27/04/2011

Reflexões sobre o discurso de Péricles a respeito da democracia (461 aC)

Adriana Tanese Nogueira

"Aqui em Atenas, nós fazemos assim:
Aqui o nosso governo favorece a muitos, em vez de alguns, a isso chamamos: democracia.

Aqui em Atenas nós fazemos assim:
As leis asseguram justiça igual para todos nos seus litígios privados, mas nunca ignora os méritos da questão. Quando um cidadão se distingue, então, será, em detrimento de outros, chamados a servir ao Estado, mas não como um ato de privilégio, e sim como uma recompensa ao mérito e a pobreza não é um impedimento para isto.


Aqui em Atenas nós fazemos assim:
A liberdade que desfrutamos se estende também à vida diária; nós não suspeitamos uns dos outros e não nos aborrecemos nunca com os nossos próximos, se lhes agrada viver a sua maneira. Somos livres, livres para viver como nós gostamos e mesmo assim, ainda estamos sempre prontos para enfrentar qualquer perigo. Um cidadão ateniense não descuida dos assuntos públicos, mesmo quando atende aos seus assuntos privados, mas sobretudo não utiliza do expediente público para resolver seus assuntos particulares, pessoais.

Aqui em Atenas nós fazemos assim:
Nós temos sido ensinados a respeitar o poder judicial, e nós fomos ensinados a respeitar as leis e não esquecer nunca que devemos proteger as vítimas. E também fomos ensinados a observar as leis, mesmo as não escritas mas que são universalizadas pela justiça e bom senso.

Aqui em Atenas fazemos assim:
Um homem que não se preocupa com o Estado, nós não o consideramos inofensivo, mas sim inútil, e poucos são incapazes de dar a vida ao Estado e aqui em Atenas nós podemos julgá-lo. Nós não consideramos a discussão como um obstáculo no caminho da democracia. Nós acreditamos que a felicidade é fruto da liberdade, mas a liberdade é apenas o fruto do valor dessa mesma liberdade. Em suma, eu proclamo que de Atenas é a escola da Hélade, e que cada ateniense cresce desenvolvendo em si uma feliz versatilidade: a fé em si mesmo, e o preparo para enfrentar qualquer situação e é por isso que nossa cidade está aberta para o mundo e nós não expulsamos nunca nenhum estrangeiro.

Aqui em Atenas nós fazemos assim…
Péricles – Discurso aos atenienses, 461 a.C."

E aqui no Brasil como fazemos? Aqui nessa empresa? Aqui nessa comunidade? Nesse bairro? Nessa família? Aqui dentro de mim?

Dois mil e quinhentos anos após esse discurso ter sido proferido ele soa tão inovador e provocatório, quanto o ideal ser alcançado. Proponho refletir sobre alguns dos tópicos mencionados por Péricles, aplicando-os à vida privada e interior de cada um.

Em que medida privilegiamos o mérito? Do ponto de vista externo, isso significa: em que medida somos cúmplices do abuso, do privilegiar quem não merece e do desclassificar quem merece em nome do nosso próprio medo, do fingimento e da omissão? No que diz respeito à interioridade, essa questão aponta para o que priorizamos no nosso dia-a-dia. Quais situações e pessoas recebem o privilégio do nosso tempo, das nossas energia, devoção e abertura? São ela merecedoras do pedaço de vida que lhes dedicamos?

Permitimo-nos a liberdade de ser e a permitimos aos outros? Externamente: fofocas, julgamento, boicotes e omissões são uma forma de repressão. Usamos desses meios para promover o bem ou para nivelar os outros ao nosso mesmo patamar de auto-censura? Somente julga quem amarra a si mesmo aos estereótipos que exige que os outros assumam. A pessoa livre não se incomoda com a expressão livre do outro (a menos, claro que o outro a esteja prejudicando).

Somos cidadãos? Cidadão é aquela pessoa que considera a rua uma estensão de sua casa, no sentido que vai cuidar da coisa pública como cuidaria da privada. Cidadão é aquele que não se aproveita do "que é de todos e de ninguém", que não joga lixo na rua, que não atrapalha a vida de seu vizinho, que exige qualidade naquilo que consome, que demanda serviços eficiêntes, que se interessa pelo que acontece fora de sua casa e faz de toda oportunidade em que estiver no mundo um momento educacional, onde dá o exemplo do que é ser uma pessoa de bem.

Obviamente, um cidadão obedece a lei. Se não gostar dela, tentará mudá-la através dos meios legais. Ele tem claro a distinção entre assuntos públicos e privados. Este é atualmente um dos maiores desafios na cultura brasileira. Muitas pessoas tratam a rua como se fosse deles, não para dela cuidar mas para dela usufruir, como se fosse uma estensão de sua sala de estar e como se elas fossem as únicas moradoras do bairro. Para esses indivíduos falta a consciência do que é público e do que é privado, suas mentes parecem embaçadas por seus interesses "umbilicais".

Justamente, diz Péricles, uma pessoa que não se preocupa com o bem comum é uma inútil. Aparentemente, indivíduos assim eram raros em Atenas, deve ser por isso que a produção filosófica e cultural dessa pequena cidade continua sendo um farol que continua brilhando após vintecinco séculos. A chave desse envolvimento está magnifica e simplesmente expressa na frase: "Nós não consideramos a discussão como um obstáculo no caminho da democracia." A palavra "discussão" tem na cultura brasileira conotação negativa. Não se discute, se "conversa". A discussão é caracterizada por calor das emoções, pela força das palavras... e, acredito eu, numa sociedade com tão longa história de repressão, discussão acalorada deve trazer à tona o medo de facas e golpes. Vence o poder do mais forte.

Numa discussão de verdade, vence o poder da melhor argumentação. Não é quem fala que conta, nem quantos revólveres e poder político tem. É seu argumento que está em foco. Naturalmente, para participar de uma discussão dessas é preciso que os ouvintes saibam pensar, ter raciocínio e acompanhar a reflexão. As discussões atenienses eram, portanto, uma escola para o pensamento livre. Estimulavam a mente a ir além, ousando questionar e derrubar aparências e falsas razões. 

De grande valor psicológico é a afirmação de Péricles segundo a qual a felicidade é fruto da liberdade. A felicidade, de fato, é indissociável da vida digna, que é aquela na qual podemos expressar nossas aptidões e potencialidades, a qual requer um mínimo de condições materiais. A felicidade é também o fruto da liberdade interior. Saber romper estereótipos aprendidos na infância é indispensável para perceber em si e na vida novos caminhos, novas interpretações e cenários possíveis.

Enfim, muito bem verbalizada é a idéia da felicidade versátil, que sabe se adpatar às necessidades do momento. Bonita a imagem dessa auto-confiança que está alerta, capaz de reconhecer quando é hora de enfrentar o perigo como também capaz de gozar a paz em plenitude, sem 'paranóias'. A abertura para o estrangeiro é o resultado de um povo auto-confiante. Em linguagem psicológica, a abertura a idéias e experiências novas é possível para a pessoa que confia em suas capacidades de lidar com o que vier, que não precisa se enclausurar em si mesma ou em sua família e evitar aquelas pessoas e situações que questionariam as frágeis verdades sobre as quais construiram suas vidas.

5 comentários:

  1. Adriana, gostei muito deste texto. Sou cientista política e já dei aula do tema do post. Há um belo livro de um profossor gaúcho, chama-se "Origens do discurso democrático". Nas aulas, os alunos começam detestando, achando que vai ter aulas de como desviar verbas de hospitais públicos (!) e depois descobrem que política não é nada disso. Aprendem a diferença entre política e "politicagem", e acabam se apaixonando. Democracia cansa? Sim, cansa. Mas vale totalmente a pena ver um projeto coletivo tomar forma; conhecer as pessoas e poder mudar formas de pensar e derrubar preconceitos. Sentir a energia coletiva da mudança é muito bom. Valeu muito este post!

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  2. Correção: "...os alunos...achando que VÃO ter aulas..." pega mal pra um professor deixar escrito assim, hein?! rsrs

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  3. Juliana, que bom que há dessas atividades. Política é o cerne de uma sociedade. Há muito mal exemplo, mas acomodar-se nisso também é uma forma de evitar de fazer aquele esforço que toda democracia requer. Arregaçar as (próprias) mangas e sair da zona de conforto e se dar ao trabalho de construir o país que se quer.

    Sim, sentir a energia coletiva da mudança quando se trabalha com um grupo de pessoas que romperam preconceitos é uma sensação maravilhosa!

    Obrigada pela dica do livro :-)

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  4. Esse post ajudou no meu trabalho de história... obrigada :)

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