22/05/2011

Interpretação simbólica do filme Cisne Negro: a muda do feminino

Adriana Tanese Nogueira

O filme americano de 2010, Cisne Negro, retrata o doloroso processo interior de transformação feminina no qual a mocinha inocente e delicada confronta sua sombra, a introjeta, corta o cortão umbilical da mãe e, finalmente, morre. Enquanto mocinha frágil ela há de morrer. Só assim poderá tornar-se mulher (forte).

Como na maior parte da cinematografia americana, a simbologia é materializada em situações concretas, de modo que morte é morte, sangue é sangue, sexo é sexo. O filme é um thriller psicológico cujo significado simbólico vale a pena desvendar, porque é de grande atualidade. De fato, não é acaso que o Lago dos Cisne tenha se tornado, na época contemporânea, numa espécie de horror ao feminino.

Uma bailarina (magérrima, diga-se de passagem) sonha consigo mesma como sendo Odette, a princesa que, na história do Lago dos Cisnes, é transformada pelo pérfido mago Rothbart num cisne. Ao acordar, ela espera que o sonho seja uma premonição do papel que deseja
conquistar como a rainha dos cisnes na companhia de balê da qual faz parte. De fato, ela é uma excelente bailarina, mas tem um handicap: se ela bem personifica o cisne branco com sua fragilidade, vulnerabilidade e delicadeza, tem dificuldade com o papel do cisne negro. Onde estão nela as qualidades desse personagem que ela deveria expressar na dança?

Adormecidas. Ou reprimidas.

Nina, a protagonista do filme vive com a mãe. Estamos de frente a mais uma versão do mito de Perséfone, a jovem arracanda da mãe Deméter e arrastada para o mundo dos mortos (ou invisível) por Hades. O masculino aparece nesta história (através do diretor que incita a moça a botar para fora seu outro lado), assim como no mito, como quem separa, de forma brutal, mãe e filha. O que significa isso? 

O idilíaco mundo materno feito da simbiose inevitável se quebra quando a criança deixa de ser tal e entra na adolescência. É nesta fase da vida que afloram duas coisas: a sexualidade e a individualidade (distinta da família). As duas dimensões são, simbolicamente, aspectos de uma única metamórfose.

Sexualidade no plano físico é uma característica que pertence ao indivíduo adulto. Crianças são "asexuadas" (em sentido amplo, não freudiano), adultos não. Ao alcançar e fazer uso da própria sexualidade uma pessoa deixa de ser simplesmente "filha". A rotura de papeis pode ser dolorosa se não for compreendida como processo evolutivo de ambas as partes, mãe e filha. Se houver uma relação simbiótica inconsciente e resistente (o que pode acontecer mesmo quando a pessoa conscientemente rejeita a mãe ou tomou distância dela) e se a filha recalcitrar em cumprir a passagem para uma nova etapa psicológica, a transição será complicada.

Nina representa o modelo perfeito de tantas mulheres (e homens) que querem ser perfeitas: perfeitamentes boas, gentis, amáveis. Falam em voz baixa, não batem de frente, pedem licença e desculpas, são educadas, evitam coisas "fortes e feias", etc. etc. Trabalhadoras e perseverantes, sua rotina de vida segue um trilho imperioso. São essas, moças (e moços) que se assustam com facilidade, que "não conhecem" inveja, que sorriem quando poderiam ou fariam melhor a gritar. São pessoas que querem, sinceramente, fazer o certo.

Nesse mundo delicado como um quarto de bebê onde se fala sempre baixinho, as cortinhas combinam com o cobertor, os lencinhos estão no criado-mudo bem alinhados e pela janela entra um fio de sol, neste espaço inocente e cândido falta... o quê? Faltam as outras cores da vida. Ele é um mundo para bebês e mamães, não para mulheres, e certamente dele está ausente o masculino. Masculino que iria fazer barulho, quebrar o equilíbrio e com isso trazer conflito e movimento.

A fidelidade da criança à mãe consiste em permanecer criança, o que na adolescência se manifesta como: rejeição da sexualidade no plano físico-psicológico e simbólico-psicológico.

No primeiro caso, a pessoa pode fazer sexo (até porque qualquer mamífero sabe como fazê-lo) mas a ele não se entrega. Temos um exército de mulheres casadas que mantém essa ambiguidade levando seus maridos a se perguntarem o que há de errado nelas. O que acontece é que: ou elas são mocinhas, psicologicamente ainda na fase da puberdade, ou elas estão, na verdade, exercendo o papel de mãe de seus esposos (que delas precisam). Ser mulher sexuada significa ser uma mulher que assumiu o poder da sexualidade em sua personalidade. Alguém que conhece sensualidade, mas também autonomia. Ela tem iniciativa e está à vontade com o que sente. Precisamos reconhecer que, culturalmente, as mulheres têm sido discriminadas e condenadas ao papel da menina boa. Boa e passiva. Não pega bem uma mulher estar no controle da própria sexualidade, no sentido de saber e decidir o que ela quer e quando quer.

Do ponto de vista simbólico-psicológico, aceitar a sexualidade significa ter-se como ser independente. Equivale a violar o tabú do incesto que vinculava a criança à obediência a um sistema de valores dados pelas autoridades externas (pais). O encontro consigo mesmo é o caminho rumo a decoberta de quem se é e, portanto, daquilo que não se é. Ou vice-versa, como muitas vezes ocorre, significa reconhecer o que não se quer para chegar ao que se quer. Este processo desloca a fidelidade dos pais para si próprios, da mentalidade, expectativas e valores tradicionais para os que na alquimia interna, conflitiva e nem sempre fácil, serão criados. Recusar a sexualidade, nesse sentido, é recusar tornar-se psicologicamente adultos.

A fidelidade ao sistema de valores vindos de fora produz a cisão entre cisne branco e negro. O branco é "branco" porque reflete a lealdade ao modelo, cuja negação é incorporada pelo "negro". Quando uma pessoa fica estagnada no espaço limitado do cisne branco ela está utilizando no máximo um terço de seu potencial como pessoa, tendo mutilado uma parte de si e fechado as portas para a fonte interna (o inconsciente). O caminho de cura passa pela recuperação do que foi condenado, isto é pela aceitação da sombra, pelo reconhecimento de seu valor e pela sua introjeção para que haja unidade interna da personalidade. Somente em seguida é possível o encontro com o inconsciente, veiculado pelo masculino.

O Cisne Negro é a história de uma mulher que precisa fazer as contas consigo mesma. Seu papel na vida como cisne branco chegou ao fim. Ela carrega um conflito interno que, como acontece na vida real, por não se transformar em consciência, se materializa na realidade concreta. No filme como na vida, realidade e fantasia acabam por confundir-se. Toda problemática não conscientizada perturba a visão colorindo o real de cores artificiais qalterando a percepção da realidade. É por isso que o filme é um thriller psicológico, onde não se entende se as visões e experiências que a protagonista tem são fruto de sua fantasia ou se de fato ocorreram. O conflito interior de Nina triunfa nos eventos que levam à sua morte física.

Concluindo, o Cisne Negro encena a muda psicológica do feminino. Sua evolução é, no filme como na história humana atual necessária. Somente encontrando seu outro lado, negado e condenado, poderá haver renascimento num novo nível de consciência e de humanidade. A problemática desse filme é atual porque a dependência afetiva interior da mãe está na base do processo de castração psicológica em ambos os filhos, independente do sexo deles.

16 comentários:

  1. Puxa! Que pancada esse texto... "pancada" no bom sentido, é claro, porque a temática é forte.

    Adriana, você pensa que as mulheres que têm uma sexualidade "ultraexplícita" (tipo: Carmen Elektra, etc) também são consequencia de um problema na fase de muda do feminino?

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  2. Pode ser, Juliana. Tem que olhar de perto a situação e o histórico da pessoa, mas o exacerbamento da sexualidade lembra o uso de drogas, um misto de afronta, desafio e grito de socorro.

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  5. Muito interessante a leitura psicológica do filme. Fico aqui pensando.. se a ruptura desse papel mãe-filha é um passo necessário para o amadurecimento da filha, o que dizer da importância disso para a mãe? Quero dizer, para a criança, ser acalentada, nutrida e bem orientada é de extrema importância para o seu desenvolvimento, tanto biológica quanto psicológicamente falando. Mas e para a mãe? Ela já não é filha, seu (suposto)amadurecimento perpassou pelo encontro com o seu lado 'b', com sua sexualidade, com o masculino, ela riu e chorou e seguiu adiante. Biologicamente eu entendo a função da mãe mas, psicologicamente o que ela ganha com isso? Se o quarto do bebê é um mundinho de silêncio e tons pastéis, sem o masculino, no que a mulher-mãe se transforma ali naquele ambiente? Para mim esta imagem também não parece um retrato muito fiel do feminino. Para a mulher já amadurecida, qual é o ganho real em se dedicar 15 ou 20 anos à 'cria'? Parece que é retornar à um mundo já superado. Bem, eu sempre vi a mãe antes de mais nada, como uma tutora, talvés seria como perguntar o que um professor ganha psicologicamente ensinado. Será que as mães não são no final das contas assim tão autônomas, na verdade não foi totalmente superada a simbiose com esse papel mãe-filho, sendo a maternidade só mais um passo rumo ao amadurecimento? Indo mais adiante, é por isso que existe a menopausa, porque a maternidade simplesmente não é mais necessária a partir daí? Ju
    (o navegador não reconheceu algumas palavras e 'corrigiu', tive que editar, 2x :)

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  6. Olá Liana,

    vamos ver se entendi o que escreveu...
    Ser biologicamente mãe não é igual a ser mãe psicologicamente, o que requer um amadurecimento que nem toda mulher tem. A maternidade material oportuniza esse desenvolvimento - que nem sempre tem sucesso.

    O que seria o "lado b"?
    Encontrar-se com a sexualidade e com o homem não é igual a encontrar-se com seu masculino interior e sua individualidade. Nada a ver uma coisa com a outra, tanto é que vemos tonaledas de garotinha tendo relações com homens e nem por isso seriam mulheres "maduras".

    A manutenção do "mundinho do bebê em cores pastéis" permite à mulher manter-se psicologicamente identificada com sua própria infantilidade. O mundo lá fora, o mundo adulto assusta. O do bebê é seguro e calmo e nele ela pode se sentir "alguém" sem se sentir ameaçada. Logo é um mundo infantil.

    Dedicar-se à cria = maternidade. Esta é uma experiência que pode ser tão fantástica e nutriente para mente, corpo e alma como destrutiva e avassaladora. Depende de vários fatores. É possível crescer muito através da maternidade. O que não é possível é evitar o trabalho duro, braçal e contínuo que ela implica. Mas isso também faz parte do aprendizado. Só estando dentro e por vontade própria que é possível aprender e entender.

    Liana, me parece que vc sobrepõe psicologia e fisiologia. Se é verdade que certamente as fases da vida sexual da mulher tem significados psicológicos, a psicologia dela não se reduz a isso. Seria como dizer que uma pessoa velha é sábia, só porque envelheceu.

    Abraços!

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  7. Mais uma vez você pôs em palavras tudo o que eu sentia ao ver o filme!
    Parabéns!

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  8. Muito interessante essa discussão. Mas me sinto ainda curiosa em desenvolver o pensamento que a Liana trouxe, uma vez que para mim já está clara a função psicológica de todo esse processo para os filhos, mas a perspectiva em relação ao processo da mãe é a que ainda não consegui "resolver"

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  9. O que vc não conseguiu resolver, Nóza? O que significa a maternidade para a mulher?

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  10. Por aí...pq a maternidade acaba envolvendo, na prática, uma quase negação da sexualidade, na medida em que as recém mães dedicam toda a sua energia para essa cria, dentro de um contexto "imaculado", de tons pastel e etc, onde ela passa a imagem de uma quase virgem santa, após ter conquistado a maturidade e ter desenvolvido a sexualidade. Seria um retorno psicológico à essa condição "virginal"? E pq acaba sendo tão dificil voltar a ser aquele individuo independente, e muitas mulheres acabam usando os filhos como escudo no meio do relacionamento com o marido ou mesmo com a sociedade em geral?

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  11. Porque no fundo são meninas. Eram meninas e continuam meninas. Usam a maternidade para se proteger do ser mulher, cuja condição implica relacionar-se com o outro, o homem. Identificam-se com seu bebê porque elas não cresceram. Fizeram sexo (demonstrado na existência do bebê) mas não amadureceram para a condição de mulher...

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  12. Faz sentido, porque vejo isso acontecer muito com mulheres que casaram cedo, e na maioria das vezes, que tiveram apenas um parceiro sexual ao longo de anos, quando não de uma vida inteira. Mas quando a criança crescer e virar adulta é quando essas mulheres-meninas terão que enfrentar esse medo de virarem mulheres plenas, não é mesmo? E bem quando já estão adentrando a menopausa...Deve ser bem difícil...

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  13. Assisti a Cisne Negro essa semana, e me identifiquei muito com a Nina. Já fiquei internada devido a um transtorno que desenvolvi porque não queria "crescer" devido aos comentários que poderiam surgir na família. Me tratei durante três anos, mas omiti alguns fatos por vergonha de tocar no assunto com meu psiquiatra e minha psicologa. Porém, depois de mais um tempo vejo que não fiz a coisa certa. Ainda não consegui me "recuperar" totalmente, esporadicamente tenho recaídas. Morei 6 meses fora e cresci muito nesse período sem minha mãe por perto, mas agora que retornei para o Brasil parece que tudo voltou a ser como era. Estou me sentindo muito mal ultimamente. Minhas amigas me dizem para retornar à psicóloga e voltar a tomar medicação, mas eu me pergunto até quando vou ter que viver dependente disso? Os remédios me deixam muito dopada, não me sinto como eu mesma. Gostei bastante do filme, e queria que minha mãe visse, mas quando comentei com ela que a mãe da moça do filme era parecida com ela, ela não quis nem ver o filme. Pois é, até hoje ela penteia os cabelos da minha irmã de 18 anos! Desculpa estar expondo o caso aqui, mas precisava comentar com alguém essa questão do filme, que não deixa de ser uma forma que eu tenho de buscar mais conhecimento a respeito do que se passa comigo. Gostei muito da sua explicação sobre o que ocorreu com a Nina durante o filme.

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    1. Fique à vontade, sem problemas. É importante vc continuar buscando formas de se conhecer, se entender e se ajudar. A aconselho a retomar a terapia, procure alguém que goste realmente. Terapia deveria ser aprendizado, crescimento, educação psicológica. Algo que todos precisam, não tem vergonha nisso. Um abraço

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  14. Há uma teoria que diz que a mãe de Nina também (além das cenas com a amiga) é imaginária. A mãe dela é apenas real quando há as ligações.

    Mas, olhando não simbolicamente, poderíamos considerar que a Nina sofre de esquizofrenia paranoide?

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