (queria chutar a pedra ao lado).

Diante da sua dor (“Ai, minha canela!”), as reações dela deveriam ser: 1) Nenhuma (ela se mantém inconsciente, não sabe o que fez); 2) "Não fiz nada de mal." “Foi uma coisa de nada, não exagere!”. (ela se faz de sonsa, mente para si mesma e quer manter uma fachada); 3) "Você merece" (ela está lhe punindo); 4) "Desculpa" (ela assume o erro).

A reação saudável de quem recebe um chute na canela deveria ser: 1) se esquivar para evitar outro (se afastar da pessoa); 2) reagir e manifestar a própria raiva, surpresa, desapontamento, pedir explicação; 3) dar um chute de volta sem pensar duas vezes. Sua reação vai depender do seu caráter e de seus valores. Mas, independentemente de você, as circunstâncias podem fazer de cada uma dessas opções a certa. A tal pessoa poderia ter um "tic nervoso" que despacha hora e outra o pé contra sua canela enquanto tem uma simpática conversa com você. Se você não mostrar qualquer reação, a pessoa nunca vai poder tomar conhecimento do que ela faz, ou nunca vai ter que encarar as próprias mentiras. Ou seja: os outros se corrigem se você colaborar para isso.

A metáfora vale para muitas mulheres que sofrem situações desagradáveis de namorados ou amigas, com os quais supostamente haveria de ter amor. A situação não vai mudar até aquela que sofre o prejuízo ficar calar. Quando o mal feito não é assumido (como erro ou como intenção) então você está diante da sombra da outra pessoa. Situações como essa ocorrem quotidianamente.  Significa que o que a outra pessoa fala ou exprime abertamente não é toda a verdade. Não quer dizer que seja mentira (às vezes até é, então a pessoa é falsa), quer dizer que nem tudo está sendo ditto. Voltando ao meu exemplo: se o chute não for adequadamente explicado, então há sujeira debaixo do tapete. Há sentimentos não assumidos que se manifestam nas entrelinhas, por assim dizer.

Com pessoas assim, é importante usar a mesma "sutileza" que elas generosamente nos ensinam. Falar diretamente não adianta, pois elas não como vimos não assumem suas responsabilidades. Tentar torná-las conscientes também não funciona porque elas não querem se dar conta do que fazem. Resta fazê-las experimentar o gosto amargo do tratamento que dão aos outros. Portanto, reservamo-lhes chutes "sem querer e sem saber". Isso não quer dizer se tornar como elas. Significa saudável auto-proteção. A diferença entre você e a pessoa sonsa ou má consiste que você pelo menos sabe o que faz e está no controle de seu comportamento. Este é o mundo no qual vivemos. Essa é a psicologia humana. Bancar a Poliana ou a Maria sofredora não faz sentido, só aumenta a carga que se carrega nos ombros. E ainda por cima, inutilmente.

Agora com aqueles que fazem sem verdadeiramente perceber, então é importante mostrar as consequência de seus atos, em tolerância e paciência. Novelas mexicanas (ou da Globo) não são necessarias e muitas vezes nem mesmo efetivas porque os berros acabam por obscurecer as coisas importantes que se queria passar. E com os que têm "tiques nervosos" e continuam machucando "sem querer" e não tem como mudar, é profilático simplesmente sair de perto. Tem-se o direito a canelas sem hematomas.

Sintetizando: ser bons não é ser tolos, nem passivos e muito menos medrosos. Vamos valorizar a bondade e preservá-la usando-a bem, na hora certa e com a pessoa certa. Ser bons com quem é mau, equivale a se alimentar  o mal.

6 comentários:

  1. Gostei muito do resumo. Eu já fui uma amiga de alguém que precisava de alguém pior que ela pra ela se sentir melhor. Até eu entender até onde iam os abusos. Acabei com a falsa amizade e nunca mais dei outra chance. Eu não quero ser como ela, porém, nem com ela mesma. Dalai Lama disse que o melhor é não sentir raiva, mas se não conseguimos controlar, é melhor sair de perto. Note-se: não é se acovardar, claro. É simplesmente se afastar pra não refletir ou engatar no negativo de outro. Sermos bons sem ser bobos.

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  2. Nossa Adriana estou até tonta! Li seu texto "É permitido ser má". Caiu me como uma luva ou eu que cai dentro dela.
    Por motivo pessoias estou morando com minha sogra a 10 meses, ela tem as características de uma pessoa má, acredito eu ela não sabe que é. Ela está com 79 anos, nenhum familiar quer ficar com ela, pois sempre causou problemas, intrigas,...na vida de todos. Como está com idade e minha família com problemas de moradia, estamos vivendo em sua casa por esse período. Achavamos que seria o melhor p/ todos, pois ela em Out/2010 a Jan/2011, aproximadamente, apresentou sérios problemas de saúde, eu e meu marido decidimos cuidar dela ao invés de procurar um apto.
    Dediquei a cuidar dela em tudo, medicação, alimentação, carinho, gastos financeiros, acompanhar aos médicos, noites em claro, etc...
    Finalmente ela se recuperou e desde Janeiro/2011 recuperou sua saúde física, quanto a mental... eu não sei. Na verdade não sei mais o que fazer, porque quem está enlouquecendo sou eu com suas maldades. Ela tem o comportamento que você descreve acima. Meus Deus não sabia que isso poderia ser verdade! Ela não é uma pessoa ruim, suas "sutilezas " de maldade já estão no campo da perversidade dentro do que eu observo dia-a-dia.
    Muitas vezes me sinto culpada e responsável por suas ações, sua manipulação e tanta que sei que não fiz nada de mal, porém sinto como se fosse culpada de tudo dar errado, das brigas em casa, do desequilibrio do ambiente, do stress. Nada que faço parece positivo, principalmente para melhorar nossas relações. Ultimamente tenho ignorado minha sogra completamente (depois dela me ofender verbalmente várias vezes e com palavras baixas e aos berros),ela provoca minha filha de 10anos para me agredir e se eu interfiro ela diz que sou eu quem procura confusão que ela não fez nada. Estou enlouquecendo com essa situação! Sinto me muito mal em conviver com uma pessoa que desprezo, que me desestabiliza emocionalmente, é uma idosa e começa a ter limitações devido a idade, porém é a mãe do meu marido! Seus familiares agiram com ela como você descreveu e muito bem, nunca disseram para ela que o que fazia era maldade, errado. Hoje ela vive em sua própria realidade e valores (engessada) o resto do mundo que não presta e são errados.
    Como foi bom ler ser artigo, apesar de perdida, percebo que se há alguém ruim aqui não sou eu, mesmo assim não sei como agir. O que posso fazer é ratificar seu material. Verdade gente! Existem pessoas assim e eu moro com uma.
    Obrigada, muito obrigada mesmo.

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  3. Juliana, afastar-se é muitas vezes a única solução!

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  4. Lis, obrigada por teu depoimento. Como disse à Juliana, afastar-se é a solução. Vc está vivendo na pele o famoso ditado: uma maçã podre estraga a inteira cesta. Idade não é desculpa.
    Abraços e boa sorte!

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  5. Adriana, fantástico seu texto!
    Tenho mania de ser boazinha demais com as pessoas e acabo não percebendo quando me fazem mal, imagino que é porque não sabem lidar, conversar ou se relacionar, principalmente em situações difíceis. Aprender a tratar quem me maltratou ou maltrata da mesma forma: lição do dia!
    Abraços e obrigado por compartilhar seu pensamento.

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  6. Oi .red., essa questão da bondade é assunto muito importante que irei tratar em outro texto. abraços!

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