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FEMINISMO: ESTE PALAVRÃO

Adriana Tanese Nogueira

Mulheres de classe média, comportadas e instruídas, que estão em busca de si mesmas, que querem ser conscientes e equilibradas, espiritualizadas e compreensíveis... estas mulheres temem a palavra "feminismo". As das classes carentes não sabem o que isso significa, e as da classe A talvez achem que seja um conceito ultrapassado, pra quem tem dinheiro. Não sei.

Não percebem essas moças que a antipatia que circunda esta palavra, "feminismo", é uma conveniente mistificação espraiada pelo machismo para que elas permaneçam sob seu controle. Também não se apercebem essas mulheres que é somente graças ao feminismo que elas hoje podem votar, trabalhar e até ler esse post.

Ser feminista não é ser contra os homens. Deus nos guarde! O que faríamos sem homens?? Feminismo é ser contra o machismo, ou seja contra toda forma de organização social (incluindo a família) que coloca a mulher num papel submisso, inferior e desvalorizado. Toda relação injusta em que a mulher sofre como vítima é de interesse do feminismo. Onde há desingualdade de direitos, falta de oportunidades para a mulher, o feminismo entra em cena. O feminismo é o único movimento social e teórico que está ao lado dos direitos das mulheres. Uma mulher deveria ser feminista pelo próprio fato de ser mulher.

Ser homem não quer dizer ser machista. Mesmo muitos homens sendo machistas, o que se condena neles é uma atitude, não necessariamente sua pessoa. É como para o racismo. O racismo é condenável, ponto. Se uma pessoa é racista convencida e age como tal, eu, que sou intolerante ao racismo, a afasto de mim. Se ela estiver disponível a rever seu ponto de vista, porque por exemplo é racista por cultura e não por convicção pessoal, então temos uma chance de relação. O mesmo vale com os homens e seu machismo.

Ser feminista, portanto, é a única forma de encarar a vida das mulheres que diz: não acho certo ter menos direitos do que os homens, ganhar menos do que eles, ter menos oportunidades na sociedade. Não quero andar na rua sentindo medo, ser importunada por qualquer indivíduo só porque este tem um pênis. Não quero ser tratada como um objeto sexual. Não quero um homem mandando em mim com a justificação de que é "homem". Não quero ter medo de um homem só porque ele é fisicamente mais forte do que eu, tem mais dinheiro, e possui o apoio de uma polícia e de uma sociedade conivente. Não quero que ser mãe seja um prejuízo para minha vida pessoal, social e profissional, por tornar-me dependente e/ou pobre, sujeita à chantagem masculina. Quero ter uma maternidade decente e escolhida, quero poder cuidar de meu filho com o reconhecimento que mereço. Não quero ser uma mãe-incubadora, cuja cria é dada para alimentar o sistema com suas creches, escolas, mídia e cultura de massa.

Espiritualizar-se não dispensa do fato que somos seres sociais, seres políticos, cidadãs de um mundo de carne e osso que só pode ser mudado se nós o fizermos mudar. Amar não pode cegar de ver o abuso fora e dentro de casa, as atitudes de rebaixamento constante que homens instruídos e de sucesso (ou ignorantes beberrões) aplicam em suas esposas, colocando-as no rol de filhinhas tontas (ou de prostitutas) para se sentirem superiores a elas. Ser equilibradas não quer dizer se fazer de tontas. Ou sorrir amarelo no lugar de bater o punho na mesa e chutar o balde quando necessário. Até Jesus Cristo mandou todos pro inferno quando estavam fazendo do templo um lugar de aproveitamento comercial!

Ser feminista é solidarizar-se com as mulheres, é ser justas consigo e com as outras no lugar de priorizar se agradável para um homem. É estar ao lado de si mesmas e das meninas e mulheres do futuro. Ser feminista é amar um homem como homem, não como menino mimado que precisa subir nos ombros de sua mulher para se sentir importante. É parar de ser mãe do homem, de nutrir seu sentimento de onipotência, para ser sua mulher companheira, em reciprocidade e igualdade, transparência e alegria. Ser feminista é não se oferecer em liquidação só para não se sentir só.
Ser feminista é uma obrigação moral da mulher que tem e respeita sua dignidade.

Comentários

  1. Muito bom. É tão triste ouvir amigas que criticam as mulheres que queimaram os sutiãs há tantos anos, e as que ainda hoje pregam que precisamos fazer de tudo pra agradar os homens pra termos felicidade conjugal (e, portanto, sermos seres completos e felizes).

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  2. E há mais erros grosseiros: as feministas queriam um equilíbrio na sociedade, e não serem iguais aos homens (machistas). A sociedade continuou machista, pois vejo amigas minhas sofrendo sozinhas na licença-maternidade sem ter o apoio de um grupo que suporte sua causa, ou seja, a ajude a cuidar da casa e da criança enquanto ela não está "produtiva" na sociedade. Elas se sentem afastadas, excluídas e, por incrível que pareça, em plena maternidade, se sentem menos que os outros -- só porque estão longe da engenharia machista da sociedade, que preza todos acabarem os dias trabalhando pra produzir o lucro de alguém!!!

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  3. Exatamente, Juliana, bem falado. A produção é para o lucro de "alguém", em algum ponto da hierarquia social. As mulheres continuam esmagadas nessa máquina economica que as coloca num lugar de inferioridade quando não se encaixam no sistema, isto é quando, por ex., são mães e "não trabalham".

    Os sutiãs foram queimados para serem logo em seguida substituídos por aqueles com copas reforçada e siliconada, e pela cirurgias plásticas...

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  4. Eii Adri...nossa querida orientadora ( eterna) vai gostar disso, hein..lindo, vou partilhar entre a mulherada! :))

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  5. Concordo com a Juliana.
    Nós lutamos tanto mas continuamos em uma sociedade machista, onde uma mulher moderna é obrigada a sacrificar tudo o que é Feminino para conquistar um lugar, ainda inferior, no mercado de trabalho.
    Porquê hoje, uma adolescente não pode almejar ser dona de casa, dedicando-se à educação e ao bem-estar de sua família sem ser chamada de retrógrada ou anti-feminista?
    Porquê somos obrigadas a trabalhar o dia todo (ganhando um terço do salário que os homens ganham para fazer a mesma coisa)para ter dinheiro o suficiente para pagar outra pessoa para criar e educar nossos filhos?
    Porquê que eu recebo dinheiro para limpar a casa dos outros, cozinhar para os outros, cuidar dos filhos dos outros, mas se eu quero me dedicar à minha família, eu não ganho nada, só cara feia do resto da sociedade?
    Será que ninguém mais acha isso absurdo? Só eu?

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  6. Sabrina, já mandei pra ela (Zeca). Ela está bem?

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  7. Adèle, essa falta de liberdade da mulher em escolher seu destino é o que precisamos combater. A questão, porém, é ampla. A sociedade em que vivemos é capitalismo, funciona na base da produção, ou melhor da super-produção (se não não haveria lucro). Quando a mulher se inseriu no mercado de trabalho, entrou nesse mecanismo esmagador

    Por outro lado, é preciso dar às mulheres CONDIÇÕES para que escolham seu destino. Informação, oportunidades, abertura social e mental.

    Quanto à sua pergunta: todos achamos absurdo.

    Abraços

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  8. Também acho absurdo, Adèle, e eu sofri na pele (mais) esse preconceito. É uma luta constante. Mandei o link deste texto pra quase toda minha lista de contatos. Que aproveitem bem pra refletir!

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  9. Adriana,

    Há algum tempo já acompanho, com prazer, o seu blog. E é com muita alegria que passo por aqui para agradecer-lhe pela cumplicidade permitida, e claro, em data festiva, convidar você para seguir o Caminhar & Ruminar, que ontem completou o seu primeiro ano de vida.

    A festa será maior com você, com a sua presença e amizade que puder emprestar! Tenha certeza, significa muito!

    Receba o meu fraternal abraço!

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  10. Olá Gilmar! Gostei de seu blog. Parabéns. Um grande abraço para você e tudo de bom!

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