30/03/2015

ALCOOLISMO, CULPA E CUMPLICIDADE


Beber é um delírio do ego, uma (ilusória) auto-afirmação para exorcisar a dor interior. O alcóol amortiza a percepção de si e da realidade, afastando assim sentimentos indesejáveis. Solidão, dúvida e angústia são calados um gole após o outro.

Sabemos o quanto essa "solução" é falha. Entretanto, ela é rápida e barata. “Barata” do ponto de vista psicológico: não requer o trabalho interior de se conhecer e se assumir. Beber anula a tensão, dissolve a inquietação interior.

É evidente que beber é uma declaração de fraqueza. Somente quem não aguenta enxergar usa a bebida no lugar da terapia. E é por isso que o dependente químico tem dó de si mesmo: ele se sente um coitado. Toda a carapuça que usa quando não está sob o efeito direto do álcool (se bem que sobriedade mesmo não existe mais após um tempo porque seu sangue passa a estar constantemente intoxicado pelo álcool) é uma fachada. Ele não é tão forte, poderoso e independente como gostaria. Ele é um dependente e o sabe. Enquanto tal, ele é uma vítima do álcool, apesar de ninguém obrigá-lo a levantar o cotovelo para que engula mais um gole.

É humilhante para um homem adulto, que muitas vezes tem um bom emprego e é respeitado em seu trabalho perceber-se fraco e culpado. E ele tem vergonha de si. Não se pode admirar um bêbado. Os que convivem com ele perceberão a mesma coisa (ninguém é cego) ma se fingem por desconforto ou porque são iguais a ele. Por "amor", se tornarão seus cúmplices.

É como ter um dinossauro na sala e arranjar os móveis e os hábitos da família ao seu redor como se nada fosse, como se fosse normal. Mas não é normal. De vez em quando o bicho berra, quebra alguma coisa, transtorna a família inteira, destrói a paz... Depois adormece por um pouco e as coisas se "acalmam". Quando o alcóolatra desperta da crise alcóolica tem-se dó dele, ele "não sabia o que fazia". Os que o amam preferem se calar pelo mesmo motivo pelo qual o alcóolatra bebe: por fraqueza. Achando que ele precisa de "amor", se sentem mal se enfiarem a faca na ferida e trazerem à tona o mal que ele causou. Assim, os que o alcóolatra machuca envergonhados recuam, se calam, escondem a si próprios a própria ferida, que com o tempo supura.

O dependente também vive no faz de conta que nada aconteceu (quem aguentaria se enxergar estragando a vida dos que mais ama?). Nas poucas ocasiões em que ele assume o que fez, sua justificativa é que ele “só” reagiu ao que alguém fez. E o assunto está fechado. Ninguém o contradiz, além de dó, tem-se medo dele e vergonha de se submeter aos abusos do “amado” alcoólatra.

O sentimento de culpa é um dos ingredientes essenciais que cimentam estas relações doentias. A culpa cresce na sombra do copo. Ser alcóltra não quer dizer ser burro e a consciência do que se faz e se suporte assombra, produzindo o sentimento de culpa. É extramemente doloroso perceber que se está fazendo o mal a quem se ama e é doloros ver-se incapaz de romper a cadeia violenta, permanecendo num casamento abusivo e criando filhos num lar disfuncional.

Assim o círculo vicioso se estabelece. Os alcoólicos continuam bebendo porque têm cúmplices: esposas, filhos, mães e pais, irmãos e irmãs, amigos e vizinhos. Sobrevivem graças ao pacto implícito: a verdade deve ser calada. Ninguém tem coragem de apontar o dedo e denunciar que o rei está nu, peladão e, ainda por cima, é feio.

Convive com um alcoólico? Precisa de ajuda?
Veja o link à sua esquerda: Grupo de suporte a famílias de alcoólicos. Participe!

Adriana Tanese Nogueira, filósofa, psicanalista, life coach, educadora perinatal, autora. www.adrianatanesenogueira.org

9 comentários:

  1. Essa parte da cumplicidade da família, originária da fraqueza, talvez seja a pior parte, porque é o fundamento e o combustível da doença do alcoolismo.

    Eu tenho enfrentado muitas dificuldades em tocar no assunto com os "cúmplices" familiares e é muito triste perceber que eles não querem nem discutir, estão "confortáveis", à sua maneira, com a ignorância da questão, com a dinâmica das coisas como são...

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  2. Sabe, é cômodo ter um bode expiatório em família...

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  3. eu tenho um marido alcolatra e não sei mais o que eu devo fazer para ajuda lo sair dessa

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    1. Leia o meu artigo O que fazer com um marido alcoólatra?

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  4. No meu caso, o problema é meu pai e minha mãe.
    Desde que me entendo por gente eles bebem, brigam, se agridem, quebram a casa.
    Por muitos anos isso me afetou, eu fui o pai e a mãe deles, e eles meus filhos.
    Fiz terapia por alguns anos e cheguei a conclusão de que eu só posso ir até onde eles me permitem.
    Me dói ver a situação que eles ficam, me dói ver o impacto que isso causa no meu irmão mais novo que ainda mora com eles, me dói ver que eles sofrem também com tudo isso.
    Eles não tem uma relação de marido e mulher, eles não se curtem, não passeiam.
    O final de semana deles se resume a beber e brigar.
    São muitas questões do passado mal resolvidas, minha mãe já tentou fazer terapia, mas não suportou reviver todas as suas "questões". Meu pai nem cogita, porque afinal o "problema" é a minha mãe.
    E assim eles vão, meu irmão mais novo também faz terapia, e a psicologa falou a mesma coisa, que nós já fizemos todo o possível, agora depende deles.
    Não sei se isso é o certo, mas também não sabemos mais para onde ir.
    Obrigada.
    C.V.D.

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    1. CVD, há vezes em que a solução é o único caminho que se apresenta. Uma vez que vc já fez tudo o que podia... uma vez que percebeu que depende deles... precisa parar e aguentar. Quem sabe mais pra frente descobre mais algum caminho?

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  5. Oi Doutora, Bom dia! O meu caso, é com meu pai. Ele bebe desde q nasci, tenho 33 anos, e uma parte desses anos foi tendoq convver com o alcoolismo dele. meus avos paternos me criaram, e ele morava c meus avos tbm. Bebia e batia no meu avo, dava murros nos vidros da janelas e se cortava todo, ..,nossa rua era visada de muitos escandalos por isso, e a vizinhança mais proxima assistia o espetaculo de suas janelas..eu logo q percebia a pancadaria me escondia em baixo da cama ateh tudo parar.
    Com o passar do tempo,meu avo faleçeu, e eu fui conheçer minha mae q morava em SP, ela conta q deixou meu pai por causa do alcoolismo e ela tinha ficado diabetica, tendo q viver com tres agulhadas com insulinas ao dia. Meu pai continuou alcoolatra e uma irma dele, tentou interar ele, ele fugiu da clinica, tentou injeção indicapor um medico da pra repudiar o aloolcol, custava 1500 o medicamento de unica dose,.. tentou bastante coisas por ele pra tentar ajuda-lo. Nada resolveu, e ele nao se esforça em ter sua dignidade e moral.
    Hoje em dia, ele é aposentado, por conta do alcool, e tem essa irma como a tutora dele para administrar a renda dele. Ela pediu q eu viesse de SP pra motiva-lo a mais uma tentativa de parar com o alcool ou maneirar um pouco e eu como unica filha dele vim , com o coração na mao, pq tenho um filho de 10 anos agora, e estava mantendo essa realidade de alcolismo do meu pai longe dele pq vivi isso na infancia e isso prejudica mto o crescimento emocionalda gente. Tenho tentando melhorar a auto-estima dele, mas ele se entregou. Elee bebe, embora nao sendo mais agressivo quando eu era criança, ele mija na roupa, e em qualquer lugar q deita, fica tudo mijado,todas as vezes bebado, e isso me desanima demais. Minha vonta de era voltar pra SP e retomar minha vida la com meu filho e continuar a lutar pelo futuro do meu filho, mas agora tenho q ser mae do meu pai tbm, e ele nem se quer foi mesmo um pai na minha infancia pra eu ter essa extrutura pra passar de volta. Eu tento, mas nao sou a mulher maravilha, e ele mesmo diz q pra ele tanto faz a vida. Q nao ta nem ai, nao quer tratamento clinico, mas quer ficar nessa vida de beber, viver mijado,e acabar com a auto-estima minha tbm, pq eu fico desmotivada.
    A irma dele, q é tutora diz nao acreditar mais nem em tratamento clinico pra ele, e ateh traz dinheiro as vezes pra ele beber mesmo, ja q é a unica diversao dele. Mas isso ela tbm fez com a outra irma alcoolatra q veio a faleçer de cirrose. Trazia dinheiro pra ela beber, ateh q faleçeu,mas rendeu um seguro de vida pra irma q dava bebida pra ela. Alem do alcoolismo do meu pai, estou tendoq lidar tbm, com a tia golpista q estah aproveitando da fragilidade do meu pai, administra a aposentadoria dele de forma nao muito clara e transparente do q ela faz do dinheiro dele. E ela q sempre correu atras de clinicas pra ele,quando eu era criança, e ele era funcionario publico,.. hoje acredito q isso ocorria com algum beneficio fincanceiro q impulsionava ela a ser, aparentementealguem preocupada com meu pai, mas enfim.. Seria errado se eu deixar isso tudo pra la e ir viver minha vida em paz longe dessa situação triste e suja? Sinto q estou coma alma triste por querer resolver pelo meu pai da melhor forma possivel, mas nem ele mesmo quer a forma ideal pra viver uma vida normal. ele diz ser um caso perdido e q bebe mesmo pra ver s morre mais rapido. q nao ta nem ai se a irma rouba ele,ou o q ela faz. Q tanto faz a agua correr pra cima ou pra baixo, q ele ja se molhou. E muito dificil essa situação, eu confesso que tenho medo de perder alegria de viver minha vida por esperar q meu pai saia do fundo do poço enquanto perdia tempo com ele, pq isso é de anos q tentaram por ele, eu vim tentar minha tentativa diante do q esta ao meu alcançe, mas pareço estar perdendo tempo e animo com ele, ao inves de investir tempo e dedicação por quem quer viver, e tem muito a conquistar ainda,como meu filho. Obrigada pela atençao, gostaria de sugestoes nesse meu caso.

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    1. Leia minha resposta abaixo. Não é errado vc querer fazer sua vida, é INDISPENSÁVEL.

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  6. E quando a família está ciente de tudo que acontece mas não sabe mais o que fazer? Porque nem sempre os familiares apoiam e deixam quieto. O que fazer quando já tentou conversar sobre o assunto, quando já tentou incentivar a pessoa a buscar ajuda e tratamento? Quando já deixou claro que aquele comportamento da pessoa está fazendo mal aos familiares mas a pessoa não está nem aí? Só não vou embora de casa porque ainda não tenho condições, não tenho pra onde ir... A verdade nua e crua é que alcoólatras são pessoas más, porque se a pessoa não assume que bebe e nem quer mudar é maldade dela, e a única solução é a família se afastar e seguir sua vida, que é o que farei assim que tiver condições de ter meu canto.

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