15/03/2011

Sonhar com o violentador

Adriana Tanese Nogueira

Apresento uma breve sequência de sonhos de uma mulher de 40 e poucos anos, já fazendo algum tipo de terapia (não sei de que linha e há quanto tempo). Essas mensagens oníricas são extremamente significativas uma vez que refletem o conflito interior entre abrir-se e fechar-se ao processo de individuação que pressiona de dentro.

Sonhei que estava sentada perto dos meus pais (minha mãe já morreu) e um irmão. Chegam dois tios maternos e me dizem que eu estava com cheiro de mulher grávida. Estranhei e neguei, disse que não tinha condições. Eles reafirmaram. Perguntei se estava "Fedendo, suja", foram essas as palavras usadas.


Em continuação, veio outro sonho:

Estava na cozinha da minha casa com meu companheiro. Então, um homen que estava na janela entrou e tentou me violentar. Meu compenheiro não conseguiu reagir. Meu irmão e um amigo da polícia chegaram e me salvaram. Depois, estava numa casa que não reconheço, fechei todas as portas, janelas e cortinas para não ser vista, caso contrário alguém chegaria e me violentaria. Ainda nessa casa, chegou uma moça jovem com o namorado. Deixei-a entrar para me ajudar a limpar  a casa, mas não o seu namorado, pois ele poderia me violentar.

Algumas noites depois:

Sonhei com a casa de meus pais (onde morávamos). O quintal estava bem cuidado, bonito. Disse a meu pai que estava cheio de àrvores. Ele não concordou, respondeu que precisava apenas mudar algumas de lugar, distribuir de outra forma. Depois, perguntei a ele se podia construir uma casa em cima da que já tinha. Ele disse que sim, mas tinha que derrubar uma casa menor que havia construído em cima. Fiquei pensando como a construíria. Ai, o meu pai resolveu mexer no telhado da casa e a casa toda caiu. Minha mãe chegou e ficou muito brava.


Depois, na mesma casa (o telhado já não estava caído), falei com meu pai que tinha que arrumar a fechadura da porta da cozinha, que era fácil, era só trocar, mas ele devia fazer isso e não eu. Aí, ele fez vários consertos mas não trocou a fechadura. Colocou ao invés uma trava. Fiquei furiosa e disse que devia ser trocada mas ele não a trocou. Chamei-o de preguiçoso.

Nota da sonhadora:

"Sempre sonho que a porta dessa casa onde morávamos que não fecha. Ora é a porta da cozinha, ora é a da sala. Tenho trabalhado muito as questões do feminino e do masculino na terapia e sei que algo forte está mudando dentro de mim. Estou me acolhendo e tentando ser amorosa comigo. Estou fragilizada e com medo. Mas sei que tem mudanças que são importantes de se fazer. L."

Alguns elementos que se sobressaem nos sonhos são: a presença dos pais, o estranho violentador, o fechamento de todas as entradas e a casa.

É importante compreender que o sonho oferece uma perspectiva ou uma foto sobre a realidade psicológica que a pessoa está vivendo no momento. A posição consciente, digamos, “oficial” de quem sonha está representada por si própria no sonho. Os demais personagens são outras partes da pessoa, suas dinâmicas psicológicas, elementos de referência, idéias e sentimentos.

A sonhadora desses sonhos demonstra ter uma posição conservadora. Ela está resistindo contra seu processo de individuação (atitude esta que se deverá refletir também na postura que adota numa terapia junguianamente orientada). Seu universo cultural de origem é patriarcal com conotações anti-sexuais. Ela pertence a um mundo que vê masculino e feminino como separados: modelos diferentes e papeis distintos, e mais repetição dos valores do passado ad infinitum. Se trata da reencenação de um paradigma que importa seus modelos de fora. Por este motivo, é proibida a relação com o masculino interno, ou seja: consigo mesma como indivíduo autônomo e creativo. Quando a verdade vem de fora a relação interior cai sob o signo do mal.

Por isso a gravidez, é “suja”. Grávidas “fedem” o cheiro do sexo que deu origem à gestação. Seguindo a perspectiva freudiana, inferimos que a sonhadora pertence àquele âmbito socio-cultural que vê a sexualidade como expressão vulgar da vida humana que uma pessoa do bem evita. O sexo é baixo porque lida com instintos que são inferiores à racionalidade e porque envolves as partes do corpo associadas a funções “sujas” por definição, como urinar e defecar.

Nada a objetar contra a interpretação freudiana. Ela diz uma verdade que todos podemos reconhecer, mas não diz toda a verdade. Passemos agora a um ponto de vista mais profundo e simbólico.

Segundo a linha junguiana, a sexualidade que a sonhadora recusa é o encontro com o seu inconsciente. A dimensão desconhecida em si é aquela que lhe daria uma nova si mesma, o renascimento de si. A abertura para o inconsciente dá início ao caminho de individuação, aquele tornar-se si mesmos que leva à completude e à realização pessoal.

Entretanto, para passar a esta etapa da vida é preciso deixar a casa dos pais, isto é mais simbólico do que material. Significa superar o modelo cultural e de consciência herdado dos pais, o que corresponde à enxergar-se não mais como filha de um sistema, mas como criadora do novo. Essa criação, a gestação do novo, é o que está sendo rechaçada pela sonhadora.

Ela quer uma nova casa. Mas quando não é possível mexer nas fundamentas, ir fundo, vai-se ter que construir uma casa em cima da outra, com o resultado inevitável de que ambas caem. Esta situação está refletida na tendência de muitas pessoas a querer resolver seus problemas psicológicos, existenciais e relacionais SEM analisar o que tem por baixo, sem descontruir os fundamentos que estão nas origens da situação atual. Entretanto, não há como evitar o trabalho braçal de afundar as mãos na terra negra, fria e úmida e trabalhá-la, o que representa a experiência direta de entrar em contato com os próprios conteúdos inconscientes. Não se trata de olhar de cima, pegar com as pinças e analisar assepticamente, mas, literalmente, de enfiar as mãos na massa. Sentir e ser tocados pelo que se sente.

Do ponto de vista de Silvia Montefoschi, a perspectiva muda sutilmente nesse sentido: o encontro amoroso entre masculino e feminino produz um fruto, o filho. O filho já é a relação em si, o terceiro, a ligação entre um e outro (o amor). O masculino da sonhadora está banido da consciência dela. Seu companheiro na vida real não representa seu masculino, porque ele é provavelmente mais um representante do mesmo sistema ao qual ela devota sua fieldade. Para o ego trancado em sua recusa virginal à transformação a semente do novo é vista como uma violação. Do ponto de vista simbólico, o violentador só é violentador porque sua oferta amorosa foi recusada.

Sonhamos com violentadores quando estamos fechados às novas sensações, idéias e sentimentos que surgem do inconsciente, ou seja, de dentro da gente, e muitas vezes “sem sabermos o por quê”. Quanto maior for a resistência do ego a abrir-se maior a força de “ataque” dos motivos inconscientes, exatamente como na física onde para mudar o roteiro de um objeto é preciso aplicar-lhe uma força igual ou superior.

Sabemos, pelo sonho, que a sonhadora está fugindo, “se escondendo” como ela mesma diz. Sua insistência em voltar ao lar paterno, isto é, em permanecer filha dependente de uma lei a ela externa produz o conflito interior que dá à luz a figura do violentador.

A união sexual é a representação simbólica da união dos opostos: masculino e feminino, consciência e inconsciente, pensamento e amor. Somente da junção dos pólos positivo e masculino surge a luz. Da mesma forma, uma nova consciência só é possível pela prévia união dos opostos internos segundo o movimento dialético de tese-antítese-síntese.

Por estar estacada nesse processo, como uma criança presa no canal vaginal, a sonhadora se sente fragilizada e está, naturalmente, com medo. Falta-lhe a consciência (a visão, o entendimento) do que está acontecendo com ela. Não se trata tanto de ser “amorosa” consigo e “acolhedora”, quanto de ter o ponto de vista correto que lança luz sobre a inteira paisagem e permite discernir onde está o caminho. Não é de maternagem que a sonhadora precisa, mas de ousadia e consciente afrodisíaca entrega ao príncipe (princípio) desconhecido (inconsciente). É hora de pôr em discussão, questionar e mudar as regras do jogo.

PS. Essas observações valem somente para a dimensão psicológica. Naquela social, o violentador é simplesmente um criminal.

4 comentários:

  1. Muito forte! É a primeira vez q venho aqui e, sinto q virarei freguesa. Boa noite! Beijos^^

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  2. Olá Samyra! Forte como a vida que precisa ser vivida... ;-)

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  3. Gostei bastante do texto também. Entretanto, acredito que a vida pode ser vivida de uma maneira intensa e forte como você mencionou, mas com doçura e suavidade para que não se torne pesada e amarga. A questão é estabelecer esse equilíbrio (balance).

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  4. Olá Ana, a vida tem com certeza muitos aspectos, mas estamos tratando aqui do que diz respeito ao tema do artigo: sonhos com o violentador.
    Percebo como é difícil saber focar no "mal", no "forte", no "duro". Somente assim é possível criar o equilíbrio que tanto se busca, sabendo encarar de frente uma coisa de cada vez.

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