07/04/2011

Os "te amo" que se perdem ao vento

Adriana Tanese Nogueira


Imaginemos a situação em que uma pessoa se sente, no fundo de si, em dívida para com outra. A dívida nasce da percepção de não estar dando à outra o que esta merece, ou não estar retornando o que se recebeu, ou, enfim, por não cumprir o que se prometeu. Esta outra pessoa é sua esposa (ou seu marido). O "te amo" funciona como uma forma de pedir desculpas, manter a relação e... se assegurar um pouco de paz de consciência.

Mas, se a pessoa em questão se acomodar na falação do "te amo", suas intenções originais escorregam rapidamente para seu lado sombrio. Quanto mais a situação permanecer inalterada, ou seja, o "te amo" continuar gerando "conforto emocional" mesmo que por uns momentos, mais difícil será passar à fase de demonstrar o amor com os fatos. É desta forma que se arrastam relacionamentos que provocam confusões: coração e mente se contradizem.

Pessoas ingênuas e sonhadoras - como muitos nos seus primeiros 30-40 anos de vida (dependendo de cada um) - tendem a acreditar nas palavras. É normal quando elas correspondem ao que se sente. No início de uma relação, a emoção do encontro toma o controle de todos os aspectos, e a falta de conhecimento da outra pessoa, o qual só vem com a convivência, induz a dar crédito ao que se ouve. Afinal, só se ama quando se confia.

Com o passar do tempo, pode-se descobrir que há uma cisão entre as palavras que a pessoa emite e os fatos que ela apresenta. Ou, ainda, entre o sentimento que se sente dentro por ela e os fatos que dela se observam O "te amo" que expressa uma verdade do sentimento não necessariamente traduz uma verdade de vida. Uma coisa é sentir e ser sinceros com o que se sente (muita gente nem isso consegue fazer), outra coisa, é transformar esse sentir numa realidade de vida.

A trava que ocorre aqui é aquela que uma pessoa encontra quando descobre que para manter uma relação de amor ela precisa assumir algumas mudanças em si e em seus comportamentos. E, simplesmente, no fundo, ela não quer. Não quer se dar ao trabalho. Porque tudo isso custa esforço, subverte hábitos, questiona crenças, arranca do comodismo.

Amar é um trabalho. Significa que uma relação (de verdade) não pode ser usada como um meio de gratificação pessoal. Para isso há parques diversão, drogas, filmes, viagens, carros poderosos e todo um rol de opções que servem como muletas para aguentar a dor do viver. O amor não cai nesta categoria. Talvez é por isso que tantas pessoas hoje "ficam". Enquanto muitas outras enchem o ar à sua volta de "te amos", que se assemelham às produções áreas espontâneas do corpo, com a diferença que cheiram melhor. Entretanto, ambas possuem o mesmo "valor de mercado": zero.

8 comentários:

  1. Adriana, gostei bastante desse post, pois identifiquei a experiência que tive em meu antigo casamento. Ouvia "eu te amo" até como resposta a um obrigada que eu dava quando ele me passava o sal à mesa. Mas na hora do vamos ver, em que o trabalho de amor tinha que ter resultado, como ficar ao meu lado quando a mãe dele me chamava de otária, isso não acontecia... Obrigada!

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  2. Pois é, Juliana, é uma reflexão que senti necessidade de fazer após seu comentário ao outro post :-) Situação esta super comum...
    Abração!

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  3. Eu não fazia ideia de que era assim tão comum. Obrigada por desenvolver o assunto! Ajudou bastante!

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  4. Querida,vc está conseguindo em tão breve tempo esclarecer indagações que sempre procurei elucidar sem sucesso! Que bom ter achado seu blog. bjsssss

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  5. Eita! Que flechada levei desse texto!!! Ave Marias! Adoraria poder discordar, mas... Ufa!!!! Oxalá eu sobre-viva!!!!! Grato pela fertilização de idéias afiadíssimas!

    Miguel Garcia

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  6. Ahahah, Miguel, legal seu comentário.
    Obrigada.

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