15/05/2011

A lenda do amor impossível porém eterno

Adriana Tanese Nogueira

Este post é dedicado às pessoas que amam com paixão. Aquelas cuja relação amorosa está essencialmente fundamentada em carinho maternal e paternal, amor morno e filial, amizade e conveniência não possam talvez compreender do que estou falando. O amor com paixão pode incluir carinho, amizade e cumplicidade, mas sua base é a paixão, uma força potente maior do que os amantes. Quando a alma é levada, a despeito do bom senso corriqueiro e da racionalidade, quando o coração agonia por alguém apésar das dificuldades nas quais irá se encontrar, quando o amor dá coragem, ousadia e força, então aquele é amor paixonal


A lenda de Tristão e Isolda remonta ao primeiro século do ano 1000. Ela parece ser a expressão da primeira tomada de conhecimento humano do fato que o Amor (com A maiúscula) pode ser tão poderoso a ponto de subjugar os dois indivíduos. Na apresentação dessa lenda por alguns autores, Amor é o imputado, não os amantes.

Já na cultura grega existia uma psicologia "divina". Os sábios gregos reconheceram rapidamente que Afrodite é imbatível e seu filho Eros lança flechas irresistíveis. Os deuses eram compreendidos pelos gregos como o que nós chamaríamos hoje de forças psíquicas. Quando se é tomados pela raiva, é Áres tomando posse de nós. Quando a paixão sexual é invencível, Afrodite está agindo. As poderosas forças divina dominam o bom senso humano e dobram sua resistência. Há forças internas que não podemos controlar. Mas Afrodite e Eros são forças sexuais. A psicologia divina grega é, de alguma forma, "fisiológica".

Mil e quinhentos anos depois, essa idéia passa por um processo de sofisticação, acompanhando a evolução da consciência humana. A lenda de Tristão e Isolda conta de amantes cuja ligação não se resume na paixão sexual. Muito pelo contrário. Neles e em sua trágica história se reflete a percepção que há relação amorosas que têm raízes nas profundezas da alma e se tornam inquebrantáveis, a despeito dos obstáculos que as circunstâncias opõem à realização desse amor. Nas diversas versões dessa lenda (entre os séculos XII e XIV) os amantes tentam diferentes caminhos: fugir na floresta para estar juntos, Tristão se casa com outra mulher, vai viver longe... Mas sempre o amor, o vínculo entre eles, mesmo quando rejeitado por eles mesmos, predomina.

O problema que essa lenda levanta é o da a-moralidade do Amor. O Amor surge como um poder (divino?) que atropela as regras sociais e morais de um grupo. A estrutura da vida em comum, os laços, os ritos, os hábitos, o "certo e errado" se encontram ameaçados por esta forma de amor. A força de união dos amantes é incompatível com seu vínculo às tradições e até as conveniências tanto coletivas quanto pessoais. É como se o Amor não coubesse no espaço sufocante das regras de convivências. Por este motivo, os amantes só se unem na morte.

Na lenda de Tristão e Isolda, os impedimentos à realização de seu amor são todos circunstanciais. Ela é filha do rei inimigo, o salva mas não lhe revela seu nome verdadeiro por óbvios motivos. Quando ele, curado, precisa fugir, ela não pode segui-lo. Deprimido por não estar com ela, Tristão se oferece para lutar numa competição cujo prêmio (ele não sabe) é a própria Isolda e que tem a finalidade de gerar a paz entre os reinos. Ele a vence... mas em nome de seu rei (que é seu tio). Seguem-se uma série de episódios baseados, no que diz respeito a eles dois, em amor, honestidade, dor, conflito de fidelidade e mais amor. Assim, pelo menos, é a história contada no filme de 2006 Tristan & Isolde dirigido por Kevin Reynolds. Apesar das divergência com as redações originais da lenda, a história captura bastante bem o essencial da lenda.

Muito influente na cultura européia, a lenda de Tristão e Isolda apresenta os amantes cujo amor não encontra lugar nesse mundo. Hoje em dia em que tantos tabus e limitações sociais cairam ainda encontramos esse drama espelhado no conflito que algumas pessoas encontram quando se trata de assumir e tornar real um amor que se choca com sua mentalidade e seus limites internos (incluindo aí infantilismo, mentiras, adição química, etc.).

Essa forma de Amor é sempre revolucionária, visando a rotura das barreiras que se interpõem à sua manifestação visível. É um Amor que atropela os egos (diferentemente daquele amor que acaricia os egos, como nas relações baseadas no padrão pai-filhinha e mãe-filhinho). Um Amor desse tipo assusta os que buscam tranquilidade e sossego numa relação amorosa e, certamente, este Amor é feito para os fortes. Ele anda, muitas vezes, de mãos dadas com a dor porque romper limites (sobretudo os psicológicos) dói.

Fogem desse Amor os que preferem segurança, tanto emocional como material, assim como os que priorizam as tradições e conveniências. Alguns nunca o conhecem, mas quando esse Amor surge na vida de alguém ele é para sempre. Podem-se tentar as escapatóias já usadas por Tristão e Isoldas tantos séculos atrás, mas o resultado será o mesmo: o Amor não morre. Os amantes podem morrer e certamente um dia morrerão, mas não seu Amor.

8 comentários:

  1. Gostei, achei interessante, e quero mais!

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  2. Nossa, que lindo texto! Mas acho que eu confundo um pouco o amor poderoso com a paixão, por conta de algum pensamento arraigado cuja origem parece ser de Platão, idealismo, algo como "o Bem só pode causar felicidade", essas coisas. Eu costumava pensar que a história desses dois não podia representar o amor porque ela não acabava bem. Mas acredito que, com a idade e a experiência, estou repensando esses conceitos...

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  3. Ahahah, gostei, Juliana: com a idade e a experiência está repensando esses conceitos. Você está saindo da idealização. Acho que o Bem que só pode causar felicidade é platonismo mesclado à cristianismo. Afinal, Platão tinha o Bem verdadeiro no mundo das Idéias, não por aqui...
    Grande abraço!

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  4. É verdade, Adriana, a gente tem que aprender a amar no mundo real! Amor de gente grande (é muito bom, com suas perfeições e imperfeições)!

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  5. Muito bom!!quero maiss!!!esse amor ..eu sinto que é muito poderoso mesmo....nós criamos todas essasa circunstancias que geralmente impedem o amor por imaturidade....?!!Por doer tanto e não sabermos como lidar com essa dor?Esse idealismo do amor na nossa sociedade cristã realmente é responsável por essa hipocrisia horrível que vemos na maioria das relações!!Parabéns Adriana..Muito obrigada!

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  6. Oi "Evolução", obrigada :-))

    Vou escrever mais a respeito. Não somos nós que criamos as circunstâncias que tornam o amor "impossível" e não se trata de idealismo... Vou explicar melhor em outro post.

    Até breve!

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  7. Muito bom texto sou poeta e estudo poesia de todas as épocas principalmente para homenagear minha musa que se chama, Carolina, e é um caso de um amor impossível. Eu sou baiano com 32 ela é nova 20 cheia de planos e sonhos. mas vou lutar e ama-la para sempre.

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